  - Eu cuido de mim mesma, senhor Pirelli  bufou Angie, reencontrando a fora dentro de seu corao.  No sou nenhuma criana.
  Dominic estava irado. Ela fora abandonada pelo desgraado do marido, que a deixou grvida e sozinha numa casa em que s pessoas muito corajosas ou criminosos que no podiam morar em nenhum outro lugar escolheriam para viver.
  Ela estava sozinha desde que ele fora embora. No era de admirar que estivesse to abatida.
  Quem podia sozinha que ela comesse adequadamente ou que cuidasse direito de si? No havia outra alternativa.
  - Junte as suas coisas  ordenou ele.  Ns vamos partir.
  - Do que  que voc est falando?
  - Voc no pode continuar aqui. Eu vou lev-la comigo.
  - No vai no. Essa  a minha casa.
  - O que a prende aqui? Voc no tem famlia, nem marido. Voc no tem nada, a no ser um filho que no lhe pertence.
  Querida leitora, 
  Muitos casais querem demais um beb, por isso recorrem a mtodos de inseminao artificial quando no conseguem engravidar naturalmente. Porm, hoje em dia sabemos como podem ocorrer erros durante o procedimento. Esse  justamente o mote para Vidas cruzadas, um romance em que os protagonistas aprendem a conviver com um erro mdico em nome da preservao da vida de uma criana. E acabam descobrindo mais sobre si mesmos durante a gestao.
  Boa leitura! Equipe Editorial  Harlequin Books

  Trish Morey
Vidas Cruzadas 
  Traduo
  Dinah Kleve
  Harlequin  
2011

  PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S..r.l.
  Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte.

  Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.
  Ttulo original: THE HEIR FROM NOWHERE
  Copyright  2011 by Trish Morey
  Originalmente publicado em 2011 por Mills & Boon Modere Romance
  Ttulo original: OUTBACK CRISIS
  Copyright  2007 by Harlequin Books S.A.
  Originalmente publicado em 2007 por Harlequin Internet Titles
  Arte-final de capa: Isabelle Paiva
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  CAPTULO UM
  - VOC NO me conhece, mas eu vou ter um filho seu.
  Era possvel que o sangue de uma pessoa parasse de fluir pelo seu corpo antes mesmo de ela morrer? Dominic Pirelli teve a impresso que sim, a julgar pelo modo corno suas veias se fecharam repentinamente e seu sangue pareceu congelar num corao que, h muito, j havia se transformado em pedra. Apesar de desejar bater o fone no gancho, ele se viu incapaz de fazer um nico movimento, mantendo toda a sua energia concentrada numa nica palavrinha.
  No!
  A necessidade de respirar, porm, falou mais alto e ele arfou. Seu sangue recomeou a pulsar lentamente, latejando em suas tmporas. Aquilo era impossvel! No importava o que o mdico havia tentado lhe dizer aquela manh. No importava o que aquela mulher estava lhe dizendo agora. Aquilo tinha que ser impossvel.
  -... um filho seu.
  Aquelas palavras ecoaram em sua mente, desafiando a lgica, sem fazer sentido algum. Ele respirou fundo, tentando retomar o controle do dia que havia virado de cabea para baixo.
  Aquilo no era nada comum para ele. Normalmente, era preciso bem mais para pegar Dominic Pirelli de surpresa.
  Muitos adversrios j haviam tentado tirar vantagem dele, sem sucesso, tendo sido deixados para trs, em meio  poeira, enquanto ele avanava gradualmente com seus prprios planos. Muitas mulheres tambm j haviam tentado prender o investidor bilionrio e fracassado em seu intento.
  Via de regra, nada acontecia na vida de Dominic sem que ele o desejasse profissionalmente, ou lhe desse a sua sano pessoal.
  Aquele dia, porm, j havia deixado de ser comum uma hora antes, quando o mdico lhe telefonara para dar a notcia. Um engano, pensou ele, a princpio.
  Uma impossibilidade.
  J haviam se passado tantos anos. Era evidente que algum tinha pegado o nome errado nos arquivos; que algum tinha teclado o nmero errado de telefone. Ele dissera tudo isso ao mdico, mas fora informado pelo mdico que o nico engano em toda aquela histria havia ocorrido h cerca de trs meses, quando o embrio errado tinha, de algum modo, sido implantado na mulher errada. Apesar da interminvel torrente de pedidos de desculpas, porm, Dominic continuava se recusando a acreditar que aquilo pudesse ser verdade.
  Foi ento que o telefone tocou pela segunda vez e a voz de uma mulher pronunciou as palavras que transformaram uma ideia assustadora numa terrvel realidade.
  Eu vou ter um filho seu.
  Ele se recostou em sua cadeira, virando-a para poder ver alguma coisa, qualquer coisa, menos aquele pesadelo que consumia os seus pensamentos e a sua viso. A vista que ele sabia que deveria estar l, porm, a imagem de carto postal do belo Porto de Sidney, com seus iates e balsas passando sob a ponte, estava turva, como que tomada por um verdadeiro mar de incredulidade.
  
  Dominic apertou os olhos e beliscou o seu nariz com tanta fora que chegou a ver fogos de artifcio espocarem por trs de suas plpebras cerradas, mas nem aquilo foi capaz de amenizar a sua angstia ou a sua dor.
  Aquilo no podia estar acontecendo! No daquela maneira!
  
  - SENHOR PIRELLI... - disse a voz, hesitante, trmula. Quase como se a pessoa do outro lado da linha estivesse to chocada quanto ele. Impossvel.  Ainda est a?
  Ele soltou o ar, lentamente e em alto e bom som, sem tentar disfarar. No se importava com nada naquele momento, que dir com parecer civilizado.
   Por que est fazendo isso?  disse ele.	Qual  o seu interesse nessa histria?
  Ouviu ento uma arfada, um grito abafado e quase se arrependeu por ter dito o que estava pensando em voz alta. Quase. Afinal, ele s havia dito a verdade. A experincia lhe dizia que as pessoas raramente faziam algo sem a inteno de obter alguma vantagem com isso.
  Eu achei apenas, que, devido s circunstncias, voc deveria ser informado.
   Uma pinoia.
  Houve uma pausa.
   Sinto muito. No posso fazer nada quanto ao seu modo de encarar as coisas. Minha inteno ao contact-lo foi a de encontrarmos uma sada para essa loucura.
  Essa loucura. Ao menos nisso ela estava certa.
   E voc acha que existe alguma soluo para isso? Ser que acredita em contos de fadas tambm?
  Ele pensou que ela fosse desligar. Torceu mesmo para que ela o fizesse, ainda que somente para dar fim a uma conversa para a qual ele no estava preparado.
  No sabia, ao certo, se seria capaz de desligar primeiro, nem estava preparado para se fechar completamente para a chance de... Do que, exatamente? A chance de ter um filho, chance que j havia deixado de existir h muito tempo, assim como o seu casamento?
  Nenhum clique, porm, soou do outro lado da linha a fim de aliviar, ao menos momentaneamente a dor e a culpa que ele sentia. Nenhum som, apenas uma pausa que ficava cada vez mais pesada a cada segundo, at ele se flagrar inexplicavelmente ansioso pela resposta dela. O que ela estava pensando? O que ser que queria dele, realmente? Lamentavelmente, os mais de 15 anos que ele tinha passado construindo o maior imprio comercial da Austrlia o haviam deixado despreparado para uma coisa daquelas.
  - Sei que foi um choque para voc  disse ela suavemente.  Eu compreendo.
   Eu duvido muito.
   Isso  muito difcil para mim tambm!  disse ela, com uma voz mais estridente e dolorida. Acha, realmente, que eu fiquei felicssima ao descobrir que estava grvida de um filho seu?
  Um filho dele? A sbita compreenso o tornou de assalto como um soco no estmago. No se tratava de um mero conceito; aquela mulher estava esperando um filho dele. Um filho seu e de Carla. O filho que ela desejara to desesperadamente conceber. O filho que ela no fora capaz de ter, nem mesmo depois de diversas tentativas frustradas de fertilizao in vitro. Ele levou uma mo  testa e sentiu o choque dos acontecimentos retumbar no ritmo do pulsar do sangue em suas tmporas e um gosto amargo de bile em sua garganta.
  Aquela mulher, porm, aquela estranha, havia obtido sucesso onde Carla fracassara tantas e tantas vezes.
  Por qu?
  Quem era aquela mulher que podia virar a sua vida de cabea para baixo? Quem era ela para provocar os fantasmas de seu passado? Quem lhe dava o direito de criar aquele tumulto em sua vida?
  Tudo o que ele sabia era que no podia resolver aquilo por telefone. Teria que se encontrar com ela para tratar daquilo pessoalmente.
  Ele puxou a gravata e abriu o boto de cima da camisa, mas continuou com a sensao de abafamento. Quando finalmente saiu de sua garganta, sua voz estava rouca.
   Como foi mesmo que disse que era o seu nome?
   Angie. Angie Cameron.
   Olhe, srta. Cameron...
   Na verdade,  senhora, mas pode me chamar de Angie.
   claro. Ele se recostou em sua cadeira. Ela podia soar como uma adolescente nervosa ao telefone, mas tinha que ser casada, e j h alguns anos, at, para estar se submetendo a um tratamento de infertilidade.
   Olhe, sra. Cameron -- disse ele, ignorando o convite  informalidade, quando ainda estava tendo dificuldade em acreditar na sua histria  esse no  um assunto que possamos discutir no telefone.
   Eu compreendo.
  Dominic respirou fundo e balanou a cabea. Meu Deus! Ela precisava soar como algum tipo de terapeuta? Se estava to aborrecida por estar gestando um filho seu, por que no vociferava, gritava e xingava, transtornada contra aquela injustia, como ele queria fazer? Ser que ela no estava percebendo que o mundo dele estava caindo aos pedaos, um mundo que ele havia levado anos para construir?
   Temos que nos encontrar  disse ele entredentes cerrados, girando em sua cadeira, com o dedo sobre a tecla do telefone que o conectaria a Simone.  O mais rpido possvel. Vou coloc-la novamente em contato com a minha assistente pessoal. Ela cuidar dos detalhes.
  Se ela ainda tinha mais alguma coisa a dizer, Dominic no ouviu, pois apertou a tecla e bateu o telefone no gancho, sentindo os seus pulmes arderem e sua testa salpicada de suor como se ele tivesse acabado de correr quilmetros ao longo de um penhasco. Simone podia tratar daquilo. Ela era boa em amarrar as coisas enquanto ele seguia adiante para tratar do que vinha na sequncia.
  Mas o que viria na sequncia? O que se seguia  descrena?
  Raiva, concluiu ele, sentindo o sangue martelar alto em seus ouvidos e o fogo queimar as suas entranhas. A ira borbulhava em seu interior como a lava de um vulco prestes a entrar em erupo  procura de uma sada.
  O impossvel havia acontecido.
  O impensvel.
  E algum ia pagar por aquilo!

  Captulo Dois 
  ANGIE COLOCOU o fone no gancho com a mo ainda trmula e as faces midas de lgrimas. O que ela havia esperado, afinal?
  Que aquele homem recebesse de bom grado a notcia de que ela estava esperando um filho seu como se aquilo fosse uma espcie de milagre?
  Dificilmente. Ela secou o rosto com as costas de sua mo, pegou um leno de papel e assuou o nariz.
  Aquilo no havia lhe parecido nenhum milagre quando ela fora informada do fato. Muito pelo contrrio.
  Mas ele tinha que ter ficado to zangado? Qualquer um pensaria que a culpa era dela.
  Ela pousou a mo sobre a barriga ainda plana, a morada de uma criana que ela nunca havia realmente desejado. Uma criana que ela s concordara em gerar porque Shayne desejava desesperadamente um filho, o filho que acabara no sendo dele.
  Talvez a culpa fosse sua.

  Shayne havia lhe dito que ela no era uma mulher normal. Uma mulher de verdade deseja ter filhos, dissera ele, ao lhe comunicar que cancelariam as frias a fim de usar o dinheiro para pagar a Carmichael Clinic, a melhor clnica de fertilidade de toda a Austrlia.
  Uma mulher de verdade no precisaria se submeter a uma fertilizao in vitro para engravidar.
  E ento, quando a fertilizao finamente deu certo e ela parecia prestes a dar a Shayne o filho que ele tanto queria, a clnica ligou para lhes comunicar o terrvel erro que havia cometido e ela voltou a ser novamente um fracasso.
  Uma mulher de verdade no ia querer gestar o filho de outro homem. Uma mulher de verdade aceitaria a oferta generosa da clnica de consertar as coisas.
  Talvez Shayne tivesse razo.
  Talvez aquele fosse o seu castigo por no ser uma mulher de verdade. Amaldioada com um filho que ela nunca havia realmente desejado e que no era nem mesmo dela, e mesmo assim, incapaz de se convencer a, como dissera Shayne to eloquentemente, dar um jeito naquilo.
  Dar um jeito.
  Ele fazia tudo parecer to simples. S que ela no estava carregando um saco de lixo dentro de si que poderia ser jogado fora a qualquer hora. Quer ela o desejasse, ou no, havia um beb crescendo em seu ventre. Uma vida. O filho de outra pessoa.
  Como ela poderia simplesmente "dar um jeito" depois de todo o esforo da clnica, de todos os testes, injees, procedimentos e torcidas para que ela engravidasse?
  Ela nunca faria uma coisa dessas.
  Alm do mais, aquela deciso no era apenas dela. Havia um casal, em algum lugar do mundo, empenhado em criar aquela nova vida. Aquela criana era deles por direito e eles mereciam, ao menos, saber da existncia de seu beb.
  Ela fechou os olhos com fora. Que triste destino, o daquele beb, acabar em seu ventre, justamente o dela, uma mulher que jamais desejara realmente ter um filho e que s havia concordado em faz-lo para tentar salvar o seu casamento.
  Que ironia!
   Eu sinto, muito, beb, mas eu vou conhecer o seu papai em breve. Talvez sua mame tambm. Eles vo querer voc, eu tenho certeza.
  E se no o quisessem?
  Uma lgrima solitria rolou pela face dela ao se lembrar do telefonema e do tom de condenao do homem, como se ela fosse a culpada por um enorme desastre.
  Ela tambm havia passado pelos mesmos estgios.
  Primeiro o choque, a descrena. Um completo espanto diante de um erro to fundamental por parte de uma instituio mdica, um lugar supostamente especializado em transformar sonhos em realidade, e no em criar pesadelos.
  E ento veio todo o impacto das reaes de Shayne.
  Ele havia passado do choque  fria em menos de um segundo. Fria pelo fato do beb de que ele vinha se gabando para todos os familiares e amigos h um ms no ser dele. Fria devido  clnica ter acabado com os seus planos. Uma fria que havia mudado de direo e se voltado para Angie quando ela se recusara terminantemente a fazer o aborto que a clnica havia lhe oferecido.
  Ela podia compreender muito bem o quanto o sr. Pirelli deveria estar chocado naquele exato momento.
  Ele poderia ter desligado na sua cara, poderia ter simplesmente negado que a criana fosse dele, mas havia aceitado a sua ligao e concordado em encontr-la no dia seguinte. Aquilo era o que de melhor ela podia legar ao pequenino beb que estava crescendo dentro dela no momento, uma chance de ele se encontrar com seus pais verdadeiros, com as pessoas que haviam passado o diabo para ger-lo e que tinham direito a ele em primeiro lugar.
  Um carro desacelerou do lado de fora. Ela olhou para o relgio da parede, viu que j eram quase 18h, e por apenas um momento, imaginou que deveria ser Shayne voltando da fundio, e entrou em pnico por ainda no ter comeado a fazer o jantar.
  Foi ento que uma dor ainda mais aguda a lembrou. 
  Shayne no ia mais voltar para casa.
  Ela estava sozinha.
  O calado do Darling Harbour estava lotado de pessoas gozando suas frias, disputando espao com os atores de rua. As gaivotas guinchavam tanto sobre as cabeas quanto sob os ps das pessoas, lutando por migalhas, enquanto um veleiro deixava centenas de turistas no cais.
  Dominic suspirou, sentindo-se deslocado, enquanto ele e Simone esperavam, perto do local de encontro, desejando que sua assistente pessoal tivesse escolhido um local mais reservado para aquele momento. Mantenha a coisa num tom informal, sugerira Simone. Territrio neutro, longe dos seus escritrios de advocacia, o que poderia dar a impresso de que ele estava disposto a fazer algum tipo de acordo com ela. Longe do prdio Pirelli onde a sua riqueza ficaria evidente assim que ela entrasse no lobby de mrmore. Aquela sra. Cameron podia estar se oferecendo a fazer algum gesto altrusta, mas ele no tinha nenhuma prova de que ela estava sendo sincera, de modo que era melhor no exp-la  tentao.
  Ele tirou o palet e o pendurou por sobre o ombro. No era mais Dominic Pirelli, o grande investidor e estrategista bilionrio, mas apenas mais um homem de terno e gravata em sua escapadinha na hora do almoo.
  S que aquele homem de terno e gravata estava esperando para conhecer a mulher que estava carregando o seu filho no ventre.
  A expectativa crescia dentro dele. Ele olhou para o Tag Heuer de platina em seu pulso e viu que ela j estava atrasada.
   Acha que ela vai vir?  -- perguntou Simone, olhando para trs, dando voz ao maior dos medos dele.  E se ela mudar de ideia? No temos nenhum telefone para contato.
  -- Ela vir  disse ele, torcendo para que fosse verdade. Depois do modo como a havia tratado no dia anterior, Dominic no ficaria nem um pouco surpreso por ela pensar duas vezes.
  Os olhos de Angie estavam pesados e irritados ao se apressar pela ponte de pedestres que ligava as ruas alvoroadas de Sydney CBD ao centro turstico de Darling Harbour.
  Os gritos na vizinhana e os pesadelos repletos de cachorros rosnando e puxando as suas roupas a haviam impedido de dormir. Um daqueles cachorros havia, a certa altura, assumido as feies de Shayne, cercando-a e latindo insultos, dizendo-lhe que ela nunca seria uma mulher de verdade. J outro a havia acalmado com palavras de conforto, ao mesmo tempo em que tentava pegar o seu beb.
  Ela havia despertado com medo dos seus prprios gritos, arfando, desesperada, enroscada nos lenis, seu corpo suado e sua cama solitria mais vazia do que nunca. Mas segura, concluiu ela, e abenoadamente a salvo daquele pesadelo.
  Fora impossvel dormir depois daquilo. Aquelas imagens a haviam deixado trmula e assustada, ainda mais aliadas aos sons da noite em Sherwill como o guincho dos pneus dos carros que participavam dos  pegas e os gritos dos vizinhos e s centenas de suposies que ela fizera a respeito do desenrolar do encontro do dia seguinte. No era de admirar que ela no tivesse conseguido dormir.
  A leve brisa de vero balanou seus cabelos, carregando consigo uma combinao de fumaas do leo diesel da auto-estrada abaixo e das engorduradas rosquinhas de um quiosque l perto que fez o estmago de Angie revirar novamente. Era uma injustia. No havia mais nada em seu estmago, e mesmo assim, ela sentia vontade de vomitar.
    Por, favor, Deus, pensou ela. No agora quando ela estava correndo para chegar  sua reunio. Havia perdido o caf da manh, uma torrada e uma xcara de ch, 10 minutos depois de ter se forado a engoli-lo, e isso j fazia horas.
  Uma hora passada num trem lotado, tambm no havia ajudado muito, nem tampouco o homem que a havia empurrado assim que ela saltou, quase fazendo com que ela se espatifasse na plataforma. Ele desapareceu em meio  multido sem sequer um pedido de desculpas, enquanto ela teve que se sentar por 10 minutos para se acalmar.
  L se ia a sua esperana de parecer relaxada e composta aos olhos do pai da criana que estava crescendo dentro dela.
  Angie piscou contra o sol do meio-dia, ajeitando os culos escuros sobre o seu nariz ao descer os ltimos degraus em direo ao calado lotado, desejando, subitamente, ter vestido algo mais leve. Quisera vir mais coberta, mas estava quente demais para a sua cala jeans e o seu velho casaco.
  Ela abriu caminho pela multido, desejando, em parte, nunca ter concordado em encontrar aquele homem ali. O Darling  Harbour havia lhe parecido um lugar cosmopolita e extico. A secretria do sr. Pirelli o havia sugerido como o ponto de encontro e ela fingira saber exatamente como chegar l, excessivamente embaraada para admitir que j no ia l h anos.
  Ficara to aliviada por ele ter concordado em v-la que no quis discutir a respeito do lugar.
  Aquilo era um bom sinal, no era? Significava, certamente, que ele desejava aquela criana. Tudo o que ela queria era que aquela criana ficasse com os seus pais legtimos, e fosse amada por eles.
    E se eles decidissem que no a queriam?
  Angie aspirou o ar salgado. Havia outras opes, outros casais incapazes de ter filhos que adorariam ter um bebezinho para si. Aquele beb haveria de fazer algum feliz, ela estava certa.
  Ela tirou um bilhete amassado do bolso, checou novamente as suas coordenadas e avaliou os arredores com certa apreenso ao reconhecer o arco verde do Harbourside Shopping Centre onde a assistente dele lhe havia dito para esperar.
  Viu um casal sentado a urna mesa, de mos dadas, com as  cabeas baixas, num clima intenso. Ela hesitou, sentindo o corao bater com fora dentro do peito. Seriam eles?
   A mulher secou uma lgrima no canto do olho. S podiam ser eles. Aquele era o lugar certo e ela estava atrasada. Ser que a mulher estava chorando porque achara que ela no apareceria?
  Angie ainda hesitou, no querendo invadir aquele mofento ntimo. Olhou em volta  procura de mais algum casal provvel. Havia uma srie de estudantes japoneses alinhados a beirada do calado, uma famlia italiana sentada numa mesa prxima, tornando sorvete e um homem usando uma camisa branca com o palet jogado sobre o ombro, de p, de costas para ela.
  Ela quase passou direto por ele.
  Quase.
  Os olhos dela logo se voltaram novamente em sua direo. Ele era alto, moreno e atraente, mesmo daquele ngulo. Quando ele virou a cabea para falar com a mulher elegante  que Angie no havia visto ao lado dele, seu perfil s fez aumentar ainda mais o seu poder de atrao. Um nariz e um maxilar fortes e um par de sobrancelhas escuras sobre os olhos que pareciam focados na mulher ao seu lado.
  Era muito pouco provvel que fossem eles.
  A mulher parecia tranquila e composta, nem de perto ansiosa o bastante para conhecer a mulher que estava inadvertidamente carregando o filho dela em seu ventre, enquanto e era excessivamente perfeito e viril. Sabia que a  fertilidade  no tinha nada a ver com a aparncia, mas achou muito difcil de acreditar que aquele homem precisava de ajuda naquela rea. Seus olhos se desviaram. Foi ento que ela ouviu um grito de angstia e se virou a tempo de ver a mulher no banco se levantar, e o homem estender a mo para det-la.
  A culpa a consumiu. Ela no poderia ter se atrasado tanto. 
  No deveria ter hesitado e aumentado a sua angstia.
  Ela respirou fundo, forando-se a dar os poucos passos hesitantes que a separavam do casal.
  Os olhos de Dominic seguiram na direo indicada por Simone, pousando sobre um casal sentado numa mesa prxima.
  Ele respirou fundo. Seria aquela a mulher que havia telefonado para ele? Seria o homem sentado ao seu lado seu marido? Era evidente que eles no eram turistas, tanto pela roupa que usavam, quanto pela expresso em seus rostos, que deixava evidente que algo ia definitivamente mal.
  Seria porque ela estava carregando o filho de outro homem em seu ventre? O dele?
  Dominic ficou sem flego e sentiu todos os seus rgos se contrarem. Estaria o filho que Carla to desesperadamente desejara crescendo dentro daquela mulher?
  Ele avaliou o casal enquanto tentava normalizar a sua respirao outra vez.
  A mulher era loura, magra e atraente, sob aqueles olhos tristes. O homem era mais velho, notou  ele, enquanto ela parecia ter cerca de 35 anos, idade, suspeitou ele, em que j poderia ter comeado a entrar em pnico por ainda no ter tido filhos.
  Ser que o filho que ela tanto almejara ter havia sido implantado em outra pessoa?
  Os olhos dele se moveram rapidamente sobre as roupas deles. Ambos usavam vestes caras. Talvez ela tivesse sido sincera quanto a no estar interessada no dinheiro dele. Com o preo que a Carmichael Clinic cobrava, pensou ele, eles precisavam mesmo ser pessoas de posses.
   O que voc acha? --	perguntou Simone.
   Tem que ser eles  ponderou Dominic, desviando o olhar do casal por um momento para avaliar a multido. Depois assentiu, sentindo um estranho aperto em seu peito ao contemplar o prximo passo a dar.  Vamos descobrir.
  Ele mal havia pronunciado aquelas palavras quando a mulher subitamente gritou e se levantou.
  O homem a seguiu, tentando acalm-la. Dominic abriu caminho por entre os pedestres. Ser que a mulher achava que ele no ia aparecer? Ele no deveria ter hesitado.
   Senhora Cameron?
   Senhor e sra. Pirelli?
  O casal olhou em volta, ambos atnitos por um momento, mas a ateno de Dominic j tinha sido atrada pela mulher que havia chegado pela esquerda, a mulher com o nome dele em seus lbios.
   Quem  voc?  perguntou ele.
  Captulo Trs
  ELA ESTAVA toda desmazelada e plida, o fantasma de uma mulher, vestindo roupas sem vida e o cabelo cor de gua suja preso num rabo de cavalo descuidado.
  -- Ache que...
   Eu sou Dominic Pirelli.
    Oh.
  Simone se juntou a ele batendo os seus saltos altos no cho e exalando seu perfume francs.
   Ento essa deve ser a senhora Cameron.
  Dominic quis contradiz-la. Ele j havia decidido quem era a sra. Cameron e no era aquela mulher esfarrapada. Ele se virou e viu o casal desaparecendo rapidamente em meio  multido, e ento se voltou novamente, sem querer acreditar. Como aquela mulher poderia ser capaz de gestar o seu filho?
  Como a equipe da clinica poderia ter implantado o seu filho nela?
  Mas ela estava l, onde eles haviam combinado de se encontrar, e tinha pronunciado o seu nome...
  Angie engoliu em seco e Dominic seguiu o seu movimento, atentando para o seu pescoo extremamente fino.
  - isso mesmo  disse ela, quase como se temesse admiti-lo.  Eu... Eu sou Angie Cameron.
  Ela lhe pareceu insegura, temerosa, soando mais como uma adolescente. Dominic tentou supor a sua idade, mas no conseguiu chegar a uma concluso. Ela no se parecia em nada com as mulheres com quem ele costumava lidar.
  - E voc -  disse a maltrapilha, esfregando as palmas em seu jeans antes de estender a sua mo  deve ser a sra. Pirelli. Eu realmente sinto muito por termos de nos conhecer em tais circunstncias.
  Aquelas palavras eram desnecessrias. Dominic no podia se imaginar tendo algum contato com ela em outra situao que no aquela.
  - Simone no  a minha esposa  disse ele, num tom afiado.  Ela  a minha assistente pessoal.
  Algo cintilou nos olhos de Simone diante da rpida correo feita por seu chefe e desapareceu to rpido quanto surgiu. Angie piscou, muito desambientada, ainda hesitante por ter bancado a idiota ao abordar o casal errado, ter ignorado justamente o homem que ela havia vindo procurar e ainda por cima ter se enganado quanto  identidade da mulher que o estava acompanhando.
  Ao flagrar o modo como ele estava olhando para ela, como se ela fosse algum tipo de escria, porm, ela achou melhor recolher sua mo.
  Mesmo que no tivesse percebido a sua repulsa, ela no sabia se seria capaz de deixar que a mo dele engolisse a sua. Ele j havia lhe parecido grande antes, a distncia, mas 
agora, diante dela, parecia uma verdadeira montanha. Um obstculo intransponvel que com apenas um toque, sugaria todas as foras que ainda lhe restavam.
  Ela no se ariscaria. No quando precisava de todos os recursos de que dispunha para cuidar do minsculo beb que crescia em seu ventre.
  Angie fechou os olhos. Oh, meu Deus. O, filho desse homem.
  Uma sbita rajada de vento a tomou de assalto e ela cambaleou um pouco, antes de sentir a mo dele se fechar com fora em torno do seu brao.
   Sente-se  disse ele, com uma voz grave e pontiaguda que se arrastou pela espinha dela  antes que voc caia.
  Dominic a conduziu at o banco, agora vazio, e ela desmontou sobre ele, grata, ainda atnita com o fato de a mo dele parecer ser feita de ferro. Levou uma mo ao local, certa de ainda poder sentir o calor do seu toque em sua pele formigante.
  Ele disse algo  mulher ao seu lado, que desapareceu num piscar de olhos enquanto ele olhava em volta, passando os dedos nervosamente pelo cabelo.
   Onde est o seu marido?  perguntou Dominic, buscando em meio  multido.  Ele certamente veio com voc, no ?
   Ele no est aqui.
  Dominic virou a cabea, incrdulo.
  - Ele a deixou vir sozinha, nesse estado?
  Angie quase conseguiu forjar um sorriso, supondo que ele estava se referindo  sua gravidez, mas lembrou da expresso que havia visto em seus olhos, como se ela fosse o ltimo dos mortais e desistiu. Sabia que ela estava um lixo ultimamente. Shayne no o havia dito inmeras vezes? Ela deu de ombros.
   No  to grave. Eu fico um pouco enjoada pela manh, mas tudo passa at a hora do almoo.  Ou, pelo menos, costumava passar. Aquele dia era uma exceo,  claro.-   O trajeto da estao at aqui foi uma loucura.
  A mulher reapareceu com uma garrafa de gua mineral.  
  Tome  disse ela, estendendo-a a Angie.  Voc parece estar precisando disso.
  Angie agradeceu, genuinamente grata pelo gesto, apesar no precisar de mais um lembrete a respeito de sua aparncia.  A gua refrescou o seu corpo aquecido e a sua mente embaralhada, reabrindo a porta para a esperana.
  Talvez o pior j tivesse passado e no houvesse mais choques. Talvez agora eles pudessem simplesmente  lidar com a sit uao e prosseguir com suas vidas.
   Voc comeu alguma coisa?
   No estou com fome  insistiu Angie, interessada  nos arranjos necessrios.
  Seu estmago, porm, tinha outras idias, e roncou to o que ela no teve como disfarar.
    claro que voc no est com fome. Simone, consiga uma mesa para ns no Marcello's. O mais reservada possvel. Ns iremos logo em seguida.
   Tem certeza? Achei que voc queria ter essa conversa algum lugar pblico.
   Ns no podemos conversar aqui. Alm do mais, essa mulher  precisa comer.
    claro  disse Simone, com um sorriso tenso, saindo bruscamente.
   Eu no quero causar nenhum problema  disse Angie, nos olhos fixos na mulher que se afastava, momentaneamente hipnotizada pelo movimento daquela brilhante cortina de cabelo, sabendo que aquele corte deveria ter custado uma fortuna.
  Angie no se lembrava da ltima vez que havia ido a um salo, em vez de cortar o cabelo por conta prpria, em frente ao espelho do banheiro.
  - Voc consegue andar? Precisa de ajuda?
  Angie olhou para Dominic e flagrou aquela expresso em seus olhos novamente, como se ele a estivesse avaliando para saber se ela era adequada para carregar o seu filho, concluindo, por fim, que deixava a desejar.
  A situao era complicada. Ele estava preso a ela, e ela a ele, e ambos teriam que fazer o melhor possvel. Angie se forou a levantar, determinada a mostrar a ele que no passava o dia inteiro sendo carregada por rajadas de vento, ou por homens que mais pareciam montanhas.
   Obrigada, mas isso no ser necessrio. O almoo tambm no. Prefiro tratar do que faremos em relao  situao em que nos encontramos.
   Ns podemos tratar dessa "situao" depois que voc tiver ingerido alguma coisa. Ser mais fcil assim  disse ele, tomando-lhe o brao para conduzi-la na direo em que Simone havia desaparecido, provocando uma exploso de estrelas ao longo do brao de Angie.
  Ela afastou o brao instintivamente, mas ele j a havia soltado e ela se perguntou se teria sido devido  mesma e inesperada corrente eltrica. Mas no. Era bem mais provvel que ele tivesse simplesmente alcanado o que havia se determinado a conseguir, submet-la  sua vontade.
  Ela, porm, estava faminta demais para discutir. Precisava comer e eles precisavam conversar. Tinha, provavelmente, o suficiente em sua carteira para um sanduche ou coisa parecida, qualquer coisa para afastar aquelas estranhas sensaes formigando sob a sua pele.
   Eu a machuquei?
  Angie ergueu os olhos e o encontrou olhando para ela sem interromper o seu passo.
  Seu brao  disse ele.
  Foi s ento que ela se deu conta de que estava esfregando o l ugar que ele havia tocado.
   No  disse ela, desviando o seu olhar do olhar penetrante dele, temendo subitamente que ele pudesse enxergar coisas demais.
  O que aquele homem tinha que a deixava to desconfortvel? O fato de ela saber que ele no estava gostando do que estava vendo? De se ressentir to claramente por ser obrigado a ter algum contato com ela? Bem, isso era problema dele, no dela.
  - timo  disse Dominic, sem olhar para ela.
  No que ele tivesse que se preocupar em olhar por onde andava.
  A. multido  frente deles parecia se dispersar diante do passo decidido, abrindo caminho para ele passar majestosamente, fazendo com que ela se perguntasse que tipo de homem era aquele, que causava aquilo nas pessoas com a simples fora de sua presena.
   Voc est to magra que eu tive medo de ter quebrado alguma coisa.
  Quer dizer que agora ela era to magra que podia se partir? Angie disse a si mesma que no fazia a menor diferena o que ele achava ou deixava de achar de sua aparncia. Eles no precisavam gostar um do outro. Afinal, depois que aquele beb nascesse, eles, provavelmente, nunca mais voltariam a se ver.
  At mesmo antes disso, se ele assim o preferisse. Mas o tom dele a ferira. Ela no era perfeita, sabia disso melhor do que qualquer outra pessoa, mas seria urna me to boa quanto possvel para aquela criana nos meses em que ela estivesse sob os seus cuidados.
  O que mais algum poderia querer dela?
  Foi ento que ela se questionou a respeito da ausncia da esposa dele. Por que ser que ele havia levado a sua assistente pessoal para aquele encontro, em vez dela?
  Talvez ela estivesse arrasada com as notcias que recebera. Talvez ele ainda nem tivesse contado nada a ela.
  Talvez ele tivesse querido v-la primeiro para se assegurar de que ela realmente merecia gestar o seu filho antes de dar a notcia  sua esposa.
  Se aquele encontro tinha sido um teste, ela, com certeza, no havia passado. Os olhares desdenhosos dele deixavam isso bastante claro.
  Ela se enroscou ainda mais em seu casaco, sentindo muito calor sob ele, apesar da brisa que soprava no porto, sentindo, porm, a necessidade de disfarar os seus braos que lhe pareceram estranhamente magros. Como ela podia culp-lo por tentar proteger a sua esposa? Em sue lugar, ela tambm, certamente desejaria que a mulher que estivesse carregando o seu filho parecesse ao menos humana a no um inseto de  olhos vazios. Ela havia parado de se pesar ultimamente. Seu mdico havia lhe assegurado que ela ganharia peso e voltaria  sua antiga aparncia assim que os enjoos passassem, mas ela estava comeando a duvidar que aquilo fosse realmente acontecer algum dia.
   Por aqui  disse ele, com um gesto em direo a um lance de degraus que conduzia para dentro, roando os seus dedos no cotovelo de Angie e enviando outro indesejado choque de eletricidade pelo brao de Angie que fez o seu pulso acelerar.
  Ela trouxe a sua bolsa para mais perto de si, juntando os cotovelos a fim de manter uma distncia segura dele. Talvez fosse melhor se eles no tivessem mais que se encontrar depois daquele dia.
  Seu estado, porm, no melhorou em nada quando ela se deu conta de que os degraus os haviam levado para longe da arca lotada de turistas, em direo a um ambiente bem mais calmo e luxuoso. Sem ele ao seu lado, ela jamais teria se aventurado a subir aqueles degraus.
  Para alm disso, ficava a entrada de um restaurante bastante intimista.
  A parede externa exibia o nome do lugar em letras ornadas em ouro queimado. Marcello's. Eles poderiam muito bem ler escrito a palavra caro em seu lugar.
  Ele s podia estar brincando. Aquilo estava a lguas de distncia dos restaurantes fast-food que ela costumava frequentar.
  Angie se deteve to repentinamente que ele j estava no meio do caminho quando percebeu o fato.
   Eu no posso entrar a!  disse ela, quando ele olhou para trs, arqueando uma sobrancelha impacientemente. Olhe s para mim.  Por acaso ele tinha se esquecido do modo como havia olhado para ela ao avali-la de cima a baixo, pouco antes?  Eu no estou vestida para comer fora, ainda mais num lugar como esse!
   Isso no  to importante assim.
    provvel que eles nem me atendam.
  Voc est comigo  disse ele, abruptamente, sem fazer concesses ao seu ego, dizendo-lhe que ela estava bem.  Eles a atendero.
  Ela se contorceu, nervosa. Seria realmente preciso ser mais explcita?
  A verdade  que eu no trouxe...  Ela hesitou, no querendo revelar sua triste condio financeira, ainda que aquilo, provavelmente no fosse surpreend-lo.  Eu no tenho dinheiro para comer num lugar como esse.
  Dominic nem piscou.
   Fica por mina conta. Voc pode pedir o que quiser. 
   Est brincando? Qualquer coisa?
   Qualquer coisa.
  Seu estmago aplaudiu a ideia com mais um ronco, e sua resoluo vacilou, apesar de ela ter ficado ressentida pelo tom caridoso dele.
  Para o diabo com os cortes de cabelo, disse ela a si mesma, j imaginando os pratos a que pertenciam aqueles incrveis aromas. Ela poderia cortar o seu cabelo em frente ao espelho do banheiro para sempre. Quando fora, alis, a ltima vez que ela havia comido fora de casa, num restaurante de verdade?
  Tomada de emoo, ela se lembrou.
  No Natal, cinco anos atrs.
  O ltimo Natal antes de sua me morrer...
  Os hormnios se combinaram com os seus nervos atormentados e as lembranas, resultando num espontneo fluxo de lgrimas ao recordar de um dia que havia partido o seu corao e a colocado na rota de coliso com o desastre.
  - Droga  disse ela, secando o rosto. -- Eu sinto muito.
  - No me interprete mal  disse ele.  Minha preocupao diz respeito unicamente ao beb.
  Que homem arrogante! Ser que ele achava mesmo que as lgrimas dela eram de gratido?
  Ser que ele estava temendo que ela se jogasse no cho e beijasse os seus ps, ou que ela estivesse achando que ele poderia estar preocupado com o seu bem estar?
  Nunca!
  Angie se empertigou.
  - Isso no  nenhuma novidade, sr. Pirelli.
  Ela passou por ele com o seu jeans gasto e o casaco barato com toda a dignidade de que foi capaz.
  Ele j no havia deixado cristalinamente claro, com o seu indisfarado desdm, que a considerava um ser inferior?
  Angie no tinha nenhuma iluso de que ele realmente quisesse comer com ela. Sabia muito bem que tudo o que ele queria era se assegurar de que ela pudesse nutrir o seu precioso beb.
  timo. Mas com beb ou no, ela estava decidida a desfrutar de cada garfada.
  Sua bravata durou apenas o tempo que o maitre levou para not-la, cujo olhar fez com que ela se lembrasse imediatamente de quem era e onde estava. Assim que percebeu, porm, com quem ela estava, ele pareceu perdoar subitamente a sua inadequada intruso, sorrindo amplamente e abrindo os braos numa saudao.
  Signor Pirelli,  sempre um prazer receber o senhor e seus convidados. Por aqui, por favor.
  As cabeas se viravam na direo dela. Mulheres que pareciam estar vestidas da cabea aos ps com os artigos expostos nas lojas pelas quais eles haviam passado no caminho lanavam olhares famintos na direo dele, devorando-o, antes de se voltar para ela, arqueando as sobrancelhas, claramente intrigadas com a incompatibilidade entre os dois. Ela baixou a cabea e olhou para o tapete vermelho para no ter que enfrentar a expresso estampada em seus rostos, mas nada teve como no ouvir as conversas e risadinhas durante a sua passagem pelo salo.
  O rosto dela ficou em chamas. Todos sabiam que ela no pertencia quele lugar. Todos, aparentemente, exceto o sr. Pirelli. Ou talvez ele simplesmente no se importasse.
  A mesa deles estava posta num compartimento privado, discretamente afastado dos outros.
   Madame?
  Angie, ento se deu conta de que o maitre estava esperando com uma cadeira puxada especialmente para ela, e mais uma vez desejou desesperadamente que eles tivessem ido a um lugar mais casual, onde houvesse bancos de plstico branco como ela estava acostumada.
  Ela engoliu em seco e se sentou. Era to estranha quele mundo que at mesmo os empregados faziam com que ela se sentisse inferior.
  O menu era todo escrito em italiano e no havia preos. Angie piscou, tentando calcular mentalmente quanto lhe custaria comer ali. Os fregueses provavelmente deixavam as calas ali.
  Dominic, porm, ia l com tanta frequncia que era saudado pessoalmente pelo maitre! Quanto dinheiro ele tinha para poder decidir comer ali sem hesitar? Em que ser que ele trabalhava?
   Ns estamos com um pouco de pressa, Diego  disse ele. - A sra. Cameron ainda tem que pegar um trem.
  - Compreendo. Gostariam de fazer os pedidos?  Eu quero apenas a minha salada de sempre  disse Simone.
   O que gostaria de comer, sra. Cameron?
  Angie se viu confrontada com a pergunta que vinha temendo desde que olhara para o menu. Ficou tentada a dizer que comeria o mesmo que Simone, mas a nica coisa de que ela estava certa era que uma salada no a saciaria. Ela precisava de algo bem mais substancial para acalmar a besta fera dentro dela.
   Vocs tem fil?
  Simone sorriu afetadamente e o garom piscou nervosamente. 
  - O assobuco, ento  disse Dominic, pegando os menus e passando-os para o garom. -  Boa escolha. Sair rapidinho. Traga dois. 
  Angie assentiu, imensamente grata pela sua interveno, sabendo que comeria o que quer que ele tivesse pedido.
   Voc fez um trajeto muito longo?  perguntou ele.
   -  No muito. Vim de Sherwill.
   To longe?  disse Simone, como se ela tivesse dito que havia vindo de outro planeta.  Por que algum iria querer morar l?
  Porque  barato, pensou Angie, apesar de ter total cincia da imagem que todos em Sydney faziam do subrbio por conta do noticirio da TV.
    s uma hora de viagem no expresso.
  Quando os trens no atrasavam.
  Dominic fez uma careta, certamente fazendo mais uma marca em seu caderninho preto contra ela.
  E ento ele a surpreendeu.
   Simone, acho que posso tratar disso daqui para frente. Voc pode voltar para o escritrio.
   Mas, Dom, voc vai precisar das minutas.
   Ns daremos um jeito. Nos vemos no escritrio.
  Dispensada, Simone no teve outra alternativa a no ser ir embora assim que o garom voltou com o po fresquinho e a gua gelada. Angie sentiu-se grata por ambos.
  Ainda estava mastigando quando dois garons apareceram de repente, carregando pratos de comida fumegantes. Havia montanhas de carne em um rico molho de tomates e legumes sobre uma igualmente generosa poro de arroz dourado. A aparncia e o cheiro eram fantsticos e nem um pouco parecidos com os do fil que ela estava esperando.
   Foi isso o que eu pedi?
   Ossobuco  disse Dominic, quando o seu prprio prato foi colocado  sua frente.   vitela. Acho que voc vai gostar.  um prato Italiano clssico  disse ele, pegando o seu garfo.  Voc gosta de comida Italiana?
  - No sei  disse ela com toda a sinceridade, contemplando o seu prato, perguntando-se por onde deveria comear.
  Shayne jamais havia se interessado por pratos mais requintados ou temperados, de modo que ela j havia desistido de experimentar h muito tempo. Pelo menos tinha sido barato manter-se  base de salsichas e pur.
   Experimente.
  Angie no precisou usar a faca; a carne se desfazia apenas com o garfo. Ela pegou um pedao com um pouco de arroz e molho e o experimentou, suspirando de contentamento quando os sabores atingiram a sua lngua.
   Est delicioso  disse ela, e ento se deteve, abalada ao ver o que parecia um quase sorriso no rosto dele.
  Era surpreendente a diferena que um mnimo ajuste dos seus lbios podia fazer na expresso dele. De um momento para o outro, ele no pareceu mais apenas poderoso, mas quase... real.
  Devastadoramente real.
  Foi ento que ela se deu conta de que o estava encarando e a cara feia voltou.
   Coma - ordenou ele, novamente com uma expresso grave em seu rosto.  Depois conversaremos.
  Dominic se espantou com a quantidade de comida que ela era capaz de ingerir. Simone teria apenas catado os pedaos de atum em sua salada e ainda deixado metade no prato, enquanto aquela mulher havia devorado, ou melhor, acabado com todo o seu prato, como se aquela fosse a primeira refeio decente que ela fazia em anos. Talvez fosse mesmo, a julgar pelo modo como ela estava avanando em direo ao po para raspar o molho. Ele no se lembrava da ltima vez em que havia visto uma mulher sequer comer po, que dir pensar em fazer uma coisa daquelas.
  Pelo menos ele podia ter certeza de que ela no ia voltar para casa com fome, ou, mais especificamente, que seu filho no passaria fome aquela noite.
  Seu filho. J haviam se passado 24 horas desde que ele recebera a notcia, mas aquela ideia ainda lhe causava arrepios.
  Houve poca em que ele rezara para que aquilo acontecesse a fim de poder voltar a ver Carla sorrir de verdade.
  Todo o processo de fertilizao in vitro, porm, fora to intenso, to clnico e to carregado de desespero e decepo que havia sido um verdadeiro alvio para ele quando os mdicos decidiram dar um fim aquilo tudo. Suas chances de ter um filho tinham terminado ali.
  O fato de aquilo acontecer agora, tantos anos depois, era uma vitria doce e amarga ao mesmo tempo, pois, por conta de algum acidente excntrico, de alguma ironia cruel do destino, ele ia ser pai, afinal.
  Mas por que no ventre de outra mulher?
  Ele pousou o seu guardanapo ao lado do prato. A nica coisa que aquela mulher tinha em comum com Carla era justamente o que ele mais odiara nela.
  E o dr. Carmichael havia lhe assegurado que ela estava bem de sade! Ela no parecia nada saudvel. Havia quase desmaiado na sua frente, pouco antes. Estava abatida, seus braos magros e seus rosto quase todo tomado por profundas olheiras.
  Uma sbita lembrana o encheu de preocupao. Haviam existido raros momentos em que Carla tambm comera bem, fazendo com que ele renovasse as suas esperanas de que ela estivesse se recuperando, apenas para passar as horas seguintes trancada no banheiro, livrando-se das ltimas calorias.
  Ele observou a mulher  sua frente pousar seus talheres e tomar um gole d'gua. Ela vai pedir licena a qualquer momento, pensou...
  Em vez disso, porm, Angie o surpreendeu, recostando-se em sua cadeira com uma expresso de extremo contentamento em seu rosto.
   Isso estava delicioso -- disse ela.  Eu estou to cheia.
  Dominic teria rido, se j no estivesse contando. Vinte minutos seriam o suficiente para que o corpo dela absorvesse os nutrientes vitais para o seu filho. Ele s precisava mant-la ali pelo tempo necessrio.
  Os pratos foram retirados, e Dominic pediu um caf. Ela no fez nenhuma meno de ir ao banheiro. Ele tinha que reconhecer que ela estava com uma aparncia bem melhor depois de comer. Havia cor em suas faces, seus lbios estavam rosados e cheios e surpreendentemente exuberantes. At mesmo os olhos dela pareciam ter encontrado algum brilho, pois seu rosto j no parecia mais dominado pelas olheiras. Duas piscinas azuis cristalinas, quase grandes demais para o seu rosto. Dominic as observou, tentando descobrir o que realmente a havia levado at l, mas ela desviou o olhar... Estaria escondendo alguma coisa?
  S havia uma maneira de descobrir.
   Ento  disse ele, colocando um pequeno gravador sobre a mesa entre eles -- vamos tratar dos nossos assuntos.
  Angie passou a lngua nos lbios. O tom de voz e as palavras dele davam a impresso de que eles estavam no meio de uma reunio de negcios e no discutindo a respeito de um beb que ela trazia em seu ventre.
   Para que isso?
   Para manter tudo registrado, sra. Cameron. Esteja certa de que receber uma cpia.
   Voc no confia em mim!
  Os olhos dele a capturaram do outro lado da mesa, e pela primeira vez, ela notou como eles eram escuros.
   Quem falou em desconfiana?
  Ele, por acaso, estava caoando dela? Sua resposta estava ali mesmo, na expresso de seus olhos dele e em suas aes.  Voc s me trouxe para almoar aqui porque achava que eu no iria comer se no o fizesse.
  Do outro lado da mesa, ele se recostou contra o assento de sua cadeira, atraindo os olhos dela involuntariamente para o tecido de algodo fino contra o seu amplo peito masculino.
   Vamos colocar dessa maneira  disse ele.
  Angie piscou, nervosa, irritada consigo mesma por ter se deixado distrair daquela maneira. Ela no queria prestar ateno naquele tipo de detalhe. Certamente no nos detalhes dele.
  	O fato  que  prosseguiu Dominic  eu no a conheo, nem voc a mim. Tendo em vista que ainda faltam vrios meses at esse beb nascer, acho prudente nos assegurarmos desde o comeo que no haja mal entendidos ao longo do caminho, voc no?
   Que tipo de mal-entendidos?
  Ele deu de ombros, deliberada e calculadamente. Dessa vez, Angie no permitiu que seus olhos se demorassem mais do que o necessrio nele.
  - Um de ns dizer alguma coisa hoje e mudar de ideia antes de o beb nascer.
   Eu no vou mudar de ideia!
   Ento no tem com o que se preocupar.
   E voc no precisa gravar.
   No?  Ele se debruou sobre a mesa.  E se eu mudar de ideia? A confiana  uma via de mo dupla, sra. Cameron.
  Se ele mudasse de ideia? Angie se recostou em sua cadeira, agarrando o guardanapo com fora, tocando o lugar vazio onde deveria estar a sua aliana. Ele a estava deixando confusa.  Est me dizendo, ento, sr. Pirelli, que o senhor no  um homem em quem se pode confiar.
  Embora os lbios de Dominic estivessem curvados num rriso, bastou um nico olhar na direo dos olhos brilhantes dele para que Angie soubesse que ela havia ultrapassado algum limite invisvel.
   Como eu j disse  prosseguiu ele naquele tom que parecia retumbar pelos ossos dela como o rosnado de um gato selvagem  ns no nos conhecemos. No estamos falando um cozinho, nem de um gatinho, mas de uma criana. O meu filho. Um beb que s vai nascer daqui a 6 meses. Acha que eu vou correr esse risco? Quero todas as nossas decises por escrito.
  Ela suspirou, tomando o rosto nas mos.
  Talvez ele tivesse razo. Eles no estavam falando de um filhote que havia ido parar na casa errada, mas de um beb, uma criana que havia sido implantada na mulher errada e que s nasceria daqui a seis longos meses.  claro que eles iam ter que registrar o acordo que fizessem.
   Est bem  cedeu ela.  Faremos como voc quiser.
  - timo	disse ele, mais impaciente que satisfeito ao se inclinar para ligar o aparelho.  Primeiro as questes mais bsicas. Voc est com aproximadamente 12 semanas de gravidez de um beb que no  seu, certo?
   Isso mesmo.
   Depois de ter tido o meu filho biolgico implantado
em voc, por engano, em vez do seu prprio embrio.
  Ela assentiu para depois acrescentar um "sim" atrasado.
  - E voc me ligou ontem para contar isso.
   Sim.
  - E por que fez isso, senhora Cameron? Qual , exatamente, a sua proposta?
  Ele s podia estar brincando.
   Eu vou ter o seu beb, sr. Pirelli, e estou aqui agora. O que acha que eu estou propondo?
  A iniciativa de ligar foi sua. Diga voc.
   Est bem.  Ela respirou fundo, frustrada. Eles j no haviam passado por aquilo antes?  Esse beb que est crescendo dentro de mim no  meu filho. Achei que o senhor gostaria de saber disso, e torci para que talvez, apenas talvez, quisesse ficar com ele depois do parto.
   Voc no o quer?
  Ele fez com que aquilo soasse como uma acusao. Ela no queria beb algum, mas aquilo no era da conta dele.
   Esse beb  seu. Eu achei, torci, na verdade, para que voc o quisesse.
   Est me dizendo que est disposta a ter esse beb e pass-lo adiante?
  claro.
  - Assim que ele nascer?
  - Seria muito difcil faz-lo antes disso.
  O maxilar dele enrijeceu e seus olhos escuros brilharam de maneira abominvel, advertindo-a de que aquilo no era nenhuma brincadeira. Mas o que ele queria? Era ele quem estava transformando aquela reunio numa inquisio.
 -   claro que  isso o que eu estou dizendo!  por isso que estou aqui. Esse beb no tem nada a ver comigo. Quer dizer que voc entregaria essa criana e iria embora, sem nunca mais querer ter algo a ver com ela?
  - E por que seria diferente, j que no se trata do meu filho?  Dominic se inclinou para frente.
  -  exatamente isso o que eu estou achando difcil de compreender, sra. Cameron. Por que levaria essa gravidez adiante, se o filho no  seu?  disse ele com um brilho perigoso naqueles olhos escuros. A menos que esteja esperando algo em troca.
  CAPTULO QUATRO
  ANGIE PISCOU repetidas vezes, com o corao acelerado e a mente excessivamente embaralhada para manter a compostura.
   Eu no fao ideia do que voc est querendo dizer.
  - Ora, vamos. Espera que eu acredite que est fazendo um gesto altrusta devido  pura bondade do seu corao e que vai me dar esse beb sem esperar nada em troca? Por que no vai direto ao ponto? Quanto voc quer?
  Ela balanou a cabea. Ele j havia lhe perguntado o que  que ela ganhava com tudo aquilo, no dia anterior, ao telefone, mas ela havia imaginado que ele estava apenas reagindo ao choque. Jamais imaginara que ele realmente no acreditava nela.
   Isso no tem nada a ver com dinheiro.
  A expresso dele se tornou ainda mais descrente.
   Ora, senhora Cameron. Espera que eu acredite que no gostaria de ganhar um dinheirinho extra?
  Ele estava falando srio. Era evidente que ela estava precisando de dinheiro, mas isso no lhe dava o direito de se sentar diante dela como um imperador romano pronto para lanar algumas migalhas para a sua plebia. Ela no queria as sobras dele. No queria ter nada a ver com ele.
  Nunca mais.
  Uma parte perversa dela, porm, insistiu em seguir com aquele jogo. Talvez ela realmente devesse lhe pedir algum dinheiro, j que ele estava to vido por for-la a faz-lo. A clnica havia se comprometido a cobrir todas as despesas mdicas, mas Shayne no havia lhe dado nenhuma penso, e seu pequeno ninho no ia durar para sempre, agora que El\a havia perdido o seu emprego. Uma pequena voz em sua mente lhe perguntou se seria errado pedir algum dinheiro a ele, j que ele parecia to disposto a dividi-lo.
  - O que est me oferecendo, exatamente?
  A expresso dele permaneceu inalterada, com exceo dos seus lbios que se transformaram num semisorriso. Angee tentou ignorar a sensao de ter acabado de cometer algum erro terrvel e se perguntou se havia alguma chance de concertar as coisas, caso o tivesse realmente feito.
  - Um dinheiro para ressarci-la pelas inconvenincias  ofereceu ele, olhando intensamente para ela  j que os seus prprios planos de ter um beb tiveram que ser adiados. Voc deve estar ansiosa para tentar novamente.
  Dominic estava certo de t-la em suas mos. Aquele fora brecha pela qual ele vinha esperando. Ningum faria o que estava fazendo de graa, e com aquele lapso ela havia acabado de lhe dar razo. Ele esperou enquanto ela olhava para o copo em sua mo, medindo suas palavras, perguntando-se ela j estava contando mentalmente os dlares que receberia e se ela sequer havia notado que estava mordiscando o seu lbio inferior. O gesto falava de uma inocncia que ele sabia que ela no podia possuir. Mesmo assim, ele foi incapaz de desviar o olhar.
  Foi ento que ela ergueu os olhos e o encarou.
   Isso  realmente muito gentil da sua parte, sr. Pirelli, Mas minha prxima gravidez no  da sua conta. Eu decidi que posso esperar.
  Ele no conseguia acreditar no que estava ouvindo. Maldisse a hora em que havia insistido, em usar o gravador. Devia ter sido isso o que a deixara to relutante antes e que a estava inibindo agora.
  Mas ela ainda no ia desistir.
  - E quanto ao seu marido? O que ele acha de tudo isso?
  Angie olhou ao redor, ansiosamente, e ele se perguntou se ela estava procurando um garom.
  - Ele... ele prefere que eu cuide disso sozinha.
   Mas ele deve estar muito aborrecido.
  Ela passou a lngua nos lbios, pegando o seu copo, apenas para agitar o seu contedo, como se quisesse voltar a sua ateno para outra coisa.
   Ns chegamos a um acordo.
   Que tipo de acordo?
  Ela se deteve e ergueu o seu olhar na direo do dele.
   Um tipo de acordo que no lhe diz respeito.
   Ser que no, uma vez que voc est gerando o meu filho?
  O que ele queria? Sangue? Ela j estava farta de ser questionada daquela maneira quando fora at l apenas para ele oferecer o seu beb. Ser que ele nunca havia ouvido a expresso muito obrigado?
  - O senhor vai querer esse beb ou no, sr. Pirelli? Porque em caso negativo, existe uma lista interminvel de pessoas interessadas em adot-lo.
   O beb no ser entregue para adoo!
  - timo. Mas voc tem sorte de sequer haver um beb, tendo em vista o que a clnica me ofereceu!.
  Um silncio frio e duro se abateu sobre a mesa, transformando o rosto dele em pedra.
  - O que foi que a clnica lhe ofereceu?
  Ela maldisse o impulso que a havia tomado de assalto. Mas talvez ele precisasse ouvir aquilo. Talvez assim, ele desse valor ao que ela estava tentando fazer. Angie engoliu em seco, sentindo a garganta quase apertada demais para falar.
  - Eles sugeriram que eu fizesse um aborto. Que encobrisse todo o problema sem que voc sequer viesse a saber.
  O rosto dele ficou tenso, seu pescoo rgido e suas tmporas latejantes. Angie se sentiu lanada novamente em seu sonho, o co raivoso se aproximando dela, fechando o cerco.
  Ser que era ele o homem que ela havia imaginado em seu pesadelo? Seria esse homem o perigo que rosnara em meio  escurido?
  - Eu me neguei!  insistiu ela, abalada com o retorno das imagens de seu pesadelo. -    evidente- disse ele. - Voc se deu conta de que esse beb valeria muito mais vivo, pois poderia vend-lo.
  - Voc realmente acredita que eu seria capaz de vender esse beb - o seu beb -, a voc? Que tipo de pessoa acha que eu sou?
  - Eu no sei que tipo de pessoa voc , senhora Cameron. No sei por que algum estaria to disposto a gerar o filho de outra pessoa, o filho de um estranho. Por que voc faria isso, se no por dinheiro, quando  evidente que est passando necessidades.
  Aquilo j era demais! Ela se ergueu, trmula, farta da desconfiana dele e de suas constantes referncias ao seu estado.
   Como o senhor mesmo disse, o senhor no me conhece, sr. Pirelli.  evidente que eu cometi um erro vindo at aqui. Achei que o senhor estaria interessado em criar o seu filho, mas vejo agora que tudo o que importa para o senhor  o seu dinheiro. Creio agora que seria muito melhor para essa criana ser criada o mais longe possvel do senhor. Muito obrigada pelo almoo. Eu estou indo embora.
  Ela jogou a bolsa sobre o ombro, apesar de a voz dele explodir do outro lado da mesa.    - Voc no vai a lugar algum!  exclamou ele, agarrando a bolsa que ainda balanava, fazendo com que ela casse ao cho, espalhando todo o seu contedo.
 -  Olhe s o que voc fez!  gritou ela ao procurar as suas coisas espalhadas pelo cho.
  Foi ento que ela percebeu, com uma pontada de apreenso, que estava faltando uma coisa.    Onde est a minha carteira?
  No havia carteira alguma.
   Tem certeza de que estava com ela?  perguntou ele com uma mo sob o seu cotovelo a fim de ergu-la.
  Seu toque ainda mexia com os nervos dela de um modo que ela agora estava convencida, era causado pelo contato com o campo de fora do ressentimento dele.
   Absoluta!  Foi ento que ela se lembrou do que havia acontecido na estao de trem e olhou para Dominic. - Algum me empurrou quando eu saltei do trem. Achei que havia sido apenas um acidente. Ser que...
  Ela havia passado de gata feroz a vtima, novamente, parecendo to devastada que Dominic temeu que ela pudesse desmaiar novamente e a conduziu de volta ao seu assento. Tirou o celular do bolso e teclou o nmero da polcia, maldizendo o canalha que era capaz de roubar algum que evidentemente no tinha um tosto furado.
  - Quanto havia dentro dela?
  - Mais de 20 dlares! - Angie se deteve, chocada.  Oh, meu Deus, e a minha passagem. - Ela olhou para ele, com os olhos j cheios de lgrimas.  Eu sinto muito. Sei que voc me odeia e que eu acabei de lhe dizer coisas terrveis, mas acha que poderia me emprestar algum dinheiro para eu voltar para casa?
  Sentada ao lado dele, no banco do carona, ela no disse nada durante todo o trajeto.
  Ele no tentou preencher o silncio.
  Eles j haviam dito o suficiente um ao outro, durante o
Almpo,.
  Ela o havia surpreendido com aquela exploso. Sua aparncia o havia levado a crer que ela era desprovida de paixo, mas, em vez da admisso pela qual ele estava esperando em
  Resposta s suas provocaes, ela rugira com todas as suas foras.
  Se bem que s at o momento em que se dera conta de que a sua carteira havia sido afanada. Desde ento, ela voltara a parecer desamparada e abandonada.
  Devia ter sido devastador para ela ter de lhe pedir dinheiro para voltar para casa.
  Angie se recostou no grande assento de couro, sentindo os cheiros daquele carro e daquele homem invadindo os seus sentidos, e desejou poder desfrutar mais calmamente daquela experincia.
  Ela arriscou uma olhadela na direo dele, incapaz de deixar de admirar as suas mos de dedos longos pousados sobre o volante, o modo como ele o manobrava, o carro e trocava de marchas com completa segurana.
  Mos poderosas, pensou ela, lembrando do impacto do toque dele sobre a sua pele. Mos poderosas de um homem poderoso. Poderoso e implacvel.
  E totalmente convencido de que ela estava atrs do seu dinheiro.
  Ele devia ter muitos carros iguais quele.
  Por que, ento, lutar contra ele? Ele j pensava o pior dela mesmo. No fizera nenhuma tentativa de negar que a odiava. Por que no aceitar aquele dinheiro, j que precisava tanto dele?
  Ela fechou os olhos com fora. Como havia sido ingnua!
  Shayne a havia deixado e ela ficara to obcecada pela ideia de descobrir quem eram os pais do filho que ela estava carregando em seu ventre, to consumida pela deciso de assegurar o seu futuro, que no havia se detido nem por um momento para pensar em si mesma.
  A hipoteca da casa que sua me havia lhe deixado no era grande, mas ela ia precisar de alguma entrada de dinheiro nos prximos meses para pagar as suas contas e comprar mantimentos, sem falar nos mveis que teria que adquirir para substituir aqueles que Shayne havia levado consigo.
  Dominic arriscou uma olhadela para o seu perfil, notando que ela estava franzindo a testa e mordiscando o lbio inferior outra vez. Devia estar preocupada com a carteira que havia sido roubada e os parcos vinte dlares que ela continha, o que provavelmente era uma fortuna para ela.
  Talvez ele no devesse ter sido to duro com ela, afinal. Talvez ela estivesse sendo sincera.
  Claro, e talvez tudo aquilo no passasse tambm de um sonho ruim.
  Ela no havia lhe perguntado o que ele estava oferecendo? O que era aquilo, seno uma admisso de culpa? Ele cerrou os dentes, ruminando o problema. Por que, ento, havia tido que se esforar tanto para faz-la morder a isca?
  Era evidente que ela precisava de dinheiro. O beb que crescia em seu ventre no passaria necessidades nos prximos seis meses s porque ela era orgulhosa ou estpida demais para aceitar a ajuda dele. Se ela no queria lhe pedir, ele a faria aceitar.
  A cada quilmetro que passava, as entranhas dele iam se apertando mais e mais.
  Era como se os anos transcorridos tivessem desaparecido. Cada ponto de referncia que ele reconhecia era mais um aspecto que o atraa de volta para uma vida que ele h muito j havia esquecido.
  Eles passaram pela loja de carros baratos e de segunda mo onde ele havia comprado o seu primeiro veculo. Mesmo agora, dirigindo sua luxuosa Mercedes, era impossvel no lembrar da excitao daquele jovem que havia juntado dinheiro para comprar o seu primeiro carro.
  Ele era infestado de ferrugem, tinha um cabo de embreagem suspeitssimo e faris defeituosos, mas significara a sua possibilidade de alcanar novos horizontes. Doze meses depois ele se mudara, sem nunca mais voltar.
  No que tivesse qualquer razo para faz-lo. Seus avs haviam falecido. Sua me tambm. Ele deixara o passado para trs e guardara todos os seus pertences, com cuidado, numa caixa com os dizeres expressos de: No Abrir.
  Ele afastou a lembrana aquela caixa de sua mente, temendo ser afetado pelo seu contedo perturbador, e arriscou outra olhada para a mulher ao seu lado. Ela estava tensa e agarrava a sua bolsa com firmeza, como se ainda pudesse proteger a carteira que j no estava mais l.
  Com seu rosto virado para a janela, Dominic s pde ver a inclinao de seu nariz, a linha alta das mas de seu rosto e a curva de seus lbios. Ele teve a impresso de que daquele ngulo, ela era quase bonita, de uma maneira triste e negligenciada. Ou talvez tivesse sido bonita outrora, uma beleza que havia desaparecido prematuramente sob o sol ardente do subrbio da zona oeste e a constante batalha por sobreviver. Mas ele jamais permitiria que ela apenas sobrevivesse nos prximos seis meses.
   Ns dois sabemos que voc vai precisar da minha ajuda com esse beb - disse ele, com os olhos fixos na estrada, mudando de pista e se preparando para a virada que ele sabia que viria logo em seguida, mas muito consciente do exato momento em que os olhos dela pousaram sobre ele.
  - Eu sei. Desculpe. Voc tem razo.
  A simples declarao foi a primeira surpresa. O fato de ela no querer discutir, a segunda. Mas foi o pedido de desculpas o que mais o surpreendeu, especialmente depois de ele ter suposto o pior dela desde o comeo.
  - Eu quero esse filho  disse ele, sem o ardor que fora a marca de sua reunio, mas com uma determinao de  ao que surpreendeu at mesmo a ele.
  - Fico feliz por voc desejar esse beb.
  Ele se perguntou por que aquilo era to importante para ela, mas tambm no entendia por que aquele beb e tudo que acontecera era to importante para ele. Houve uma poca em que ele havia ficado feliz porque Carla jamais teria sido capaz de conceber um filho, pois estava muito zangado com ela e com o que ela havia feito a si mesma com suas atitudes autodestrutivas.
  Por que, ento, estava to tomado por aquela perspectiva agora?
  Alm de ser o seu filho, aquela criana existia, pertencia a ele. 
  E era aquela mulher ao lado dele que estava tornando aquilo possvel.
  Ele havia sido muito duro com ela!
  - Eu vou falar com os meus advogados. Deve haver algum tipo de precedente para esse tipo de coisa. Eles encontraro uma soluo.
  Ele a ouviu respirar fundo e se perguntou se ela ia retomar a discusso, mas Angie apenas disse cautelosamente:
   Obrigada. Acho que isso vai ser de muita ajuda.
  Aquela nova qualidade em seu tom de voz deixou Dominic em estado de alerta, e, curioso, ele olhou na sua direo. A careta havia desaparecido e havia um quase sorriso em seus lbios.
  Ele voltou os seus olhos novamente para a auto estrada, embora sua ateno tivesse ficado firmemente naquilo que ele havia testemunhado. Era a primeira vez que ele via o rosto dela se aproximar de algo que lembrasse um sorriso.
  No estava nem sequer certo de que ela sabia sorrir. Apesar da parte executiva de seu crebro lhe dizer que isso se devia apenas ao fato de ele estar insistindo que ela s queria o seu dinheiro, suas entranhas no estavam to convencidas assim.
  Qualquer que fosse a razo, o fato era que aquela expresso havia tirado anos das costas dela.
  Ele olhou para ela novamente, temendo ter imaginado tudo aquilo e, como se estivesse sentindo o olhar dele, ela virou o rosto e por um nico momento, quando os seus olhares se cruzaram, os olhos dela se encherem de confuso e o sorriso desapareceu.
   Oh -- disse ela, num sobressalto, ao ver onde eles estavam -, voc tem que virar  direita, na prxima entrada. - Apesar de ele j estar na pista certa, sinalizando a virada.
  Angie se recostou em seu assento e respirou fundo, sentindo um sbito calor, apesar do ar-condicionado. E tudo aquilo por causa do olhar dele, concluiu ela.
  Porque pela primeira vez, ele no a havia olhado como se pudesse descobrir algum segredo sujo. Ele a havia olhado como se pudesse realmente enxerg-la, a pessoa que ela era, e aquilo havia mexido com ela, nada mais. Isso, e o fato de ter descoberto que ele desejava aquele filho.
   Onde voc mora exatamente?  perguntou ele, quando o sinal abriu.
  Ela lhe deu o endereo, esperando que Dominic lhe pedisse indicaes de como chegar at l, e se surpreendeu quando ele no o fez. Parecia to mergulhado em seus prprios pensamentos ao dirigir, porm, que ela no se ofereceu a faz-lo.
  - Ns teremos que nos encontrar novamente para assinar algum tipo de acordo - disse ele, pouco depois, com uma voz retumbante e distante, e ao se virar para olhar para ele, ela encontrou o olhar dele fixo na estrada  sua frente outra vez e a sua expresso ainda tensa. At mesmo os dedos que, at agora pareciam to relaxados e calmos ao volante, apertavam-no, agora, com fora. Ele, ento virou a cabea, piscando ao focar o seu olhar nela, embora Angie tivesse tido ntida impresso de que seu pensamento estava a milhas de distncia dali.
  - No se preocupe  assegurou-lhe.  O acordo ser redigido de modo a garantir os seus interesses tambm.
  Ela nem sabia ao certo quais eram os seus interesses, mas por algum motivo, confiou nele.
  - Eu compreendo.
  - Seu marido poder vir da prxima vez?
  - Shayne? - Ela desviou o olhar, subitamente nervosa outra vez. - Isso  realmente necessrio?
  -  claro. A meu ver, sendo sua me biolgica, esse filho ser legalmente seu, independente da origem do embrio. Qualquer acordo que diga respeito  entrega da criana ter, de ser assinado por ele tambm.
  Droga! Por que  que alguma coisa sempre tinha que dar errado quando tudo estava comeando a se ajeitar? Como  que ela ia conseguir convencer Shayne a ajud-la com aquela situao quando ele havia se oposto to terminantemente ao que ela pretendia fazer, desde o incio? Ela suspirou. Duvidava que ele sequer atendesse o seu telefonema.
  Vou ver o que posso fazer.
   Se tiver algum problema, eu poderei mandar um carro apanh-la para que voc no tenha que pegar o trem.  Voc no precisa...
   Depois do que aconteceu hoje, nada mais de trens. No  seguro. - Ele olhou para ela.  Compreendeu?
    Espere um pouco - comeou ela, irritada, esquecendo-se de sua preocupao para com Shayne. Independente do que eles tivessem acordado a respeito do futuro daquela criana, ele no tinha o direito de lhe dizer como ir do ponto A ao ponto B. Especialmente depois de Shayne ter levado o carro consigo.  E se eu no tiver um carro?
    Voc no tem?  perguntou ele, parecendo incrdulo, e ento a fez perder o flego.  Ento eu lhe mandarei um amanh. Tambm no a quero caminhando mais por essa rea.
 No! Voc no pode...  Mas ela no conseguiu terminar o que ia dizer ao se dar conta de que ele havia feito duas primeiras duas viradas em direo ao subrbio sem que ela lhe indicasse a direo a seguir e j estava assinalando prxima virada para pegar a rua da sua casa.
   Como foi que voc...
  Ele, porm, j estava a meio caminho da porta de Angie.
  Ela no esperou por uma explicao. Se ele j achava  o estado dela lamentvel, o que ele pensaria se ficasse sabendo das patticas condies em que ela estava vivendo? Ela no poderia manter aquilo em segredo para sempre, mas no queria de jeito nenhum que ele descobrisse tudo hoje. Estava excessivamente abalada emocionalmente para aguentar mais uma dose do seu desprezo.
  Para um homem daquele tamanho, ele se movia muito rapidamente. Ela mal havia sado de seu assento, e ele j a estava cercando entre a porta aberta do carro e o campo de fora da sua presena, impedindo-a de fugir.
    Obrigada pela carona  disse ela. - Tchau. 
  Ele, porm, no fez meno de deix-la ir embora.
   Talvez eu possa conhecer o seu marido agora, se ele estiver em casa.
  No era um pedido.
  Ela agarrou a bolsa contra o peito e balanou a cabea.
    Ele no est.
  Dominic arqueou uma sobrancelha interrogativamente. 
   Como pode ter tanta certeza?
  Ela olhou melancolicamente em direo  sua casa. No era grande coisa, mas era quase sua e naquele exato momento, ela ansiava pelo santurio que as suas paredes poderiam lhe proporcionar.
    Ele... ele nunca chega em casa antes das 17h.
  Embora tivesse chegado, nos ltimos tempos, mais perto das 21h, lembrou ela com certa amargura, dizendo ter trabalhado at tarde, quando, na verdade, passara todo o tempo com a sua nova assistente. Como ela fora ingnua!
  - Voc est bem?  perguntou ele, notando a tenso estampada nos olhos dela e em sua boca e nas manchas em seu rosto plido, temendo que ela pudesse desmaiar outra vez.
  - Eu estou bem  disse ela, estranhando a sua linguagem corporal crescentemente  irascvel ao se mover nervosamente e ajeitar fios de cabelo atrs de sua orelha. Ela estava sorrindo, se era possvel chamar aquilo de sorriso, com seus  lbios franzidos e seus olhos to falsamente brilhantes que ele se perguntou se ela no estava escondendo alguma coisa.  Mais uma vez obrigada pela carona. Eu no quero prend-lo mais.
   Eu entrarei em contato com voc amanh  disse ele, dando-lhe passagem.
  Ela retirou as cartas de sua caixa de correio em segundos e j estava na metade do caminho em direo ao seu ptio da frente quando acenou para ele.
  Dominic esperou ali enquanto ela entrava em casa e ainda a viu olhar para trs uma ltima vez antes de desaparecer.
  Talvez ela s estivesse embaraada.
  Era fcil entender por qu. A casa era pequena, empoleirada  sobre o que outrora fora  um gramado, antes de as temperaturas exorbitantes do vero e as restries de gua o terem devastado. Dominic sabia exatamente como era aquela casa por dentro, pois havia ruas e mais ruas repletas de outras tantas iguais a ela.
  Logo depois da porta principal haveria uma sala com uma cozinha e um banheiro rudimentares. Trs quartos tambm, um levemente maior, fazendo s vezes de quarto principal, um da metade do seu tamanho, suficiente apenas para uma cama de solteiro e uma cmoda, e um terceiro, ainda, da metade deste, no mais que um depsito.
  Mesmo agora, passados 30 anos, ele ainda se lembrava da sensao daquelas paredes pressionando os sonhos que ele sonhava em sua cama de armar.
  At mesmo o simples fato de dirigir pelo subrbio fazia com que ele se sentisse claustrofbico, o mesmo aspecto por onde quer que ele passasse, a ausncia de design, ruas e mais ruas de jardins malcuidados e pinturas descascadas, quase como se quaisquer que tivessem sido os sonhos que os ocupantes daquelas casas pudessem ter tido algum dia, tivessem morrido lenta e dolorosamente.
  Ele havia feito muito bem em fugir de tudo aquilo.
  Tinha trabalhado muito duro para conseguir faz-lo.
  O que tornava ainda mais irnico o fato de que aquele se ria o primeiro lugar em que seu filho iria morar. Felizmente,  ao contrrio do que acontecera com o prprio Dominic, no era ali que ele ia crescer.
  Aquela certeza, porm, no o impediu de ficar mal com a ideia de deixar o seu filho para trs agora. Ainda faltava muito para o seu nascimento.
   Quantos meses ela ainda moraria num subrbio no qual o ele havia jurado nunca mais colocar os ps? Ele nem que ria pensar nos perigos do dia a dia daquele lugar. Arromba- mentos, incndios premeditados nas escolas e violncia nas ruas... Aquele no era um ambiente adequado para o desenvolvimento do seu filho.
  Ele no queria esperar passivamente que me e filho tia versem sobrevivido aos perigos que os cercavam at ele poder pegar a criana.
  A me de aluguel e o seu filho, corrigiu-se ele, ao ligar o motor.
  Ela podia estar grvida do seu filho, mas no jamais seria sua me!

 CAPTULO CINCO
  ANGIE DESMORONOU contra a porta fechada, sentindo a tenso deixar o seu corpo ao suspirar de alvio. Depois do que havia lhe parecido ser o dia mais longo de sua vida, depois das horas extenuantes passadas com aquele homem impossvel, ela estava finalmente livre.
  Ela, porm, no conseguia tirar a imagem daquele homem e seu carro da cabea. No deveria ter olhado para trs.
   Quisera resistir, mas a tentao de v-lo uma ltima vez fora grande demais.
  Ela havia se virado e o visto ao lado do carro, olhando para ela, de braos cruzados e culos escuros que podiam cobrir os seus olhos, mas no disfaravam a intensidade de sua expresso.
  To intensa que ela teve que recuperar o flego diante da sensao que percorrera a sua espinha. Aquele carro preto brilhante parecia um pecado ambulante, e seu dono, ainda mais.   Aquela imagem fez com que ela se lembrasse de alguns anncios de revistas automobilsticas que Shayne volta e meia folheava, s que naqueles casos, o carro costumava estar estrategicamente posicionado  beira de um penhasco, numa autoestrada perto de uma praia, lugares que associavam carro e motorista por meio de sua desenfreada beleza. No lugares como a Spinifex  Avenue, com suas casas sem graa, seus jardins mortos e as carcaas de carros enferrujados.
  Quem quer que fosse Dominic Pirelli e de onde quer que tivesse vindo, ele decididamente no pertencia quele lugar.
  Angie se afastou da porta com um suspiro e seguiu pela sala quase vazia em direo  cozinha.
  Deixou a bolsa sobre a mesa, acendeu o fogo sob a chaleira e checou a correspondncia, enquanto esperava a gua ferver. timo! S contas, eletricidade, aluguel e... Seu corao bateu mais rpido dentro do peito ao reconhecer o nome do escritrio de advocacia que Shayne havia contratado. O que ele queria agora? Ela abriu o envelope e passou os olhos na carta, recusando-se a acreditar no que viu escrito ali.
  Angie se jogou em uma das duas poltronas desencontradas restantes, arrasada. Ele j havia levado o carro e a maior parte da moblia. Dissera-lhe que no queria mais nada dela a no ser o divrcio.
  Shayne estava reivindicando parte da casa que a me dela havia lhe deixado em testamento. A sua casa.
  Ela no teria corno pag-lo sem vender a casa. Para onde iria, ento?
  O que ela devia fazer?
  Dominic chegou a um cruzamento. Sabia que devia virar  direita para pegar a autoestrada, mas, inexplicavelmente, virou  esquerda, seguindo por um caminho marcado por placas  h muito desatualizadas. Ele no precisava delas. Havia fugido do seu passado h muito tempo, mas o passado continuava ali, enterrado no fundo daquela caixa, apenas esperando pela oportunidade de ser desenterrado.
  Com o corao aos pulos, ele desacelerou ao passar por um shopping center cujas janelas eram todas gradeadas e em que metade das lojas estava vazia, sentindo um aperto no peito ao ver a lavandeira num estado ainda mais lamentvel apesar de prosseguir funcionando. Sua me o havia encontrado ali, certa vez, chorando, atrs das mquinas, sangrando do corte em sua orelha produzido por uma pedra o havia atingido e com os joelhos esfolados. Ele estava envergonhado por ter fugido, estava envergonhado por ter se deixado pegar mas acima de tudo, estava envergonhado por ter chorado.
  E ali mesmo, no cho da lavanderia, em meio ao vapor e ao zumbido de dezenas de mquinas de lavar, sua me abraara com fora e chorara junto com ele. Tudo  ficaria  bem, prometera ela.
  Ela o tiraria daquela escola horrvel e o afastaria dos valentes que odiavam qualquer pessoa que fosse bem-sucedi da em algum aspecto.
  Compraria uma casa para ambos, junto ao mar, com aquela sobre a qual Norma e Poppa sempre falavam em comprar, em algum lugar onde ele pudesse ser feliz.
  Suas lgrimas haviam secado enquanto ela desfiava a suas promessas mgicas de um futuro dourado para ambos com o qual ele sonharia todas as noites em sua cama, apena esperando pelo dia em que ele chegaria, pois sua me trabalhava duro e ele sabia que ela ia mover cus de terra para fazer com que aquilo se transformasse em realidade.
  O Shopping Center ficou para trs. Seu carro parecia estar  no piloto automtico, arrastando-se pela rua estreita at o nmero 24. Dominic estava ainda mais temeroso com as  lembranas que o tomariam de assalto do que com o que ele Por encontraria pela frente. Ele desligou  o ar condicionado, sentindo as palmas suadas contra o volante ao passar pela minscula praa onde o seu Poppa o havia observado brincar quando sua me estava trabalhando, esculpindo um pedao de madeira, criando mais uma pequena obra prima. Lembrou-se  tambm de quando corria de volta para casa, na hora do jantar, e do cheiro dos deliciosos pratos que esperavam por ele, e de Norma, na cozinha, usando um avental branco e deixando que ele subisse numa cadeira para provar o minestrone no que na poca, lhe parecera uma enorme colher de pau.
  Ele olhou duas vezes ao chegar  casa, ou o que sobrava dela. Pouco mais que uma carcaa ainda cercada pela fita I adesiva da polcia. Dominic saiu do carro e ficou ali, ao lado da estrada, inalando o ar ainda contaminado pelo odor das cinzas..
   Tudo havia chegado ao fim agora.  Seus avs e a cozinha, com seus deliciosos odores. Sua me e suas promessas e sonhos.
  At mesmo a casa onde ele havia cuidado dela em suas ultimas semanas de vida, antes de o tumor que a havia acometido vencer a batalha.
  Tudo era passado.
  -Voc  da companhia de seguros?  perguntou um senhor de camiseta branca e short que regava a sua plantao tomates na casa ao lado com um regador, bem mais interessado no estranho com seu carro.
  Dominic balanou a cabea.
   O senhor sabe o que aconteceu?
  O velho senhor franziu a testa ao olhar para o que havia sobrado da antiga casa.
  Foi horrvel. Uma briga entre as crianas da escola local. Urna gangue veio aqui e jogou coquetis molotov  fabricao caseira pelas janelas. Minha mulher e eu ouvimos o estrondo. Quando viemos ver o que estava acontecendo, o lugar j estava em chamas. Nem deu tempo de acionar os bombeiros.
  Meu Deus!
  - E quanto s pessoas que moravam a? Esto todos bem? 
   Sim. No sei como eles conseguiram sair a tempo. Uma me solteira com dois filhos e outro a caminho. Foi um verdadeiro milagre que todos tenham conseguido escapar com vida.
 Ela estava grvida...  disse Dominic com os olhos fixos nos escombros do lugar em que ele havia crescido. 
   Sim,  um milagre.
  Um milagre? Parecia mais o inferno na Terra para ele.
  E se aquilo tivesse acontecido a trs ruas de distncia? E se eles tivessem atacado a casa errada? E se a outra mulher no fosse suficientemente rpida para fugir?
  Dominic imaginou o medo que aquela mulher deveria te sentido. Imaginou o seu pnico diante do estilhaar das vidraas e do calor das chamas, e o seu desespero para conseguir sair de l corri os filhos antes que eles sucumbissem ao fogo e  fumaa.
  E quanto ao beb que ela estava esperando?
  Como ele podia simplesmente ir embora e deixar Angie l, exposta a toda a sorte de perigos?
  Como ele podia seguir calmamente para casa e deixar o seu beb para trs?
  Ele teria que resolver aquilo de outra maneira. Alugaria um apartamento para ela e o marido por seis meses, talvez. Tudo o que precisava fazer era com que eles concordassem com a ideia.  
Angie ainda estava junto  mesa da cozinha com a carta em sua mo quando ouviu uma batida na porta, alta e decidida. Teve um sobressalto e enxugou as lgrimas de seu rosto como pode. Ser que Shayne j estava enviando agentes para acelerar o processo?
  A  batida se repetiu, mais insistente dessa vez. quem quer. que  fosse, ainda no havia ido embora.
  Ela arriscou uma olhada pela vidraa, franzindo as sobrancelhas ao ver um carro preto conhecido do lado de fora. Por que ele havia voltado?
  Angie abriu a porta apenas o suficiente para conversar  atravs da fresta, mantendo a corrente de segurana no lugar, de modo a impedir que ele enxergasse o interior da sala vazia.
   O que voc quer?
   Deixe-me entrar. Eu preciso falar com voc.
  Sobre o qu?
   Espera que eu fale com voc atravs de uma fresta? Eu no vou machuc-la. No vou atacar a mulher que carrega o meu filho em sua barriga.
  Ela suspirou. Fazia mesmo alguma diferena se ele descobrisse a verdade agora ou mais tarde? No poderia esconder a verdade para sempre.
    Eu tenho urna proposta para voc  disse ele, indiferente ao seu desconforto ao passar por ela.
  O travo amadeirado do seu perfume masculino envolveu os sentidos dela. Angie o inspirou, perguntando-se como um simples cheiro podia emanar tanto luxo e poder.
   Quando  que o seu marido...
  Dominic se deteve, olhando o cmodo praticamente vazio.  O que est acontecendo aqui?  assim que voc vive?
 Ele a olhou mais de perto.  Voc andou chorando?
  As plpebras dela se fecharam sobre os olhos ainda irritados.
  Angie rezou para conseguir reunir foras para enfrentar o desdm que havia retornado ao tom de voz dele, suas palavras e sua linguagem corporal.  Eu tinha mais mveis   disse ela, evitando a segunda parte da pergunta.
   O que aconteceu? Voc vendeu tudo em troca de um saco de feijo?
  Droga! Ela foi at a cozinha pensando que havia s enganado. No tinha condies de enfrent-lo naquele momento.
  Ela acendeu a chaleira outra vez, determinada a tomar a xcara de ch que havia prometido a si mesma, mas quando se virou para pegar o leite, viu que ele estava logo atrs dela; encolhendo a cozinha com sua altura e aqueles maldito ombros largos.
  Voc est de mudana? 
   No!
  Dominic estava entre ela e a geladeira. Angie desistiu do leite. Pegou uma xcara, colocou o saquinho e ficou esperando, com os braos cruzados e de costas para ele, at a  gua ferver.
   Pode me dizer o que est acontecendo aqui, afinal?   A  chaleira apitou.  O que voc est tentando esconder? Angie estendeu uma mo para desligar o fogo, mas ele a segurou e a virou to rpido que ela ficou sem flego. Talvez tivesse sido apenas o efeito do toque daquela mo to grande em torno do seu pulso, o calor que os dedos dele imprimiam na carne dela e o impacto daqueles quase dois metros de potncia masculina a poucos centmetros dela.
  - Diga!
  - Est bem! -- disse ela por sobre o barulho da chaleira. - Shayne levou a moblia!
  - Por qu?
  - Para mobiliar a casa em que foi morar com a sua namorada adolescente. Posso apagar a chaleira agora? 
  - Shayne foi embora?
  Ele a soltou e deu um passo para trs enquanto ela apagava o fogo. As peas do quebra cabea pareciam comear  a se encaixar.  A falta de interesse que ela demonstrara em falar dele,  o modo como evitara o assunto, o fato de ter comparecido sozinha ao encontro daquela tarde.
  Canalha do seu marido a havia trocado por outra.
  -  Quando foi que isso aconteceu?
  Angie deu de ombros e encheu a sua xcara de gua. Dominic esperou at ela jogar o saquinho de ch na pia e se virar na sua direo.
  - Ele se mudou h 2 meses.
  Dois  meses? Ser que aquilo tinha a ver com a sua gravidez?
   Por que ele a deixou?
  Os olhos azuis de Angie ficaram nublados e desolados. 
  - Porque eu me recusei a fazer o aborto.
  Dominic passou as mos pelos cabelos.
  - Seu marido no queria que voc gestasse o filho de outro homem.
   No, por mais estranho que isso possa parecer.
   Quer dizer que voc sacrificou o seu casamento por causa do meu filho?
  Ela riu, ou pelo menos tentou faz-lo antes que aquilo s transformasse num soluo.
   Eu no sou to nobre. Acho que o meu casamento j havia acabado h muito tempo  disse ela, pousando a xii cara, depois de quase se queimar como o seu contedo. Fui apenas a ltima a saber disso. Ele se valeu da descoberta de o filho dele que eu estava esperando no era dele e do fato de eu ter me recusado a fazer o aborto para sair de casa.
  Dominic apenas assentiu, surpreso com a fora interior daquela mulher que ele sabia, por experincia prpria, poda ser carregada por uma rajada de vento mais forte. Mas era at bom que o marido dela tivesse ido embora. Assim, ela no teria outra alternativa a no ser aceitar a sua oferta.
   Quer dizer que voc est morando aqui sozinha?
   Ela assentiu.
- E quanto a sua famlia?
  Angie balanou a cabea.
   Minha me morreu alguns anos atrs. Eu era filha nica.
   E o seu pai?
  Eu no o conheci.
  A coisa estava ficando cada vez melhor.
  - E quem cuida de voc?
  - Eu cuido de mim mesma, Sr. Pirelli  bufou ela, reencontrando a fora dentro de seu corao de leo em que ela batia de tanto em tanto.  No sou nenhuma criana.
  Dominic estava irado. O desgraado do marido dela a havia abandonado, deixando-a grvida e sozinha numa casa em que s pessoas muito corajosas ou criminosos que no podiam morar em nenhum outro lugar escolheriam para viver.  
  Ela estava sozinha desde que ele fora embora. No era de admirar que estivesse to abatida.
  Quem podia garantir que ela comesse adequadamente ou que cuidasse direito de si mesma? No havia outra alternativa.
  - Junte as suas coisas  ordenou ele.  Ns vamos partir.
  - Do que  que voc est falando?
  - Voc no pode continuar aqui. Eu vou lev-la comigo.
  -No vai no. Essa  a minha casa. Pelo menos...
  Angie deixou a frase pela metade e Dominic se flagrou perguntando-se quantos segredos mais ela guardava. 
   Pelo menos?
  - Eu recebi uma carta hoje.
  Ela fez um meneio na direo da mesa onde estava a carta. Depois engoliu em seco, agarrando o topo do banco atrs de si. A ao enfatizou a magreza de seus braos, mas tambm outra parte da sua anatomia, coberta agora apenas por uma camiseta apertada, para a qual Dominic ainda no havia atentado.
  Que diabos ele estava pensando?
  Ele pegou a carta e se concentrou nela.
   Shayne pegou o carro e a maior parte da moblia quando partiu. Disse que era o bastante, mas agora est reivindicando parte da casa, mas ela  minha! Minha me a deixou para mim. Ele no pode fazer isso, pode?
  A dor em carne viva estampada nos olhos dela atingiu Dominic em algum lugar que ele nem sabia mais que existia dentro dele. Ser que aquela casa significava tanto assim para ela?  claro que sim. Aquilo era tudo o que ela possua na vida.
   Vou mandar meus advogados cuidarem disso  disse ele, dobrando a carta.  Mas voc sabe que no pode ficar aqui com ele por perto, podendo aparecer a qualquer momento para fazer novas exigncias.
   - Eu vou trocar a fechadura.
  - Acha mesmo que isso o impediria de entrar? Eu no posso deix-la aqui  merc dele, sabendo que ele queria que voc fizesse com o meu filho. Mas voc no precisa da autorizao dele para pegar o beb?
  Deixe que os meus advogados cuidem disso. Rena apenas aquilo de que precisar para esta noite. Eu mandarei algum pegar o restante de suas coisas amanh.  Espere um pouco!   - Eu ainda no concordei com nada disso.
   O que a prende aqui? Voc no tem famlia, nem marido. Voc no tem nada, a no ser um filho que no lhe pertence.
  Como ele ousava falar daquela maneira como se pudesse mandar nela? Angie enrijeceu a coluna e ergueu o queixo, farta de homens que achavam que podiam lhe dizer o que fazer.
  - Eu ainda tenho essa casa, ou pelo menos, parte dela.
   E poder voltar  sua parte dela assim que o beb nascer, eu lhe asseguro. Eu serei a ltima pessoa a querer det-la.
  Angie se apressou em direo ao seu quarto a fim de pegar algumas coisas apenas para passar a noite, como Dominic dissera, com as palavras dele ainda ecoando em seus ouvidos.
  Talvez  ela realmente ficasse melhor longe dali e de Shaine, at o beb nascer. Talvez aquilo fosse melhor para o beb.
  Mais seguro.
  Ela abriu uma gaveta, pegou algumas lingeries limpas e as jogou na bolsa como gostaria de ter jogado o Sr. Dono do Mundo Pirelli.
  Eu serei a ltima pessoa a querer det-la, dissera ele, como se mal pudesse esperar para se ver livre dela.
 Bem, ela no queria um filho, e certamente no ia querer ficar mais tempo junto a ele alm do absolutamente necessrio. Por que, ento, no lhe havia dito isso?
  Porque as palavras dele a haviam magoado. Porque a doa sentir-se to desvalorizada. Doa ter sido abandonada. Doa saber que se era um fracasso em tantas frentes.
  E ela no havia nem mesmo conseguido engravidar do beb certo. O que mais deveria levar? Angie olhou ao redor. O que mais deveria levar? Dominic havia dito que mandaria "algum" para pegar o que quer que precisasse amanh.
  Quem era aquele homem, afinal, que tinha pessoas ao seu dispor para fazer coisas para ele, como um general com todo um exrcito  sua disposio, esperando apenas que ele emitisse a prxima ordem?
  Ela tirou a blusa que havia usado durante todo o dia e colocou uma nova, jogou outra na bolsa e vestiu novamente o casaco. Ainda estava muito quente para usar mangas compridas, mas na ausncia de uma armadura de corpo inteiro, ela ia se valer de toda proteo de que pudesse dispor.
  O banheiro foi a parada seguinte, onde ela pegou a sua escova de cabelo e uma pequena ncessaire para reunir outros itens. Noventa segundos depois, l estava Angie, de volta  sala.
  Dominic estava fazendo uma ligao quando ela voltou, provavelmente arranjando algum lugar para ela ou ladrando ordens para o seu pessoal, e arqueou as sobrancelhas ao v-la.
   Por que demorou tanto?  disse ele, fechando o celular.
  Angie estava quase soltando um desaforo quando viu os lbios dele curvados num sorriso e teve vontade de bater nele.
   O gato comeu a sua lngua?
   O que h de to engraado?
   Voc. Achei que ia rugir novamente.
  Ele pegou a bolsa de Angie e as suas mos roaram, uma na outra, provocando aquela indesejvel corrente eltrica outra vez. O sorriso dele desapareceu como que por encanto.
   No faa isso!  disse ela.
   Isso o qu?
  - No me toque. 
  - Ser um prazer.  disse Dominic, franzindo os lbios ao conduzi-las at o carro.
  Angie estava furiosa, soltando fogo pelas ventas, e ento, com apenas um comentrio, um minsculo ajuste dos seus lbios, ele puxara o seu tapete, provocando os seus sentidos e impedindo-a de raciocinar corretamente.
  Ela no sabia ao certo se estava mais ressentida por ele haver feito pouco dela ou por ele ocupar tanto espao no carro. O que sua estatura significativa no alcanava era atingido pelo seu perfume intenso, sensual e amadeirado. Um cheiro de homem de verdade.
  L estava aquela expresso outra vez. Angie se lembrou  do que havia pensado na primeira vez em que o havia visto sorrir. Estranho.
  No se lembrava de ter pensado a respeito disso em relao a nenhum outro homem antes. Talvez por ele ser to irreal em muitos outros aspectos. Sua riqueza evidente, sua presena marcante.
  Dominic era diferente de todos os homens que ela j havia conhecido. Tinha o poder de deixar a pele dela arrepiada com um simples roar de seus dedos. Ela estremeceu. Ele a deixava desconfortvel em muitos nveis e ela no estava gostando nada daquilo. No queria se sentir to vulnervel e to consciente daquele homem, casada ou no. Havia jurado permanecer longe dos homens para sempre, depois do que havia acontecido com Shayne.
  De todos eles. Especialmente daqueles arrogantes que queriam mandar em sua vida, com olhos negros como a noite e que riam s suas custas.
   Para onde voc est me levando? - perguntou ela, quebrando o silncio, quando eles deixaram as ruas de Sherwill para trs e pegaram uma autoestrada em direo  cidade.
   Voc ver.
  E se eu no gostar do lugar?
  - Voc vai gostar  foi tudo o que ele disse, antes de ligar o rdio para ouvir as notcias, encerrando a conversa.
  Angie esperou que ele mudasse de canal ao ouvir as notcias sobre o mercado de aes, como Shayne sempre fazia, mas Dominic permaneceu atento a cada palavra.
  - No que  que voc trabalha? - perguntou ela, assim que ele baixou o volume depois que o noticirio chegou ao fim, j bem mais perto da cidade.
   Resumindo, eu invisto.
   E o que isso significa, exatamente?
   Eu compro aes em baixa e as vendo quando esto em alta.
  Angie pensou a respeito por um momento.
   Quer dizer que voc no faz efetivamente nada.
   Eu fao dinheiro e o uso para comprar outras coisas: Escritrios, Shopping Centers...    - Entendi.  Ela no sabia ao certo por que, mas aquela discusso lhe pareceu importante para que ela pudesse descobrir como aquele homem funcionava.  Voc no produz nada. Nada de verdade, eu quero dizer. O que tem para mostrar ao final do dia como resultado dos seus esforos?
  - Mais dinheiro.
  Angie soltou um pequeno suspiro de satisfao, e ele no gostou nada daquilo.
   Voc tem algum problema quanto a isso?
  - Absolutamente - disse ela, passando a mo pelo painel moderno do carro dele.   evidente que voc  incrivelmente bom nisso.
 Dominic quase rosnou. Tivera a ntida impresso de que ela no havia tido a inteno de elogi-lo.
  Os dedos dele enrijeceram em torno do volante.
  Ele havia ficado bilionrio, tinha dezenas de carros e um helicptero  sua disposio e l estava ela dizendo que ele no fazia nada?
  - Suponho que voc preferiria que eu trabalhasse numa fbrica como o seu marido "galinha".
  Ele captou a expresso nos olhos dela e viu o choque dar lugar a uma expresso de dor, como se tivesse sido profundamente magoada, antes de ela virar o rosto.
  Dominic podia ser implacvel no mundo dos negcios, mas aquilo no significava que pudesse maltratar quem estava sofrendo, que ela o tivesse provocado.
   Eu sinto muito. No devia ter dito isso.
  - Est tudo bem  disse Angie, olhando para as suas mos entrelaadas em seu colo. Acho que pedi isso. Desculpe.
 -  Voc sente falta dele?
  - Acho que sinto mais falta do cuidado. Os ltimos meses foram... difceis. Se estivesse mais atenta, talvez tivesse dado conta do que estava para acontecer, mas o tratamento de fertilizao tira todo seu foco de ateno.
  Ele sabia muito bem disso.
  - H sempre coisas que deveramos perceber a tempo; e de alguma forma, acabamos por no enxergar at ser tarde demais.
  Dominic sentiu os olhos azuis frios dela pousados sobre si, e todas as suas perguntas e indagaes pairando no ar, mas manteve os seus prprios olhos fixos no trfego.
  - Seja como for, eu estou feliz por esse beb no ser de Shayne. Acho que no suportaria descobrir a verdade, esperando por um filho dele.
  Por acaso ela se dava conta do quanto estava errada? Ela havia sido abandonada porque enfrentara o marido e se recusara a abortar um filho que nem sequer era seu; decidira atravessar aquela gravidez sozinha para dar  luz um beb que ela no planejava manter consigo. Ela podia fazer uma mala para passar a noite em 90 segundos quando a maioria das mulheres que ele conhecia no o faria em menos de 90 minutos.
   verdade que ela parecia um ratinho, mas tinha nervos de ao. Precisara de coragem para ligar para ele, e ainda mais coragem para concordar em se encontrar com ele depois daquela primeira conversa raivosa ao telefone. Ela tivera medo, tanto que quase fugira dele, mas, apesar de seus temores e dos enjoos que a deixavam fraca e plida, ela se defendera de todas as acusaes que ele lhe fizera.
  Dominic olhou para o relgio antes de ligar o rdio a fim de ouvir mais uma atualizao do mercado.
   Acredite-me disse ele, genuinamente surpreso por encontrar um pingo de respeito por ela em seus pensamentos  voc teria suportado.
  ANGIE NO teve chance de Perguntar o que ele queria dizer, pois Dominic manteve o rdio ligado o tempo todo.
  No havia nada naquele noticirio com que ela pudesse relacionar, de modo que ela acabou desistindo de entender alguma coisa, passando a simplesmente desfrutar do trajeto, e da crescente expectativa.
  Ela havia deixado a sua casa, a nica em que ela se lembrava de j ter morado para ir... para onde, exatamente?  De tanto em tanto, ela conseguia avistar o porto e a gua azul do mar. Aquilo era como sair numa daquelas frias misteriosas em que no se sabia para onde se estava indo at chegar ao aeroporto.
  Qualquer lugar para onde Dominic Pirelli a estivesse levando seria bem melhor do que qualquer coisa que Shayne pudesse lhe proporcionar. No porque se importasse exatamente com ela, mas porque queria o melhor para o seu filho.
  Seria como passar umas frias s custas de outra pessoa. Umas frias com seis meses de durao.
  Por que no tentar ao menos desfrutar delas?
  Eles j estavam perto da praia agora. Angie podia sentir a maresia no ar, muito diferente do ar de onde ela vinha, carregado de poeira, calor e desespero. Dominic enveredou ento por uma rua repleta de casas que mais pareciam manses, praticamente banhadas pelo mar.
  O lugar em que ele pretendia aloj-la no podia ser perto de l. Ele desacelerou e atravessou um porto que devia ter pelo menos 3m de altura para abarcar os muros caiados de cada lado.
  - Chegamos. 
  Angie estava boquiaberta.
  Aquilo no era simplesmente uma casa, pensou ela ao ver todo aquele esplendor. Havia pelo menos dois andares; provavelmente trs, todos de frente para o mar, incluindo uma piscina que ela vislumbrou por trs de uma cerca coberta de buganviles, e o mar batendo nas pedras da praia, logo abaixo.
  Aquilo definitivamente no era apenas uma casa, mas uma manso. Onde estava o apartamento que ela esperara, o lugar onde ele poderia facilmente ficar de olho nela e monitorar o progresso do beb sem que ela invadisse o espao de ningum?
  - Mas essa deve ser a sua casa.
  - Isso mesmo  disse Dominic, lanando um olhar na direo  barriga de Angie.  E esse  o meu filho. Onde mais ele deveria estar?
  Angie engoliu em seco. Viver num lugar como aquele estava muito alm das suas maiores fantasias. A ltima coisa que ela esperava era morar com os pais do beb que ela estava esperando, durante a sua gravidez. Afinal, ela no fazia parte da famlia...
  Dominic abriu a porta para ela e pegou a sua bolsa do banco de trs, sem que ela fizesse meno de se mover. As coisas estavam acontecendo rpido demais desde aquele telefonema que ela fizera no dia anterior. Fazia apenas um dia.
   Voc vem?
  Sua voz soou impaciente e ela se deu conta de que Dominic tinha passado toda a tarde atrs dela. Era evidente que mal pudesse esperar para se ver livre dela e voltar a fazer os seus milhes.
   Olhe  disse ela, soltando o cinto de segurana e saindo relutantemente do carro, pois s assim ele no pareceria to grande ao seu lado e ela no pareceria uma criana fazendo pirraa. Precisava do seu prprio espao, algum lugar em que pudesse ficar  vontade, mesmo se fosse apenas uma cabana, comparada com aquele palcio, e no viver grudada com os pais do beb que ela estava esperando. Recusara sair do carro, porm, dificilmente seria uma boa maneira de convenc-lo disso.
 -  No quero parecer mal-agradecida, mas no estou convencida de que esta seja uma boa ideia. O que as pessoas vo achar de voc trazer uma mulher grvida para a casa da sua famlia? Acho que seria melhor para todos ns que eu fosse para outro lugar.

  Dominic enrijeceu ao lado dela, transformando-se novamente numa montanha, com seus olhos intensos e seu maxilar to duro como se fosse feito de pedra.

  - H algo que obviamente ainda no compreendeu a meu respeito, sra. Cameron. Eu no dou a mnima para as aparncias, nem para o que as pessoas dizem ou pensam de mim. 

  - Sei que voc tem poucos motivos para se preocupar com as minhas necessidades ou desejos, mas j parou para pensar por um momento, sequer, no que a sua mulher vai achar do seu plano?

  Ele espirou fundo e olhou para o cu, passando a mo pelos seus cabelos antes de tirar os culos escuros e esfregar os olhos com as costas da outra mo. O sol batendo em seu rosto permitiu que ela visse as linhas de tenso em torno dos olhos dele e a sbita dureza em sua boca.

  - Pensei que voc soubesse  disse ele, com uma voz profunda e spera como um leito de rio seco. - Afinal, no  nenhum segredo.

  - Que eu sabia o qu?  perguntou Angie, confusa, pensando na resposta bvia que ela deveria ter considerado antes, dadas as suas prprias circunstncias. Por que s o  casamento dela fracassaria? Ela se maldisse por nunca ter considerado aquela possibilidade, optando, em vez disso, por acreditar em algum conto de fadas onde o beb ficava com uma me e um pai que o desejassem e o amassem profundamente, vivendo todos juntos, em perfeita harmonia.
   Est querendo me dizer que  divorciado?
   No! - As palavras dele atravessaram o pntano da mente dela.  Minha mulher faleceu.

  CAPTULO SEIS
  A me do beb que ela estava esperando havia morrido!
  Angie estava atnita. 
  Pobre beb, pensou ela, levando a palma de sua mo instintivamente para sua barriga. Pobre beb, que teria que crescer sem uma me.
  Logo em seguida, veio outro pensamento. Pobre Dominic. Sua mulher havia morrido e ento uma estranha aparecera  sua porta, grvida de seu filho. No era de admirar que ele tivesse ficado to zangado com o seu telefonema.
  Seus olhos se encheram de lgrimas. Lgrimas de tristeza. De perda.
  Lgrimas pelo beb que nasceria em meio a tanta tragdia. Era como se o peso do mundo estivesse pressionando os ombros daquela criana que nem sequer tinha nascido.
  Como ela havia se enganado, pensando o tempo todo que ele estava protegendo a sua mulher!
  Angie olhou para aquele homem que mais parecia uma montanha com seus olhos negros de ressentimento por ela, suas mos cerradas junto ao corpo e teve vontade de chorar por ele, pela injustia de ser ela a mulher a carregar o filho dele em seu ventre, chorar pelo trauma em vez de pela alegria que deveria ter acompanhado a descoberta da existncia daquela criana.
   Eu sinto muito  disse ela, estendendo uma das mo para tocar-lhe o brao.
   No!  exclamou ele, afastando o seu brao antes que ela mal o roasse com a ponta de seus dedos.  Eu no quero a sua pena!
  Ela se afastou. Deveria saber que ele interpretaria qualquer coisa que ela dissesse de maneira equivocada. Ela parecia atiar o pior que havia dentro dele.
   O que voc preferiria que eu fizesse? Que dissesse que estou aliviada por voc no estar desenvolvendo nenhum plano ardiloso para obter a guarda do beb, prendendo-me aqui?
  Os olhos dele se estreitaram, iluminados por um tipo de calor que no tinha nada a ver com o sol, mas sim com uma raiva nua e crua.
   Acha que eu seria capaz disso? 
  Ela engoliu em seco, encarando-o.
  - Confesso que isso passou pela minha cabea.
   Voc tem uma opinio muito ruim a meu respeito. Estou surpreso que sequer confie 
em mim para cuidar de meu prprio filho.
  Ela virou a cabea.
   Isso no depende de mim.
   No mesmo, mas voc continua me julgando mesmo assim. Acha que eu me importo mais com o dinheiro do que com essa criana. Me achou desprezvel porque eu no fao  parafusos e ferrolhos, mas fao dinheiro, em vez disso, que  o que todas as pessoas que fazem parafusos e ferrolhos tentam conseguir. Mesmo assim, o meu sucesso, parece, de alguma maneira, me rebaixar aos seus olhos.
  Angie balanou a cabea.
  - Voc no parou de me julgar desde que me conheceu. E agora est me prendendo numa gaiola dourada.
  - Minha casa est longe de ser uma gaiola!
  - Voc no leva os meus sentimentos em considerao. No sei se devo mesmo ficar aqui, no sob estas circunstncias, sabendo que sua mulher faleceu. Isso no parece certo.
 - O qu?  exclamou ele, batendo no cap do carro. - Primeiro, voc diz que no quer ficar aqui porque minha mulher poderia fazer alguma objeo, e agora alega que no vai ficar porque no pode faz-lo. O que a est afligindo, afinal, sra. Cameron? Tem medo que eu salte sobre esses seus ossos magrelos enquanto eu estiver sob o mesmo teto que eu?
  - No!
  Seu rosto estava em chamas de indignao devido  maldade contida nas palavras dele.
  - Acha, por acaso, que eu lhe daria essa liberdade se tentasse faz-lo? 
  Est com medo de no querer voltar para sua casa, depois de sentir o gostinho da boa-vida, ento?  provocou ele, com os tendes retesados em se pescoo, enquanto uma veia pulsava selvagemente em sua tmpora.
  - Sem chance. Uma pessoa teria que ser muito masoquista para querer ficar com voc. Prometa-me que se eu  ficar, ser apenas at o beb nascer e ento voc me libertar.
   Feito  disse ele, afastando-se do carro.  Voc tem a minha palavra de que eu no vou ficar tentado a tirar vantagem de voc e eu tenho a sua palavra de que no teremos que lidar com questes de separao at daqui a seis meses. Parece que temos um acordo perfeito.
  Acordo perfeito? Ou um inferno perfeito?
  De repente, seis meses sob o mesmo teto que aquele homem no se pareceram em nada com um perodo de frias.
  Eles continuaram ali, olhando feio um para o outro. Por nada no mundo ela desviaria o seu olhar do dele primeiro, para que ele no tomasse aquilo como uma espcie de vitria.
  - Dominic, voc est aqui.
  A voz calma veio de trs deles. Ele desviou o olhar primeiro e Angie esfregou os braos, grata pela interrupo. Ela se virou e viu uma senhora j de certa idade, sorrindo para ela.         
 - Voc deve ser Angelina Cameron. Que nome bonito - disse a mulher, tomando as mos de Angie nas suas, embora seus olhos parecessem preocupados ao olhar alternadamente para um e para outro.  Entre, minha querida. Eu estava esperando por vocs.         
 
- Esta  Rosa, minha governanta  disse Dominic, fazendo as honras da casa  embora, como voc vai perceber, em breve, ela seja bem mais que isso.
  Angie seguiu tensa, quando Rosa os conduziu por um corredor coberto que  e seguia at a casa, perguntando-se quanto tempo fazia desde a ltima vez em que ela fora chamada pelo seu nome todo. Provavelmente quando renovara a sua carteira de motorista. Tinha gostado de Rosa. Suas boas-vindas haviam sido sinceras, suas mos quentes apertando as dela, quase como se lhe dissesse eu compreendo.
 Gostaria ainda mais de como o seu nome havia soado nos lbios de Dominic. O que havia de to especial no modo de ele pronunciar o seu nome com aquela voz grave?
  Rosa olhou para trs, sorrindo ao captar os olhos de Angie. O que Dominic havia lhe contado? Ser que Rosa sabia porque ela estava ali? Ou ser que ela simplesmente 
tinha o hbito de receber bem as mulheres de Dominic? Ela no conhecia as circunstncias da morte da mulher dele, nem h quanto tempo aquilo havia acontecido, mas no podia imaginar um homem como ele permanecendo solteiro por muito tempo.
  Dominic era viril demais para isso. O poder irradiava dele de maneira quase palpvel, ou seria apenas o calor do corpo dele, que ela estava sentindo atrs de si?
  Angie olhou para trs, fingindo apreciar a vista.
  No, pensou ela. No era apenas o calor que emanava do seu corpo.
  Certamente havia dezenas de mulheres esperando para se tornar a nova senhora Pirelli. Com um pequeno beb para ser cuidado ento, ele ficaria irresistvel. 
  Isso no caso das mulheres que se interessavam por homens que julgam uma mulher pela sua aparncia e pelo lugar de onde ela vem.
  Rosa os conduziu para alm dos jardins extremamente bem cuidados em direo  casa propriamente dita e Angie, por um momento, se esqueceu do homem ao seu lado. Se do lado de fora, a casa j parecia um palcio, por dentro ela era simplesmente inacreditvel. Havia um cmodo  direita do corredor da entrada que seguia por toda a extenso da casa, com janelas em formas de arcos, e que dava  num terrao de frente para o mar, com lustres brilhantes pendendo de um teto incrivelmente alto. Angie ficou boquiaberta. Aquilo parecia ter sado de um conto de fadas.
   Eu preparei os aposentos de hspedes para voc - disse Rosa, chamando a sua ateno para si.  Espero que  fique confortvel l.
  Angie no tinha como responder. Ainda estava tendo dificuldade em acreditar que aquela pudesse realmente ser a casa de algum. Talvez at mesmo a sua nos prximos seis meses.
  Os aposentos dela, como Angie veio a descobrir, comportavam toda uma ala da casa. Rosa parecia felicssima ao conduzi-la pelos cmodos decorados em tons de limo e branco, com toques de azul. O sol do fim de tarde se infiltrava pelas cortinas que oscilavam ao sabor da brisa marinha. Era muita coisa para Angie absorver de uma vez s.  Para alm da sala de estar, havia um quarto enorme, com uma cama king-size, closet e uma janela que dava para os penhascos e o mar. O banheiro contguo era incrivelmente luxuoso, todo em mrmore branco, com uma banheira digna de um SPA e um chuveiro de tamanho duplo.
  Aquilo era maior do que toda a sua casa em Sherwill.
  E muito mais luxuoso.
   Satisfeita? - perguntou Dominic, depois da breve excurso, pousando a bolsa dela sobre a caixa de cobertores, na ponta da cama. 
  Pela primeira vez, ela percebeu uma nota de insegurana  da parte dele.
  Estaria com medo de que ela fugisse com o seu filho? Perguntar, porm, se ela estava satisfeita j era demais!
   Voc viu de onde eu venho. O que acha?
  - Vou tomar isso como um sim - disse ele.  Tenho muito trabalho para colocar em dia. - O restante de suas coisas estar aqui amanh. Avise Rosa se precisar de alguma coisa nesse meio tempo. Eu a verei no jantar.       
   Obrigada  disse ela, muito sinceramente, olhando para o lugar onde passaria os prximos seis meses. 
  Aquilo no se parecia em nada com uma gaiola ou priso. 
  A menos que ela pensasse na pessoa com quem ficaria l dentro. Ainda bem que ele tinha que ir ao escritrio. Com um pouco de sorte, passaria longas horas l e ela quase no o veria.
  Foi ento que ela percebeu um movimento, e descobriu, ao se virar, que ele havia ido embora, deixando apenas um toque de seu fascinante perfume amadeirado e masculino pairando no ar.
  Do outro lado da sala, Rosa lhe sorriu, suavemente.
  -  muito bom ter voc aqui  disse ela. 
  - Ele j est sozinho ha muito tempo. Ter um beb agora...  Ela levou a mo  boca, mas Angie j havia notado as lgrimas que ameaavam cair dos olhos dela.  ...um beb  um presente dos cus. Voc deve ser uma mulher muito especial, para fazer isso por Dominic.
  Angie sentiu as suas prprias lgrimas rolarem novamente, balanando a cabea num esforo intil de fazer com que elas desaparecessem. Ela no era especial, nem nobre, ou dadivosa. Suas razes eram bem mais pessoais.
   Isso no teve nada a ver com Dominic  insistiu ela.  S estou feliz por esse beb ter encontrado o seu lar. E um lugar onde ele  desejado.
  Rosa assentiu, secando o rosto com um lencinho.
   Eu me deixei levar. Gostaria que lhe trouxesse algo para comer, ou quem sabe, tomar um banho?  Isso certamente a ajudar a relaxar. Talvez dar um mergulho na piscina?
  Tantas alternativas e todas to tentadoras! Ela no estava com fome depois daquele super almoo e no havia trazido roupa de banho consigo, mas aquela banheira de mrmore com suas torneiras douradas era a prpria tentao.
   O banho de banheira parece maravilhoso.
  Rosa assentiu, pegando um roupo branco de plush do armrio e pousado-o 
sobre a cama.
   Eu o prepararei para voc e ento lhe trarei uma xcara de ch.
   Isso seria perfeito - disse Angie, agradecendo, se perguntando que anjo da guarda a havia colocado ali, aos cuidados da calorosa Rosa.
  J Dominic era um perigo para ela. Seus olhos escuros olhavam com indisfarvel desdm num momento, para no seguinte, emanar um calor que percorria todo o seu corpo.
  Ele lhe provocava um intenso desejo que a deixava fraca e sem flego.
  
  E quando ele a tocava, ento...
  Angie estremeceu. Esquea sobre os anjos da guarda, Dominic e seu toque, disse ela a si mesma, sentindo o vapor perfumado vindo do banheiro. Talvez, pela primeira vez na vida, algo estivesse dando certo para ela. Aqueles prximos seis meses talvez fossem a oportunidade perfeita para descobrir o que ela queria fazer com o restante da sua vida.
  Afinal, estava solteira agora, sem amarras. Parecia recomear. Quem sabe at estudar, fazer algo por si mesma.
  E quanto a beb? Ela passou a mo pela barriga, triste, pela me que jamais conheceria o seu prprio filho e pelo beb que jamais conheceria a sua me. Havia feito a escolha certa. Aquele beb iria ter um lar.
  O que mais ela poderia querer? 
  Ela colocou a ponta do p na banheira e suspirou, tirando o roupo ao mergulhar em suas profundezas, ajustando os jatos, para se submeter a uma deliciosa hidromassagem que provocou tremores sob a sua pele. Tremores que despertaram os seus sentidos e fizeram com que ela se lembrasse de outra corrente eltrica provocada em seu corpo. O assalto das guas aos seus sentidos quase fez com que ela imaginasse o toque dos dedos dele, o deslizar de sua mo...
  Ela abriu os olhos bruscamente e desligou os jatos, abalada com o rumo que seus pensamentos haviam tomado.
  No! Ele era o pai biolgico da criana que ela carregava em seu ventre, o marido de sua me biolgica que estava morta, um homem que a odiava por quem e pelo que ela era.
  Ela mergulhou a cabea na gua para afastar aqueles pensamentos. No podia fantasiar a respeito dele!
  Uma hora depois, enroscada no roupo felpudo, Angie se sentiu abenoadamente relaxada ao caminhar na ponta dos ps pela casa,  procura da cozinha para guardar a sua xcara, profundamente relaxada aps aquele banho perfumado. Achara que teria dificuldade em encontrar a cozinha, mas acabara se perdendo naquela casa imensa.
   Ela se deteve num amplo corredor onde teve subitamente a certeza de nunca ter passado devido  ampla escada que levava ao andar de cima e se fechava num crculo, perguntando-se onde ela havia tomado o caminho errado. 
  Foi ento que ela olhou para cima e viu o retrato na parede. Era uma pintura de uma mulher reclinada em uma chaise longue, cor de marfim, com seu longo cabelo escuro e brilhante caindo sobre ombros de pele de cetim, um lindo rosto e olhos escuros e exticos enfeitiadores, lbios cor de carmim curvados num convite, e o corpo envolto num vestido drapeado de um profundo tom ametista.
  O rosto e o corpo de uma sedutora. Angie subiu um degrau. E ento outro.
  
  Ela era linda.
  Foi ento que ela compreendeu, no sem uma ponta de inveja. Aquela era Carla. A verdadeira me de seu filho ainda no nascido.
  No era de surpreender que Dominic tivesse ficado to abalado ao conhec-la.
  
  Aquela criatura glamorosa era a mulher que deveria estar esperando o filho deles, e no qualquer, vinda da parte errada da cidade.
  Ela teve um sobressalto ao ouvir uma porta se fechar. Ver Dominic surgir no alto da escada e se deter ao v-la, seus olhos escuros fixos nela.
  - Angelina?
  Angie no conseguiu se mover, cativa daqueles malditos olhos. Ser que ele ia achar que ela o estava espionando? Ser que acharia que ela era uma ladra? A xcara oscilou sobre o pires, em sua mo.
    - Desculpe. Eu estava procurando a cozinha. Devo ter virado no lugar errado.
  Os olhos dele voaram em direo  xcara na mo dela e ento novamente para o seu rosto, como se estivesse medindo as suas palavras para checar se ela estava dizendo a verdade. Havia trocado a roupa de trabalho por uma cala escura e uma camiseta justa de um tecido to fino que parecia deslizar sobre o seu peito e suas propores perfeitas. Ele desceu lentamente e se deteve no degrau ao lado dela e Angie pode ver as gotculas de gua no cabelo dele e sentir o seu cheiro fresco e masculino.
  Ela puxou as pontas do seu roupo, subitamente consciente do contato do tecido com os bicos dos seus seios, sentindo-se despreparada para outro encontro com aquele homem.
  - A cozinha no fica no andar de cima.
  Ela engoliu em seco.
  - Eu sei. Desculpe-me.  que eu vi o retrato...  a sua mulher?
  - Sim, essa  Carla.
  - Ela  to linda!
  Dominic olhou para trs, em direo ao retrato.
  - Era.
  Ele, ento, respirou fundo, e olhou para o restante dos degraus.
  - Siga-me. Eu lhe mostrarei onde fica a cozinha.
  Dominic a deixou aos cuidados de Rosa na enorme cozinha, e desapareceu logo em seguida, com as chaves do carro em sua mo, dizendo  governanta que chegaria tarde. Angie se perguntou se ele estava indo a um encontro. Ela deveria ser linda,  claro. Tinha que ser para atrair um homem como aquele, acostumado a coisas belas...
   Voc gosta de tortellini?
  Angie piscou, confusa. A pergunta de Rosa a trouxe de volta  realidade.         
  - Eu no sei. Nunca experimentei. 
  Rosa simplesmente sorriu ao colocar o prato  frente dela.
  Angie descobriu que adorava tortelini. Especialmente os feitos em casa, como os de Rosa.         
  - Foi o sr. Pirelli que lhe pediu que me alimentasse? -  perguntou ela, terminando o seu segundo prato.  Ele acha que eu estou magra demais.
  Rosa apenas riu.
   Eu tambm sou italiana, cara. Para mim, todo mundo precisa engordar um pouquinho, mas voc precisa cuidar especialmente de sua sade. Est fazendo um trabalho muito importante. Alguns diriam que  o mais importante de todos.
  Angie pousou o garfo e lhe agradeceu, sentindo-se deliciosamente cheia, afastando o cabelo dos olhos, e pela segunda vez, naquele mesmo dia, pensou no retrato e na mulher que deveria estar gerando aquele filho. 
   Eu vi o retrato de Carla... da sra. Pirelli. Ela era linda. A velha senhora deu um sorriso triste ao pegar o prato de Angie.
   Aquele quadro foi pintado pouco depois do casamento. Ela era uma moa linda. Queria desesperadamente dar um filho a Dominic. E no final das contas...
  Angie levou a mo  barriga.

   - No  justo que ela no esteja aqui para desfrutar disso. No  justo que eu tenha o seu beb.
  Rosa pousou uma mo reconfortante no ombro dela.
  -  um milagre, isso, sim  disse ela com um sorriso, embora Angie tivesse percebido a tristeza em seu olhar. Ela, porm, se refez rapidamente e levou o prato at a pia. 
   O que gostaria de fazer agora? Est precisando de alguma coisa? 
  Angie balanou a cabea.
  Foi um dia muito comprido. Acho que vou me deitar cedo.
  Ao afastar o cabelo dos olhos novamente, porm, ela pensou que talvez pudesse lhe pedir alguma coisa.
  Voc, por acaso, tem uma tesoura para me emprestar? Meu cabelo est me levando  loucura.
  Rosa pareceu ter uma ideia melhor.
  - Minha sobrinha  cabeleireira. Ela trabalha em casa. Vou ligar para ela e perguntar se pode dar um pulo aqui amanh.
  - No h necessidade...
  Rosa apenas ergueu a mo ao pegar o telefone, aparentemente decidida.
 
   noite, deitada em uma cama estranha e ouvindo os sons das ondas quebrando sobre as pedras abaixo, as aves marinhas... Tudo to diferente, to estranho. Ela se enroscou mais fundo na cama. Como conseguiria dormir?
  Angie se remexeu na cama ao sentir a brisa marinha estufando a cortina e o cheiro do ch quente e torradas vindo de sua mesa de cabeceira, e piscou repetidamente at finalmente acordar e perceber que j passavam das 10h. Ela j no dormia tanto assim h sculos.
   Sentou-se, ento na cama e tomou um gole de ch, testando o seu estmago, mordiscando, logo em seguida, uma torrada. A coisa parecia bem melhor que no dia anterior. Talvez o mdico estivesse mesmo certo e aquela fase terrvel fosse ter fim, afinal.
  Uma hora depois, Antonia, a sobrinha de Rosa chegou. Ela avaliou o rosto de Angie e passou os dedos pelo cabelo dela.
   Voc tem uma ondulao natural - disse ela -, mas o peso a puxa para baixo. Eu tenho uma ideia do que podemos fazer. Topa?
   Uma hora depois, aps algumas tesouradas, uma hidratao profunda e uma boa escova, Angie se olhou no espelho e no acreditou na transformao que sofrera. Onde outros pendia escorrido e sem vida em torno do seu rosto, ou puxado para trs, num rabo de cavalo, seu cabelo agora balanava em camadas.
  - Eu adorei!  anunciou ela, para o deleite de Antonia e de Rosa.  Como vou poder compens-la por isso? 
  Rosa sorriu e abraou a sua sobrinha. 
   Acredite-me, voc j o fez.
  Ela estava... diferente, mas Dominic no soube apontar ao certo a mudana ao sentar com ela  mesa de jantar, Ela ainda estava usando o que parecia ser o mesmo jeans e outra daquelas suas camisetas interminveis e o mesmo casaquinho deprimente, mas seus olhos pareciam maiores e sua boca, mais larga.
  De vez em quando ele capturava um toque de algo fresco e fascinante, com um toque de fruta... Seria o seu perfume?  
   Como voc est se acomodando?  perguntou ele.
  Estava acostumado a comer sozinho, normalmente em seu escritrio, de olho no mercado estrangeiro, mas naquela noite, tinha trazido papis consigo que ela precisaria assinar. Alm disso, achou que teria que ser, ao menos civilizado com ela. Afinal, Angie era sua hspede. Ele estendeu a mo em direo ao cesto de po e tocou, inadvertidamente, na mo dela ao pegar a mesma fatia.
  Dominic afastou a mo enquanto a dela desaparecia em direo ao seu colo.
  Logo em seguida, ele agarrou a fatoa, reivindicando-a para si num gesto bem-humorado. No sabia se ela estava carregada de eletricidade esttica devido ao fato de suas roupas serem todas de fibras sintticas, mas toda vez que ele e a tocava, algo parecia centelhar sob a sua pele.
  - Est tudo bem  respondeu ela, apesar da cor em seu rosto trair o seu tom de voz.
  - Eu trouxe alguns papis redigidos pelos meus advogados para voc assinar depois do jantar, se no se importar.
  Angie ergueu os olhos imediatamente.
  - J tem alguma notcia a respeito da casa?
  Ele balanou a cabea, viu a esperana nos olhos dela morrer e decisiu esperar um pouco mais para lhe contar a verdade.
  - Mas os advogados disseram que ele tem direitos, apesar de a  propriedade estar no seu nome. - Dominic no conseguia compreender por que ela estava to obcecada por aquela casa velha, embora pudesse entender por que ela achava injusto que Shayne tivesse algum direito a ela depois do modo como a havia tratado.  Os advogados anda esto avaliando a situao. Esses papis dizem respeito ao nosso acordo.
  Ela o olhou sem expresso alguma, como se sua mente ainda estivesse s voltas com a casa que ela podia perder. 
   Voc no precisa fazer isso hoje se preferir consultar outro advogado.  disse ele, para depois se perguntar por que havia dito aquilo.
  Ele queria deixar tudo por escrito o mais rpido possvel. No queria correr o risco de ela mudar de ideia ou desenvolver um gostinho pela boa-vida e exigir algo mais dele.
   Est bem.  melhor mesmo que saibamos claramente qual  a posio de cada um de ns desde o comeo  assentiu ela, deixando-o subitamente enfeitiado pelo movimento do cabelo dela.
  Era isso! Seu cabelo estava cortado em camadas, e toda a vez que ela movia a cabea, elas se moviam, independentemente uma da outra, mas ainda assim, juntas, como um Campo de trigo ondeando ao sabor da brisa.
  E ento ele voltou novamente a sua ateno para o rosto dela e viu que Angie o estava olhando, insegura.
   Acho que prefiro pular a sobremesa e ir me deitar cedo - disse ela. - Posso assinar os documentos agora?
    dinheiro demais! - protestou ela, 10 minutos depois, j no escritrio dele.  Ningum precisa de 20 mil dlares por ms para viver.
   Como voc sabe? argumentou ele, desejando que ela simplesmente assinasse tudo, j que estava com tanta pressa de voltar para a sua sute, tentando ignorar o movimento do seu cabelo e do cheiro de framboesa e laranja que ele exalava e que parecia estar tomando conta do lugar todo.  Voc vai precisar de roupas novas  medida que o beb for crescendo.
  - Na verdade, j est precisando delas agora. 
  O rosto dela ficou em brasa.
  - Mas 20 mil dlares?  evidente que voc no conhece as lojas onde eu fao as minhas compras.
  - Ento passe a comprar em outros lugares, ou poupe o dinheiro! Faa um cruzeiro, doe tudo a uma instituio de caridade. Eu no me importo, apenas assine o acordo.
  Dominic no se importou em disfarar a sua tenso. Queria que Angie sasse de l o mais rpido possvel. Ela estava perto demais e aquele maldito cheiro de frutas que o atingia ao menor movimento de cabea dela, como que num convite, j o estava deixando embriagado.
  Aquele corte havia realado os seus olhos. Um par de olhos incrveis que no eram simplesmente azuis. Numa paleta de pintor eles provavelmente seriam classificados de sonho cerleo".
  Ele deu um passo para trs, a fim de lhe dar mais espao na mesa, querendo, na verdade, obter uma chance de colocar a cabea no lugar. O que estava acontecendo com ele? Seus hormnios estavam em polvorosa e ele estava se sentindo atrado por aquela mulher. 
  - Est bem - aceitou ela, tensa. - O dinheiro  seu, afinal.
  Ele suspirou profundamente quando ela finalmente assinou as duas cpias.
  - Onde mais voc disse para eu rubricar?- perguntou ela, e Dominic foi obrigado a se reaproximar, a fim de apontar o lugar onde ela deveria colocar a sua marca.
  Ela virou a cabea com o rosto perigosamente perto do dele, com seus olhos azuis arregalados de surpresa e seus lbios entreabertos numa pergunta.
   Senhor Pirelli?  disse ela em meio a uma arfada que ele absorveu.
   Dominic - corrigiu ele, sem desviar os olhos daqueles lbios que pareciam to surpreendentemente convidativos. Como  que ele no havia percebido aquilo antes?
   Dominic...
  Ele adorou o modo como o nome dele soou nos lbios dela; adorou a linha branca perfeita de seus dentes abaixo deles e a pontinha visvel de sua lngua rosada ao pronunci-lo.
  Foi ento que o celular dele tocou, dentro do seu bolso e o encanto se desfez. Dominic se afastou, abalado, perguntando-se o que diabos estava pensando.
  Angie rabiscou as suas iniciais nos papis, com sorte, em algum lugar perto de onde ele havia indicado, e se apressou em direo  porta. Precisava sair de l e respirar, pois no havia mais oxignio naquele recinto. Ele parecia ter sido completamente consumido em um nico olhar abrasador daqueles olhos que no estavam simplesmente escuros aquela noite, mas negros.
  Ela saiu tropeando do escritrio, com o corao aos pulos ao seguir para a cozinha, quase esbarrando em Rosa ao sair.
   Vim ver se vocs queriam a sobremesa agora, ou alguma coisa quente para beber.
   Para mim no  disse Angie, sabendo que seu rosto estava em brasa.  Acho que vou direto para a cama. Boa noite.
   - S acho que voc deveria ter arranjado um apartamento para ela em outro lugar  protestou Simone, do outro lado da linha.
  - Eu no podia deix-la onde ela estava!
  - Claro, mas precisava t-la levado para a sua casa?
  - Dom, voc deveria ser mais cuidadoso com algum como ela. Angie vai acabar se acostumando com o luxo e voc nunca mais vai conseguir se livrar dela.
  - Ns fizemos um acordo. Ela o assinou esta noite. Partir assim que o beb nascer.
  - Voc realmente acha que ela vai voltar para o lugar de onde veio depois de ver como a outra metade a humanidade vive?
  - Nossa, Simone  disse ele, meio brincando  qualquer pessoa que ouvisse isso pensaria que voc est muito preocupada com ela.
  - Eu s no quero que ela tire proveito de voc disse Simone, aps uma breve hesitao.
  Ele se lembrou do quase beijo, no escritrio, tentando descobrir se fora ele ou Angie quem havia provocado o que quase havia acontecido, mas desistiu de tentar faz-lo. Afinal, havia efetivamente acontecido e era assim que tudo iria continuar.
  - Voc realmente acha que eu deixarei algum como ela tirar vantagem de mim?
  Houve um silncio desconfortvel do outro lado da linha.
  - Ela  uma mulher, Dominic. E caso ainda no tenha notado, espera um filho seu. Seu marido a deixou.  evidente que ela vai tentar provocar o seu corao toda vez que tiver chance de faz-lo, tendo assinado um acordo ou no.
   Obrigado pelo aviso  disse ele.  No que eu enxergue alguma possibilidade de e apaixonar por algum como ela. Voc v?
  Simone riu, exatamente a reao que ele pretendia provocar nela. No havia acontecido nada. Nem aconteceria. Ele se asseguraria disso. Permaneceria longe das vistas dela. Jantaria em seu escritrio, como se nada tivesse mudado.
  Porque nada havia mudado. Eles tinham um contrato que no dizia nada quanto a ele ter que entret-la. Assim que cumprisse os seus termos, ela partiria.
  Ele no havia chegado at ali para comear a se rebaixar agora.

  CAPTULO SETE        
  Ela perdeu completamente o sono aquela noite, apesar dos lenis brancos e macios, do edredom fofo e do bater das ondas nas pedras abaixo.
  O que havia acontecido com Dominic, no escritrio? Ele lhe parecera to tenso que ela decidira assinar logo o maldito contrato para sair de l, mas sentira algo soprar em seus 
cabelos e quando se virara, encontrara-o l, bem atrs dela! O modo como ele a olhara com aqueles olhos escuros quentes e intensos fez com aquele desejo insano retornasse com toda a fora. 
  Ela deveria ter lhe dado as costas imediatamente. Deveria ter dito que precisava ler o acordo novamente em sua sute, mas permanecera por um momento a mais, e ento 
ele se inclinara na direo dela e ela esperara... Pelo qu?
  Que ele a beijasse?
  Angie rolou na cama e cobriu a cabea com um travesseiro.
  Meu Deus, os hormnios da gravidez a estavam deixando maluca. Por que um bilionrio como Dominic Pirelli tentaria beij-la? Ele, sem dvida, tinha todas as mulheres da alta sociedade de Sidney para entret-lo, se quisesse.
  Ele no passava do pai biolgico do beb que ela, por acaso, estava gerando em seu ventre, e e ela no era nada para ele.
  Menos que nada; ele havia deixado aquilo muito claro. Como, ento, ela havia sequer imaginado que ele quisera beij-la?
  Louca!
  Ela, porm, no daria mais chance paraque outros momentos de loucura como aquele acontecessem. Tinha tudo de que precisava em seus aposentos. Alegaria cansao e faria  todas as refeies noturnas por l, poupando a ambos do embarao da convivncia.
  As luzes da garagem se acenderam com um sbito estalo.
  Seu escritrio costumava ser seu refgio. Ele costumava ficar enfiado ali por horas a fio. No,  porm, naquela noite com aquele toque de fruta ainda pairando no ar e as lembranas de uma moa com brilhantes olhos azuis e lbios que ele quase havia beijado.
  Dominic passou os olhos pelo lugar que mais parecia um estacionamento que uma simples garagem. Seus seis carros prediletos brilhavam sob as luzes, prontos para entrar em ao, e seu olhar se demorou sobre a Ferrari vermelha. J fazia muito tempo que ele no tirava aquele bijuzinho para dar uma volta e naquele exato momento, aquilo lhe pareceu mais propcio do que nunca. 
  Mas ele no estava l para admirar a sua coleo de carros, e sim, para procurar algo muito importante em sua oficina. J fazia anos que ele no mexia em nada daquilo, mas  tinha certeza de que estava ali, em algum lugar.
  Ele passou cerca de uma hora procurando, mas localizou, finalmente, o que havia vindo reencontrar. Ele desentolou o pano velho sobre a mesa de trabalho, revelar o tesouro que ele continha. As ferramentas de seu Poppa, goivas e cinzis que seu av usava para esculpir os pequenos pssaros e animais que adornavam a sua casa e os crucifixos e as madonas de olhos benevolentes que ele havia vendido para fazer algum dinheiro.
  As ferramentas de pareciam mais escuras do que ele as tinha na lembrana, desgastadas pelo tempo e pelo abandono, embora as lminas ainda parecessem afiadas. Bastou olhar para elas para ele voltar no tempo, at uma outra poca em sua vida. Ele tomou uma goiva na palma de sua mo, surpreendendo-se ao ver como ela cabia direitinho l. As mos de se Poppa sempre lhe pareceram enormes quando comparadas s suas.
  Seus dedos se fecharam em torno da ferramenta, e ele colocou a luva gasta na outra mo.
  Depois baixou a cabea e fechou os olhos, tomado de assalto pelas lembranas poderosas, aterradoras. Ele se lembrou de quando se sentava no joelho de seu Poppa enquanto as grandes mos dele guiavam as suas, mostrando-lhe como trabalhar com a goiva, entalhar a madeira, e ento fazer os detalhes com diferentes cinzis. Ele havia lhe mostrado como lixar a superfcie at ela ficar escorregadia.
  Ele envolvera a pea numa l de algodo e embrulhado-a num papel de presente usado. Nonna encontrara uma fita vermelha para amarr-lo e ele a deu de presente para a sua me de aniversrio.
  Aquele fora o melhor presente que ela j recebera, dissera-lhe sua me. O corao de seu Poppa ficou inchado de orgulho.
  Quando foi que ele havia esquecido de como fazer coisas? 
   Exatamente na poca em que aprendera o quanto era importante ter dinheiro.
  Quando aprendera que sem dinheiro era impossvel salvar as pessoas que se amava.
  Mas ele no havia salvado Carla.
  Zangado, ele remexeu na caixa que os pedreiros haviam deixado para trs depois de terminar o gazebo junto  piscina e encontrou um pedao de madeira com cerca de 6cm de comprimento. No era madeira macia. Seu av no a aprovaria. Mas serviria para os seus propsitos. 
  Ele pegou a goiva em uma das mos e a madeira na outra e comeou a talh-la.
  A ferramenta escorregou da sua mo, quase arrancando a ponta do seu dedo. Ele soltou um palavro, mas ouviu a voz de seu Poppa em seu ouvido, aconselhando-o e imaginou a sua mo velha e gasta guiando a dele. 
  Dominic respirou fundo e tentou mais uma vez. 
  Depois se recostou na cadeira, suando como se tivesse acabado de correr 10km ao longo da praia. 
  Ele olhou no relgio e descobriu, atnito, que j haviam se passado duas horas desde que ele tinha comeado a retirar camadas daquele bloco de madeira, totalmente focado em procurar o objeto que se escondia dentro dele. Tinha sido bom pegar nas ferramentas, sentir o seu poder, seu potencial.
  Ele olhou criticamente para a pea em suas mos, virando-a de um lado e de outro, antes de voltar a guard-la na caixa em que a encontrara.
  Aquilo era uma bobagem!
  Angie baixou o livro. Estava entediada. Nem mesmo aquilo estava conseguindo manter o seu interesse. Um ms sem fazer outra coisa seno comer, dormir ou dar braadas na piscina e ela j estava bem menos entusiasmada com suas frias de seis meses de durao. Nem mesmo o fato de estar se sentindo melhor e menos enjoada a consolava.
  Pelo menos vomitar durante metade do dia lhe proporcionava um pouco mais de ao.
  Inspirada, tanto pelos insultos de Dominic a respeito de suas roupas, quanto pelo triste estado daquelas que lhe haviam sido entregues junto com os seus pertences, ela pediu que Rosa perguntasse a Antonia se ela aceitaria acompanh-la s compras.
  Antonia acabou provando ser a pessoa certa para aquele tipo de trabalho. Angie vetara apenas os vestidos de baile. Pelo ritmo que sua barriga estava crescendo, eles no iam servir mais nela nem mesmo 10 minutos depois das compras. Alm do mais, ela no tinha onde us-los. Ainda assim, conseguiu voltar para casa com um guarda-roupa todo novo, acrescido de alguns pares de sapato, com uma noo mais clara de que 20 mil dlares no era, afinal, tanto dinheiro assim quando se morava daquele lado da cidade.      
  Angie adorou o modo como os seus vestidinhos de vero fizeram com que ela se sentisse: feminina e bonita. 
  Adorou as calas de corte reto, as blusinhas e as sandlias que havia comprado para combinar com tudo isso. Adorou as saias rodadas florais que se moviam ao sabor da brisa quando ela caminhava.
  Adorou todo o seu novo visual, mesmo com sua cintura engrossando e o seu corpo mudando. Estava ganhando peso e se achando mais bonita e, insanamente, queria que Dominic o percebesse, que notasse que ela nem sempre parecia um trapo. Mas ele passava o tempo todo que estava em casa enfiado em seu escritrio ou na garagem, l embaixo. Por mais que ela adorasse Rosa, seria bom conversar com outro adulto de vez em quando tambm.
  Ela suspirou. J havia ido s compras, dado um mergulho e relaxado, mas nada satisfizera. Precisava fazer alguma coisa.
  Decidiu ir at a cozinha e comeou a remexer desajeitadamente nas panelas at Rosa se compadecer dela e pedir que ela fosse comprar leite. Angie voltou do supermercado local, poucos minutos, com um formulrio nas mos.
   O que voc est fazendo?  perguntou ela a Rosa.
  - Tortellini. De espinafre e ricota dessa vez. Da ltima vez eu os fiz de frango e cogumelo, lembra?
  - Claro! Eu adorei. J estou at engordando com toda essa comida que voc faz para mim.
  A velha senhora fez um meneio de cabea em sinal de aprovao. 	
  - Esta  exatamente a minha inteno.
  Angie observou os dedos geis dela voarem por alguns instantes.
   Como eu gostaria de saber cozinhar.
  Rosa se deteve.
   E quem disse que voc no sabe?
  - Sou um caso perdido. Nunca aprendi a cozinhar e Shayne, meu "ex", odiava qualquer coisa mais requintada, de modo  que eu desisti de tentar.
  - Eu poderia lhe ensinar, se voc quiser.
  - Voc faria isso?
  -  claro! Vamos comear agora mesmo. Observe... 
  Dominic ouviu a gargalhada bem antes de descobrir de onde ela vinha.
  O bom-senso lhe dissera para dar meia-volta e seguir para o deu escritrio ou para a oficina onde ele vinha passando muitas de suas noites ultimamente, mas aquele som foi mais forte. H quanto tempo ele no ouvia urna gargalhada naquela casa? Muito menos de Angelina.
  O que podia haver de to engraado?
  Eles as encontrou na cozinha, to absortas em sua tarefa que nem perceberam quando ele entrou. Rosa estava mostrando algo a Angelina que, com as mos repletas de amido de milho, um dos aventais de Rosa amarrado em sua cintura e uma pilha de desastres ao seu lado, tentava copi-la, concentrada, mordiscando o lbio inferior, at exclamar um tcharan!" triunfante e erguer o grande feito em sua palma. 
  Os olhos deles se cruzaram atravs da cozinha, e congelaram. Rosa parou de bater palmas e sorriu.
   Dominic, voc chegou cedo hoje.
   Vim pegar algumas coisas para uma viagem a Singapura. -  Ele olhou alternadamente para ambas. - O que vocs esto fazendo?
  Angelina est me ajudando a fazer tortellini. Vai ter tempo de comer antes de viajar? Posso preparar alguns, se quiser.
  Ele fez um meneio de cabea em agradecimento a Rosa, olhou mais uma vez para a mulher felizmente muda ao lado dela e saiu, puxando a sua gravata. Ele no a havia visto desde aquela noite, no escritrio. Tinha mantido distncia de Angie e ela, por sua vez, permanecera longe de suas vistas.
  No havia razo para eles ficarem esbarrando um no outro numa casa daquele tamanho.
   Dominic?
  Ele se virou. Angelina parecia envergonhada. 
  Quer dizer, sr. Pirelli.
   Pode em chamar de Dominic. Afinal,  o meu nome.
  Os lbios dela estavam rosados, suas bochechas vermelhas, com exceo das partes salpicadas de amido de milho. Ele teve que se conter para no estender a mo e limpar o seu rosto.
   Tem certeza?
    claro que tenho certeza. Eu tambm vou parar de cham-la de sra. Cameron e passar a trat-la de Angelina. Suponho que Cameron seja o sobrenome de Shayne, no ?
  Ela assentiu, mordiscando novamente o lbio inferior.
   Voc no precisa mais dele. E agora, se no tiver mais nada a dizer, eu vou me retirar.
   Senhor Pirelli... Dominic. Eu gostaria de saber se pode me fazer um favor.
  Ele olhou desconfiado para ela, notando pela primeira vez que ela no estava usando um jeans, mas sim uma saia por trs daquele avental. Belos tornozelos, notou ele, antes de perguntar:
   Que tipo de favor?
  - Gostaria de saber se poderia me dar uma referncia. 
  - Como assim?
  - Eu vi uma oferta de emprego no supermercado. Poderia usar meus antigos contatos, mas achei que seria bem melhor se a indicao viesse da sua parte.
  Dominic virou de costas.
  - Nada de referncias.
  Ela o deteve com uma mo em seu brao.
  - Oh, mas...
  Ele olhou na direo dos dedos brancos dela, perguntando-se como algum com uma aparncia to fria podia ser to quente.
  - Voc no precisa de um emprego. Eu j no lhe dou dinheiro suficiente? 
  - Isso no tem nada a ver com o dinheiro. 
  - timo. Ento estamos de acordo.
  - No! Eu preciso me manter ocupada. Estou entediada, Dominic. No h nada para se fazer aqui a no ser me refestelar na piscina e ler livros e revistas o dia todo. Eu preciso fazer alguma coisa.
  Dominic no tinha certeza de ter ouvido bem. Uma mulher reclamando por no ter nada o que fazer a no ser ir  piscina ou s compras? Carla jamais reclamara por no ter um emprego. Jamais reclamara por no ter o que fazer.
  - Voc no parecia nem um pouco entediada quando eu entrei na cozinha.
  - Rosa ficou com pena de mim, mas ela logo se enjoar disso. Se eu tivesse um emprego no supermercado... 
  - No.
  - Fica logo ali na esquina...
  - Isso est fora de questo.
 S alguns poucos turnos por semana... 
   Voc ficou surda? Eu j disse que no! Ela bateu p.
   E o que  que o dono dessa casa, todo poderoso que eu faa aqui o dia inteiro?
  Dominic deu de ombros, meio sorrindo para si mesmo.  Ser que Angie tinha ideia do quanto ficava atraente assim, zangada?
   Por que no decora o quarto do beb, se quer tanto se manter ocupada?
   O quarto do beb?
   Eu vou precisar instal-lo em algum lugar depois que ele nascer.
   Mas eu no... Isso no ... Dominic, no sou eu quem deve organizar a decorao do quarto do beb, afinal ele no  meu filho.
  Ele olhou para ela sem expresso alguma, ressentido pela falta de envolvimento dela com a criana que trazia em seu ventre. Ser que no havia nem um pouquinho de instinto maternal naquela mulher?
   Voc queria um trabalho. Pois eu estou lhe dando um.
  Estava muito quente em Singapura e as negociaes relativas  venda de um complexo de lojas e escritrios extenuantes. Os compradores, porm, haviam fechado negcio antes do tempo previsto e Dominic havia conseguido voltar mais cedo para Sidney. Tudo o que queria agora era tomar um bom banho, abrir uma cerveja gelada e ter uma chance de ler o artigo que a passageira ao seu lado havia deixado em seu assento.
  Ele estacionou do lado de fora da garagem. Guardaria o carro mais tarde quando fosse at a oficina, depois do jantar. Aquilo o relaxava, apesar de frustr-lo. Ele ainda no sabia o que estava fazendo, mas sentia que estava melhorando. Ou talvez simplesmente precisasse daquela vlvula de escape.
  Um som chamou a ateno dele. Havia algum na piscina? Curioso, ele foi at l, investigar.
  Angelina estava submersa na gua, a meio caminho do fundo da piscina, com suas pernas longas.
  Algumas braadas mais debaixo d'gua e ela chegou at a borda, subindo at a superfcie para retomar o flego. Nada mau, reconheceu ele, sabendo do esforo necessrio para atravessar aquela piscina debaixo d'gua num flego s.
  E ento ela saiu da piscina e foi ele quem perdeu o flego. Ela era longilnea e brilhava, com o corpo todo molhado. A parte de cima do biquni cobria os seus seios com dificuldade e os seus braos, agora delgados, porm no mais magrelos, pareciam bem torneados.
  Ela havia ganhado peso, percebeu ele aprovadoramente. Notou, ento, a sua barriga, levemente arredondada, e sentiu uma espcie de orgulho masculino ancestral.
  Era o seu filho que estava crescendo ali, inchando o corpo daquela mulher e deixando-a exuberante, como uma fruta madura pendendo do p. Ela virou o rosto na direo do sol e torceu os cabelos, erguendo os seus seios inchados e enfatizando as longas e fluidas linhas do seu corpo.
  Como ela estava sexy com o beb dele em sua barriga. 
  Dominic foi tomado de um desejo to repentino e aterrador que teve memso que se conter para no cruzar a distncia que os separava e a agarrar para se enterrar naquelas longas e brilhantes profundezas.
  Profundamente abalado, ele entrou em casa.
  O que estava acontecendo com ele? H quanto tempo j no fazia sexo? Evidentemente tempo demais, j que estava fantasiando com a sra. Cameron.
  Rosa o encontrou l dentro.
   Bem-vindo, Dominic. Suponho que tenha ido tudo bem. Precisa de alguma coisa?
   Um banho  disse ele, incapaz de encarar Rosa, com medo que as imagens que ele havia visto ainda estivessem ardendo em seus olhos,  vista de todos.
  Um banho frio e demorado.

  CAPTULO OITO
  DOMINIC HAVIA chegado apenas  pgina 2 de Criando um lao com o seu beb, mas no precisou ir at o fim para saber que estava fazendo tudo errado.
  Era importante, diziam os especialistas, que se comeasse a criar um vnculo com o beb antes mesmo de ele nascer. As mulheres tinham uma vantagem sobre os homens, segundo o artigo, por desenvolverem aquele vnculo naturalmente com o beb ao longo dos nove meses de gravidez. Os homens tinham que fazer mais esforo.
  Ele passou a mo no queixo. No estava fazendo esforo algum. Havia feito tudo o que podia, no ltimo ms, para evitar qualquer contato com a mulher que trazia o seu filho na barriga.
  S que Angelina no estaria mais por perto depois que o beb nascesse. Ela nem mesmo queria aquele beb. Era a ltima pessoa que estava criando vnculos ou fazendo conexes com ele.
  Estava to desligada daquela criana que nem mesmo quisera se envolver com a organizao de seu quarto!
  Ele no tinha alternativa. Teria que se envolver mais em todo o processo e poderia muito bem comear com o quarto do beb.
   Voc fez uma lista?  perguntou ele, ao conduzir o carro pela autoestrada.
   Sim e bem longa, mas ele no vai precisar de tudo agora. Algumas coisas podem esperar.
   Prefiro comprar tudo agora  disse ele.  Rosa vai estar ocupada demais com o beb depois.
  -  Rosa vai cuidar do beb? E ela sabe disso?
  - A ideia foi dela. Voc v algum problema nisso?
  Ela tentou conter as suas objees. Aquilo no era da sua conta. Mas mesmo assim...
  Voc sabe que Rosa faria qualquer coisa por voc, mas ela j tem muitos afazeres. Como espera que ela d conta de arrumar a casa, cozinhar e ainda cuidar do beb?
   Achei que estava feliz em ir embora. Por que se preocupa com o que vai acontecer depois que partir?
   Eu no me importo  bufou ela, cansada do rumo que aquela conversa estava tomando.  Faa o que bem entender.
   Ela tentou dizer a si mesma que no se importava. Puxou o cinto de segurana, tentando desfazer parte de sua tenso, a fim de se afastar do sol e acariciou a sua barriga preguiosamente com a outra mo. Estava ficando cada vez mais consciente do beb que crescia ali dentro e do que ele gostava ou no.
  As mudanas em seu corpo eram inmeras. Todo dia ela parecia notar algo novo, uma leve mudana em sua forma ou mesmo suas roupas ficando apertadas  medida que a sua barriga crescia e sua cintura engrossava.
  - Quem cuidaria desse beb se ele fosse seu?
  Ela virou a cabea na direo dele.
  - Eu,  claro.
  - Mas voc nunca quis um beb. Foi o que me disse. E da?
  - Isso  mesmo relevante?
  Dominic deu de ombros, olhou no retrovisor e mudou de marcha.
  - Por que se casou com ele?
  - Por acaso eu deixei de ler alguma clusula do nosso acordo onde lhe concedia o direito de saber dos meus mais profundos segredos e dos erros mais estpidos que eu cometi? 
  Ele lhe lanou um sorriso que transformou os ossos de Angie em geleia e fez com que ela agradecesse aos cus por estar sentada. Dominic nunca havia sorrido para ela antes.
   Clusula 24, artigo C. Voc deve ter pulado.
   timo  disse ela, ainda abalada por aquele sorriso devastador. - Nesse caso, a culpa  da minha me.
   Est culpando a sua me por ter se casado com Shayne?
  - De certa maneira. Ns no estvamos envolvidos h muito tempo quando soubemos que ela estava doente. Ele era bom para mim na poca  para ns  e minha me queria me ver casada antes de morrer. Queria que eu casasse de vu e grinalda como ela nunca pudera fazer. Shayne pareceu entusiasmado com a ideia. - Ela deu de ombros.  Era o mnimo que ele podia fazer, naquelas circunstncias. Tudo correu bem, por algum tempo.  Ela desviou o rosto. - Voc j conhece o resto da histria.
  Angie fechou os olhos com fora, querendo se esconder antes do surgimento da dor e das lgrimas, mas surpreendentemente, nem uma nem outra deu sinal de vida. Ela soltou um longo e lento suspiro de alvio. Talvez j no estivesse mais sentindo pena de si mesma. No fazia diferena, pois, a julgar pela falta de resposta da parte dele, no havia mais ningum interessado naquele assunto.
   J dormiu?
   No. Como foi que a sua me morreu?
  Ela virou a cabea, querendo escapar da pergunta. Onde ficava a tal loja de artigos infantis, afinal? E por que ele estava insistindo para que ela fizesse aquilo? Angie no queria comprar coisas para um beb que jamais conheceria. No queria deitar em sua cama,  noite e imaginar que ele estava deitado num bercinho, e usando as roupinhas, ambos escolhidos por ela.
  Ser que ele no compreendia que aquilo ia dificultar ainda mais as coisas para ela?
  O que ele estava fazendo ali, afinal? No havia demonstrado nenhum interesse no beb at agora, alm de exigir a sua paternidade.
  Ele a evitara durante todo o ms e agora queria ir s compras?
  A menos que no queira me contar  disse ele.
  Angie recostou a cabea no assento e fechou os olhos.
   Cncer de mama  disse ela, finalmente.  Quando ela o descobriu...  Ela apertou os olhos com mais fora, mas daquela vez no teve como conter a dor ou as lgrimas ao se lembrar daquela cena, no restaurante, que todos supuseram se tratar de uma celebrao.
  Pg.115
   Mame nos convidou a todos para um almoo de Natal. Havia ganhado algum dinheiro na loteria e queria compartilhar o prmio conosco, Shayne e eu, os pais dele, e at as irms dele e seus respectivos maridos.  Ela se deteve. - Ns nunca havamos tido uma refeio de Natal antes. Foi muito emocionante comer num restaurante de verdade. Foi o melhor Natal que j tivemos.
  Ela respirou fundo. Devia ter notado o quo cansada sua me parecia, apesar de ela sorrir e rir to valentemente. Devia ter notado as olheiras sob os seus olhos e o quo pouco ela havia comido.
  Minha me fez daquele, um Natal muito especial para todos ns. At chegarmos em casa e ela confidenciar a mim e a Shayne a verdade. Que ela estava morrendo. Que tinha apenas algumas semanas de vida e que no havia nada a ser feito. A nica coisa que ela queria era saber que sua filha estaria amparada.
  Angie respirou fundo, rezando para ter foras para terminar. 
  Precisava faz-lo, ainda que apenas para explicar como podia ter se casado com algum que pudera decepcion-la to fundamente.
  - Ns s estvamos juntos h trs meses na poca, mas Shayne se ajoelhou e me pediu em casamento na mesma hora, em frente  minha me. O que eu podia fazer? Sabia que aquilo era uma loucura, mas como poderia negar o ltimo desejo de uma pessoa  beira da morte? Ns nos casamos um ms depois, ao lado da cama dela, no hospital.
  Ela baixou a cabea e cobriu a boca para abafar os soluos que j no podia mais conter.
  - Ns a perdemos no dia seguinte.
  A dor tornou conta dela. Pela perda que sofrera e pelo bem-intencionado, porm apressado e mal concebido casamento.
  Foi ento que ela sentiu a mo de Dominic em torno da sua, sem que dessa vez, porm, o seu toque lhe provocasse aquela corrente eltrica. Os dedos dele apertaram os dela,  acariciando as costas de sua mo com o polegar, e ela sentiu um calor e uma profunda conexo com ele. Dominic parou o carro e a puxou para junto de si. Angie ainda tentou se afastar, mas acabou cedendo quando viu que no tinha energia para lutar contra ele.
   Ela foi a razo de eu sequer ter nascido!  exclamou ela, encarando-o por trs daquela cortina de lgrimas.  O desgraado do meu pai queria que ela fizesse um aborto para fugir da responsabilidade de ter um filho. Meus avs quiseram que ela abortasse para evitar a vergonha de uma neta ilegtima. Minha me no lhes deu ouvidos. Deixou a tudo e a todos que um dia amou para trs a fim de me proteger.
  Os soluos dela abalaram o seu corpo delgado e ele a aninhou ainda mais em seu peito, surpreso com a facilidade com que ela se adequava ao seu corpo e como parecia certo abra-la daquele modo.
  Ela fez mais uma tentativa intil de se desvencilhar dele, mas Dominic no estava disposto a solt-la por nada nesse mundo.
   Eu estou molhando voc  protestou Angie, mas ele continuou agarrado a ela.
  Como poderia solt-la?
  Subitamente tudo fazia sentido. Ele nunca havia compreendido por que ela havia recusado a soluo proposta por seu marido e pela clnica.
  Ela jamais seria capaz de negar a algum a oportunidade de viver que sua prpria me lhe garantira a tanto custo.
  Ele pensou no acordo, no dinheiro que havia lhe oferecido e no modo como ela protestara contra tudo aquilo.
   Ela merecia mil vezes mais pelo que estava fazendo, mas no quisera nada em troca e ele no havia acreditado nela. 
  Ao menos no at aquele momento.
  Dominic a manteve junto a si at os soluos dela se abrandarem e sua respirao se acalmar.
  - Eu sinto muito  disse ela.  Voc no precisava ouvir tudo isso.
  - Acho que precisava sim - disse ele, roando os lbios nos cabelos dela e absorvendo o seu perfume. - Agora compreendo por que voc  uma mulher to especial.
  Angie voltou o rosto na direo dele e ele pode ver as perguntas cruzando a superfcie daqueles olhos liquefeitos. Seu rosto estava afogueado e banhado em lgrimas. Seu rmel estava borrado em ambos os olhos. Ele afastou uma mecha solta de cabelo do rosto dela, acariciou a sua bochecha e seu maxilar com a ponta dos dedos, at alcanar-lhe o queixo e inclinar o seu rosto como queria. Ela parecia to triste que ele teve vontade de beij-la at afastar aquela dor. Quis fazer com que ela soubesse que ele compreendia.
   J havia desejado beij-la antes, mas tinha contido aquele impulso, considerando-o uma aberrao. Mas aquilo no fora aberrao alguma, e sim, uma necessidade, um imperativo.
  Um imperativo que ele no estava disposto a deixar passar outra vez.
  - Voc  especial  disse Dominic, supondo que ela precisava ouvir aquilo, em parte porque era verdade, e em parte, ainda, porque queria faz-lo.  Voc  forte e linda e se me permite, muito, muito atraente.
  Sua arfada disse-lhe tudo o que ele precisava saber. Ela no acreditava naquilo, o que significava que ele teria que convenc-la.
   Acredite-me  disse ele, aproximando ainda mais os seus lbios dos dela, num sussurro praticamente compartilhado com ela e carregado de expectativa.
  Os lbios dela seguiram os dele e ele sorriu. Ela o desejava e ele queria que ela o desejasse.
  Ele sabia que aquilo estava certo, ainda quem estivesse em seu carro, no estacionamento de uma loja de artigos infantis, em meio a um dia extremamente ocupado.
  Os lbios dele pairaram sobre os dela, at que o  desejo se tornou mais urgente e a atrao que ela exercia sobre ele, irresistvel.
  Sua boca se mesclou  dela, seus dedos se enterraram em seus cabelos, e ele a sorveu corno se estivesse morrendo de sede.
  Ao notar que ela respirava com dificuldade, ele interrompeu o beijo.
  Estava respirando quase com tanta dificuldade quanto quando ela se afastou, com as mos em seu maxilar e os polegares entre os lbios dela e as suas bochechas. Os olhos azuis dela estavam brilhantes e arregalados, repletos de perguntas, deslumbramento e medo. 
  E foi o medo que ele viu neles que fez com que ele se desse conta do que havia feito.
   Sinto muito  disse Dominic, soltando-a.  Eu no devia ter feito isso.
   Est tudo bem  disse ela, secando os olhos com um leno, parecendo ainda muito chocada, embora tentasse aparentar traquilidade.  Eu sei que isso no significou nada.
  Ele saltou do carro, irritado por ela ter usado as palavras que normalmente seriam as primeiras a vir  sua mente. 
  - Significou sim - disse Dominic, abrindo-lhe a porta, pouco depois.  Significou que eu sinto muito por tudo o que voc passou, que eu sou grato pelo que est fazendo tambm por ter me contado.
  - Est tudo bem, ento - disse Angie, j recomposta, embora ainda muito cautelosa, tentando manter distncia dele ao saltar do carro.  Talvez seja melhor simplesmente esquecermos o que aconteceu.
  Esquecer o doce sabor dos lbios dela sob os seus? O modo como ela parecia caber perfeitamente em seus braos? 
  Como ele poderia fazer uma coisa dessas?
  As compras ajudariam. S que no se tratava de simples compras, concluiu ele, mas de um pesadelo.
  Como algo to minsculo como um beba podia precisar de tanta coisa?
  - H algum jeito de fazermos isso rapidamente?  perguntou ele.
   Angie ainda parecia muito abalada.
  - Podemos perguntar se eles tem algum tipo de consultoria.
  A ideia o agradou imensamente.
  Dominic cortou caminho por entre a multido de casais e foi falar com a mulher do caixa.
  - Em que posso ajud-lo?  perguntou ela, com os olhos brilhando e sem flego, vida por agrad-lo.
  Preciso de sua ajuda  disse Dominic naquela voz ultragrave. A expresso da mulher deixava evidente que ele poderia ter o que bem entendesse dela.  Eu no tenho a menor ideia do que preciso comprar para o meu filho que vai nascer, nem tempo para tudo isso. Vocs fornecem algum tipo de consultoria?
  Angie quase teve pena da mulher. Ela estava quase hiper ventilando enquanto conversava com ele.
  Ele no  to especial assim, pensou ela, e ento olhou para os outros homens na loja. Havia muitos com uma aparncia normal, outros poucos ainda melhores, e ento, ela era obrigada a admitir, havia Dominic.
   Eu posso ajudar	disse ela, chamando uma assistente para assumir o caixa.
  Angie sorriu meio sem graa para as outras pessoas da fila. Por mais estranho que parecesse, apenas os homens pareciam ressentidos. As mulheres pareciam apenas vidas ao olhar na direo dele, e evidentemente invejosas, ao olhar para ela.
  Ficariam ainda mais se soubessem o que eles haviam acabado de fazer no carro. Ela estremeceu ao lembrar de como eu ele a havia aninhado junto a si, confortando-a, e de como tudo havia rapidamente se transformado em outra coisa. Os lbios dele haviam sido surpreendentemente gentis e seu sabor viciante. Ela no tivera como det-lo.
  Que tola ela fora... Ele a havia beijado apenas porque tivera pena dela, e ela retribura estupidamente como se tudo aquilo fosse de verdade.
  Deus, como ela era idiota!
  Ele a considerava o coco do cavalo do bandido, vinda dos subrbios de Sidney, enquanto ele era um bilionrio com uma manso  beira-mar.
  Ele havia visto os lbios dele se curvarem quando eles se conheceram. Lembrava da expresso estampada no rosto dele ao entrar na sua casa. Sabia que no pertencia ao mundo dele e que s havia um motivo para ela estar ali, que no era o de ser beijada por ele ou beij-lo, nem imaginar que aquele era algum tipo de conto de fadas que teria um final feliz.
  A consultora lhes mostrou o caminho, com uma prancheta no brao e uma lista quase duas vezes maior que a dela prpria.
  -  o seu primeiro filho?  perguntou ela, mas Angie teve certeza de que ela no estava nem um pouco interessada na resposta. Tudo o que ela queria era continuar falando e desfrutar da sensao da voz profunda de Dominic ressoando pelos seus ossos.
  - Sim  respondeu ele secamente.
  Ela suspirou ao olhar para trs.
  - Ouso dizer que ser um lindo beb, se puxar a vocs dois.
  Dominic fechou a cara e Angie se contorceu. A mulher tinha razo, o beb seria realmente lindo, mas no por causa dela.
  Eles passaram a hora seguinte perdidos em meio a mostrurios e esquemas de cores. Angie se forou a encarar aquilo como um trabalho, corno o prprio Dominic o chamara. Tinha que pensar naquilo de maneira funcional e no como os preparativos para o quarto do beb que estava crescendo dentro dela. O beb que ela nem chegaria a conhecer...
  Aquilo, porm, estava ficando cada vez mais difcil. 
  Ela olhou para aquela loja enorme com todas aquelas pessoas fazendo compras para os seus respectivos bebs e sentiu inveja deles. Tinha imaginado que seria mais fcil entregar o beb. Nunca se dera conta de que aquele estranho que crescia dentro dela seria to interessante, nem que exigiria tanto de sua ateno. Nunca se dera conta de que teria a sensao de que ele realmente fazia parte dela.
  Que ele era seu...
  Ela se permitiu imaginar, apenas por um momento, como as coisas seriam diferentes se aquele beb fosse realmente seu e ela estivesse fazendo compras ao lado do homem mais devastadoramente bonito de toda a loja, de toda Sidney, para o filho de ambos.
  Ela balanou a cabea para afastar aqueles pensamentos. A realidade era dura e fria e a encarava toda vez que ela se lembrava de como ele a havia tratado por causa de quem ela era e de onde tinha vindo.
  No havia lugar para fantasias romnticas naquela situao. Ela no passava de um meio para Dominic alcanar o seu fim. Uma barriga de aluguel. Uma inconvenincia temporria.
   O que acha desse?  perguntou Dominic, interrompendo os seus pensamentos com uma fotografia de um quarto vivamente colorido e temtico, repleto de bugigangas e uma cama vermelha em forma de uma Ferrari.
    s um beb, Dominic. Pode at no gostar de carros, Pode at ser uma menina.
  Ele a olhou como se ela tivesse enlouquecido. 
    claro que  um menino.
  Ele falou to srio que ela teve que rir. Finalmente, depois de passar por dezenas de opes, eles escolheram as cores do quarto. Paredes num tom de azul com uma faixa de bichinhos, terminando com nuvens brancas. Os mveis eram igualmente brancos, com acessrios que serviriam para os dois sexos. Eles ainda tempo de sobra para acrescentar toques de cor ao lugar depois que o beb nascesse.
  Dominic estava feliz da vida. Se aquilo no fosse estabelecer um vnculo com o seu beb, ele no sabia o que era. A consultora lhe chamou a ateno para um fraldrio que se transformava em banheira, garantindo-lhe que aquilo era o epitome da eficincia, e com eficincia ele sabia lidar. Ao procurar por Angelina, para lhe mostrar o artigo, porm, ele no a encontrou.
  Onde ela estava? Corno ele podia ter se perdido dela? Foi ento que ele a viu na seo de roupas, a poucos metros de distncia.
  Aquela roupinha minscula parecia ter sido feita para uma boneca. Mais macio que o veludo, o tecido branco parecia um beijo de borboleta sobre a sua pele.
  Angie sorriu. O beb certamente teria as cores de seus pais, cabelo preto e pele morena.
  Menino ou menina, seu beb ficaria lindo de branco. 
  No que ela jamais viesse a ver aquilo.
  A ideia a dilacerou por dentro, fazendo com que ela pendurasse a roupa de volta na arara. No fazia sentido ficar escolhendo roupinhas para aquele beb, nem pensar em sua aparncia. Ela secou uma lgrima. No deveria ter permitido que ele a convencesse a fazer aquilo.
   Encontrou alguma coisa?
   No  disse ela, fungando para conter as lgrimas e se afastando dele.  Estava s dando uma olhada.
  - Voc est bem?  perguntou ele, para ento olhar o relgio.  Meu Deus, ns estamos aqui h horas. Voc deve estar exausta.
  A consultora pareceu preocupada.
   Eu posso mandar entregar as suas compras em casa em uma semana, se vocs quiserem.
  Aquilo era exatamente o que Dominic queria ouvir.
  Voltem quando o beb tiver nascido  disse a consultante depois de ter pegado os dados do carto de crdito dele.  Ns adoramos rever as famlias felizes.
  Ele ainda estava com uma cara feia devido quele ltimo comentrio quando abriu a porta do carro para ela. 
   O que voc esperava que ela pensasse?  disse Angie, aliviada por ter chegado ao fim daquela jornada.   claro que eles acham que ns formamos um casal. 
  Dominic no disse coisa alguma. Apenas deu a partida e ligou o ar-condicionado.
  Mas ela estava certa a respeito de uma coisa. 
  Dessa vez ela havia conseguido chamar a sua ateno. 
   Do que voc est falando?
   Vai ser um lindo beb. Cada era linda, Dominic.  to injusto que no esteja viva para conhecer o prprio filho... 
  Domine no respondeu e ela tambm se calou. Ele j deveria estar arrependido daquele e beijo e ela ainda mencionava a sua falecida esposa. Ser que ele estava com a sensao de ter trado Carla por ter beijado a mulher que estava esperando o seu filho? Ser que ele desejava que fosse Carla, ali sentada, ao seu lado, e no ela?
   claro que sim.
  E agora ele estava preso a ela. Mas pelo menos era apenas por alguns poucos meses. Depois ele ficaria com o filho de Carla e ela se veria livre dos hormnios da gravidez e de todos aqueles pensamentos e fantasias tresloucadas que no tinham lugar na realidade.
  Ela mal podia esperar que aquilo acontecesse.
  Dominic, porm, no foi direto para casa como ela havia esperado.
  - Para onde est indo?  perguntou ela.
  - Achei que gostaria de dar uma volta.
  Ela deu de ombros, surpresa. No tinha motivo algum para voltar logo para casa, mas achara que depois daquele beijo, ele ia querer se livrar dela o mais rpido possvel. Na certa, j havia at se esquecido daquilo.
  - Claro.
  Ele acionou um boto e baixou o cap do carro, tomando o caminho da cidade.
  Ele parecia saber onde estava indo, de modo que ela achou melhor no aborrec-lo com perguntas, desfrutando simplesmente da sensao de estar no banco do carona enquanto ele trafegava pela cidade. Viu os olhares de inveja vindos dos outros veculos, os homens ansiando pelo seu carro, e as mulheres, por Dominic.
  Ele no era dela. Um beijo no lhe garantia propriedade alguma sobre ele, especialmente um beijo dado por pena, e trazer o filho dele em sua barriga no o tornava dela, mas era ela que estava sentada ali, naquele momento, desfrutando daquela situao. Tudo, porm, mudaria completamente depois que aquele beb nascesse.
  Sua vida anterior j lhe parecia um tanto estranha. A pequena casa que ela ainda no sabia se conseguiria manter, as ruas empoeiradas e o calor abrasador. Ela ia sentir falta do cheiro limpo do mar e de ver o sol surgindo em sua janela quando a noite se transformava em dia.
  Mas ela teria que voltar. Havia assinado um acordo para tanto e jurado que iria embora assim que o beb nascesse.
  Ela no queria ficar. Assim como nunca quisera ter um filho...
  O vento soprou sobre as suas cabeas, brincando com as pontas dos cabelos dela. Aquilo no era verdade. Ela o desejara, pensara que se fosse capaz de dar a Shayne o filho que ele tanto queria, seu casamento finalmente se transformaria naquilo pelo que sua me tanto ansiara para ela, o que sua me nunca tivera.
  E por um momento, apenas, por algumas poucas semanas, ela chegou a imaginar que seus sonhos haviam sido realizados. No sabia, ento, que seu casamento j tinha terminado h muito tempo.
  Foi ento que eles descobriram a verdade e o alvio a tomou de assalto. Um enorme alvio. Ela no estava esperando o filho de Shayne. Era o filho de Shayne que ela no queria.
  Mas ser que poderia querer aquele?
  No. Ela nunca havia desejado aquela criana. Nunca, e enquanto continuasse dizendo aquilo a si mesma, tudo ficaria bem.
  Dominic notou os olhares dos homens ao seu redor, invejando a mulher que ele tinha ao seu lado, com seus cabelos danando ao sabor da brisa e no pode culp-los. Ela estava muito diferente da primeira vez em que ele a havia visto.
  Tinha ganhado peso nos lugares certos, suas bochechas estavam mais cheias e seu rosto havia adquirido um equilbrio maior. Seus longos membros estavam tonificados devido  natao e sua pele tinha um tom de mel dourado devido ao sol. Como ele havia podido pensar que ela era anorxica?
  Ele a havia julgado muito mal. Ela no era o que ele havia imaginado. Era... muito melhor. 
  Pelo menos poderia ser. Ele se lembrou relutncia dela em fazer compras para o beb e de como ela ficara irritada na loja, como se mal pudesse esperar para ir embora de l.
  E nada daquilo fazia sentido porque ele tambm se lembrava de quando ela estava em seus braos, quente e feminina, entrando em seu sistema nervoso como uma droga...
  Domininic no gostava nada de coisas que no faziam sentido. Perguntando-se o que estava fazendo ali, afinal, ele estacionou o carro numa vaga recm liberada.
  - Chegamos  anunciou ele, levantando o cap.  Bem-vinda a Coogee Beach. Est com disposio para caminhar um pouco?	
  Ele assentiu, desfrutando daquela rara chance de passear os pensamentos conflitantes em sua mente. Eles caminharam pelo parque, entre a praia apinhada de nadadores e a gente fazendo piquenique e churrasco, deixando um aroma delicioso no ar. Depois pararam para tomar um sorvete, antes de seguir lentamente pelo caminho do penhasco e se detiveram para apreciar a vista.
  - Minha me costumava me trazer aqui  disse ele, olhando para o horizonte  quando eu ainda era criana. 
  - Ela viu a expresso tensa no rosto dele e percebeu o quanto estava lhe custando dizer aquilo.  Minha Nonna e meu Poppa, meus avs, vinham tambm. Ns faziamos piqueniques na praia e depois caminhvamos por aqui pensando em como seria morar to perto do mar. 
  E agora ele morava. Suas vidas haviam sido muito diferentes, pensou ela.
  Eles admiraram o mar silenciosamente, olhando as ondas baterem nas pedras logo abaixo. 
  Eu fiquei arrasado quando os meus avs morreram disse Dominic.  Ns no tnhamos muita coisa, mas ramos uma famlia. Tnhamos um ao outro. At que um trem bateu no nibus em que eles estavam. Eles deveriam ter sobrevivido. Eu achava, do fundo do corao, que meu amor por eles deveria ter sido suficiente para salv-los. Se eles pudessem ter comprado um carro... 
  Angie o ouviu em silncio, compadecida pela dor contida em suas palavras, lutando contra a vontade de estender a mo e confort-lo.
   Eu levei muito tempo para compreender que o amor no era nem de longe suficiente; que era preciso ter dinheiro caso se quisesse salvar e proteger os entes queridos.  Seus olhos estavam to negros, sombrios e sem vida quanto uma floresta devastada pelo fogo.  A sua me morreu de cncer  prosseguiu ele.  A minha tambm. Um tumor no crebro que sugou a sua vida. Como no tnhamos dinheiro para pagar por um tratamento particular, tivemos que esperar por meses na fila at ela poder fazer os exames. Meses at ver um especialista, e quando finalmente pudemos faz-lo, j era tarde, no havia mais nada a ser feito. Foi ento eu aprendi que s o dinheiro pode lhe dar o que voc quer quando voc realmente precisa.
  A voz dele sumiu por um momento, carregada pelo vento e pelas ondas.
  - Mas eu no pude salvar Carla  retomou ele, com a voz rouca e densa de angstia, e o olhar fixo no mar.  Nem lodo o dinheiro do mundo, mdicos e hospitais particulares puderam salv-la.  Ele respirou fundo.  Quando voc chegou, foi como se o destino estivesse rindo de mim, fazendo com que eu me lembrasse do quanto era impotente. Eu a odiei por isso, odiei o que voc representava, odiei a sua fragilidade e o fato de estar esperando um filho meu.
  Angie mal conseguia respirar devido ao aperto em seu corao.
  Mas eu estava errado. Voc no se parece em nada com Carla. Achei que precisava lhe dizer disso. Eu estava errado e sinto muito por isso.
  Dominic baixou a cabea, respirou fundo e finalmente se voltou para ela, sem expresso alguma em seu rosto. 
  - Vamos para casa.
  Ele parecia to arrasado que ela no ousou fazer as perguntas que se agitavam em sua mente a respeito da morte de Carla. No podia fazer com que ele passasse pela angstia de escavar ainda mais fundo naquele passado obviamente doloroso. No trajeto de volta, porm, Angie se ps a digerir tudo o que ele havia lhe dito, sem compreender por que ele havia se sentido impelido a lhe dizer aquelas coisas, embora soubesse que aquilo a ajudaria muito a compreender aquele homem.
  A temperatura esfriou quando as nuvens encobriram o sol, mas nem mesmo o ar mais frio foi capaz de extinguir a minscula chama que as palavras dele haviam ateado dentro dela. Ele a havia odiado, antes, como ela j sabia, mas no a odiava mais, chegando a nutrir um certo respeito por ela, 
  "Voc no se parece em nada com Carla."
  Ela ficou repassando aquelas palavras repetidas vezes em sua mente. Se no soubesse o quanto Carla era bonita e perfeita para Dominic, ela quase poderia ter imaginado que aquilo era uma coisa boa.

  CAPTULO NOVE
  CRIANDO um vnculo com o beb ou com Angelina?
  Dominic guiou at a sua casa sem saber ao certo o que o havia feito revelar tanta coisa sobre si mesmo e o seu passado a ela. Tudo o que sabia era que deveria confiar em seus instintos de vez em quando, mesmo quando sua cabea questionava a sua sanidade. Alm do mais, ele lhe devia alguma coisa pelas suposies equivocadas que fizera a seu respeito quando eles se conheceram. Angie merecia ao menos uma explicao.
  Ele voltou para casa do trabalho no dia seguinte com um pacote de baixo do brao. Encontrou Angelina e Rosa na cozinha, como j suspeitava, diante de uma pilha de cogumelos fatiados e duas panelas grandes no fogo. Aquela era uma cena da vida domstica com a qual ele ainda estava tendo dificuldade de lidar. A cozinha havia sido um dos lugares de que Carla menos gostava naquela casa.
  - Teve um bom dia?  perguntou ele, roubando uma fatia de foccacia e mergulhando-a no prato com azeite e vinagre balsmico, ao lado.
  Angie olhou para o outro lado da mesa e sorriu. 
   Rosa est me ensinando a fazer risotto. Ache eu estou comeando a pegar o jeito.
   Ela  boa  acrescentou Rosa, fazendo um floreio com a sua colher de pau.
  Dominic sorriu, com inveja da camaradagem que as duas haviam estabelecido e das risadas que brotavam to facilmente entre ambas.
  Aquela casa havia se transformado num lugar melhor e mais vivo, desde que Angelina havia chegado, especialmente nos ltimos tempos. Um intenso contraste com os dias repletos de drama e tenso que haviam sido a marca registrada de Carla.
  A prpria Angelina havia mudado. Parecia feliz hoje, com seus olhos brilhando e seu rosto iluminado.
  Ela se levantou para checar a panela e Dominic percebeu que ela estava novamente com um dos aventais de Rosa, usando apenas um short e uma camiseta de alcinhas por baixo. Ele gostou de ver suas longas pernas por trs, mas Angie se virou e ele, impedido de ver mais o que quer que fosse, ficou imaginando como ela ficaria sem nada por baixo daquele avental.
  Subitamente, as panelas no eram mais as nicas coisas que ferviam por l.
  Ele se virou,  procura de outra coisa em que focar a sua ateno, perguntando-se o que havia no pacote debaixo de seu brao, at se lembrar de seu plano e pensar que a ltima coisa de que ele precisava para conseguir lev-lo adiante era imagin-la nua. Certamente no depois daquele beijo e de ter descoberto o quanto ela era gostosa.
  Afinal, era com o beb que ele deveria construir um lao. 
  Ele pegou uma cerveja gelada, torcendo para que aquilo efetivamente o esfriasse.
  - Estarei na oficina se precisarem de mim. Ah, Angelina? - Ela ergueu os olhos, toda inocente naquele avental com o qual ele estava tendo as fantasias amsi selvagens.  Quero lhe mostrar uma coisa depois do jantar.
  Ele se sentou no banco, deixando a cerveja esquentar, entretido com as ferramentas de Poppa estendidas  sua frente. A pea era desafiadora, mas aquilo que ele procurava estava l e ele o encontraria.
  Importa-se se eu me juntar a voc?
  Ela havia desaparecido depois do jantar enquanto ele fora checar o mercado de aes, mas Dominic a encontrou no salo de baile, numa poltrona colocada junto s portas duplas, com uma pilha de livros ao seu lado e outro aberto, em seu colo.
  - O que est fazendo? E por que aqui?
  - Eu gosto desse lugar  respondeu ela, colocando um marcador entre as pginas e convidando-o a puxar uma cadeira para si.
  Dominic deu uma olhada na capa do livro que ela estava lendo, bem como nos dos outros livros da pilha e franziu a testa.
  - So todos livros sobre parto.
  - Por que ser?  brincou ela.
  - Voc realmente precisa deles?
  Ela piscou.
  - Eu vou ter um beb, Dominic, caso no tenha reparado. 
  -  claro. Mas... Voc no... Quer dizer, eu no achei que voc quisesse realmente t-lo, se  que me entende.
  Ela piscou outra vez e balanou a cabea.
   Acho que no. Eu s quero estar preparada para o que vai acontecer. 
  Ele finalmente puxou uma cadeira e se sentou, pousando o pacote que havia trazido enquanto passava a mo, pelo cabelo.
   Mas por que se envolver dessa maneira no parto? Por que passar por toda essa dor e desconforto?
   Porque  assim que as mulheres tem filhos, talvez? 
  Dominic balanou a cabea. Aquilo no fazia o menor sentido para ele.
   No prefere fazer urna cesariana?
   Voc acha que as cesarianas no causam dor, nem desconforto?
   Mas por que fazer isso consigo mesma? Carla falou em cesariana desde o primeiro dia de gravidez e se tratava de eu prprio filho. Uma cesariana planejada, um personal treiner para voltar logo  forma antiga e um cirurgio plstico para aquilo que os exerccios no dessem conta. E o beb nem  seu.
  Angie fixou o olhar no mar. No, aquele beb no era seu. Nunca fora. Porm, quanto mais o seu corpo mudava e quanto mais o tempo passava, mais ela se afeioava quela minscula vida, mais ela se flagrava desejando que as coisas fossem diferentes.
   Eu sei  disse ela em meio a um suspiro.  Por que no conversamos com os mdicos a esse respeito? Eu s no quero correr riscos desnecessrios com essa criana, independente de quem sejam os seus pais, est bem?
  Ele percebeu que ela havia ficado aborrecida, mas no fazia ideia do motivo. Achou que estava sendo atencioso, pensando no bem-estar dela. No queria que ela sofresse para ter aquela criana.
   Por que estava me procurando?
  - Eu fui a uma livraria - disse ele, tirando um livro ilustrado do pacote que havia trazido. -  Queria ler algo para o beb, a fim de que ele se acostumasse com a minha voz antes de nascer. Dizem que eles j conseguem escutam, com poucos meses de vida, e como voc vai embora, achei que eu deveria fazer alguma coisa para estabelecer um vnculo com essa criana o mais rpido possvel.
  Meu Deus, ser que ele precisava lembr-la daquilo a toda hora?
   uma boa ideia. O que voc tem a?
  Ele leu alguns dos ttulos em voz alta e Angie o deteve quando ele passou por Possum Magic, seu conto predileto, que sua me sempre lia para ela na hora de dormir.
  - Comee por esse - disse ela.
  Ele pareceu um pouco inseguro, como se estivesse achando aquilo tudo um equvoco, por isso ela olhou pela vidraa para no intimid-lo.
  Era uma vez  comeou ele, fazendo um sorriso brotar nos lbios dela.
  J adorava aquela histria na voz de sua me e a adoraria ainda mais agora, na voz grave de Dominic.
  Ela havia se enganado a respeito do senhor Dominic Pirelli, achando que ele s ligava para o dinheiro. Sabia agora, que ele poderia ser um excelente pai. Aquele beb ia adorar a hora de ir para a cama...
  Angie sentiu algo roar suavemente em sua testa.
  Ela se remexeu, perguntando-se onde estava, e por que estava se sentindo to aquecida e protegida enquanto o cho, se movia sob ela.
  Foi ento que ela compreendeu que estava nos braos de Dominic. Ele lhe sorriu.
   Parece que eu sou muito bom em contar histrias de ninar
  Meio adormecida, ela lhe sorriu de volta, tentando no pensar demais no quanto o corpo dele estava quente junte ao seu e como era bom estar em seus braos.
   Voc vai ser um pai maravilhoso.
   Voc perdeu a ltima parte da histria  disse ele, ao entrar em seus aposentos.
   Que parte?
  Ele a pousou entre as cobertas macias de sua cama e beijou a sua testa suavemente.
   Aquela em que se coloca a mame na cama.
  Eles estabeleceram urna espcie de rotina depois desse dia.
  Dominic saa cedo de manh para ir ao trabalho e Angelina caminhava ou nadava na piscina, para depois ler ou ajudar Rosa na cozinha.
  Depois do jantar, Dominic se sentava com Angelina e lia para o seu filho e Angie se deixava ninar at adormecer ao som da voz profunda dele.
  O que ela no daria para ver aquela criana ouvindo a voz de seu pai, suas minsculas plpebras se fechando pouco antes de adormecer.
  Antes, porm, que ela comeasse a lamentar tudo o que iria perder, a van da loja de artigos infantis chegou, com tudo de que ela precisava para a decorao do quarto do beb, inclusive o papel de parede e a tinta.
  Angie colocou um macaco e foi at o quarto, surpresa com a sua prpria disposio. J que ele no permitia que ela arranjasse um emprego de verdade, ela transformaria aquela tarefa num verdadeiro trabalho.
  Rosa havia providenciado para que os mveis de um quarto pequeno, ao lado da sute principal, fossem retirados. O restante ficou a cargo de Angie. Ela fez o mximo para abafar a sua preocupao como fato de aquele quarto ficar muito longe do quarto de Rosa, caso o beb chorasse, mas ela lhe lembrou calmamente dos monitores para beb que eles haviam encomendado..
  Seu trabalho era apenas conceber o quarto do beb, o que era exatamente o que ela estava fazendo.
  Angie passou dias limpando as paredes e esfregando as marcas escondidas por trs dos mveis e ento as pintou.
  A tinta antitxica para bebs funcionou muito bem. As cores eram lindas e a cada camada ela sentia estar criando algo muito especial. Aquele beb teria o quarto mais bonito do mundo.
  Quando voltava para casa,  noite, Dominic a encontrava ajudando Rosa na cozinha, assando um po ou passando a massa pela mquina de fazer fettucine.
  - Os decoradores esto demorando muito  comentara ele.
  Ela murmurou alguma coisa vaga sobre a loja ter trazido as cores erradas, mas que havia prometido corrigir o erro e terminar logo o trabalho.
  - O que ele tanto faz naquela oficina? perguntou Angie a Rosa, certa noite.
  A velha senhora deu de ombros.
  - Antes de voc chegar ele sempre se enfiava em seu escritrio. Agora passou a ir  garagem.
  Antes de ela chegar? Um tremor percorreu a sua espinhas. 
    Verdade? Que estranho.
  Rosa assentiu.
  Dominic tambm nunca se aventurou pela cozinha antes, a no ser para avisar que havia chegado em casa. - Ela lanou um olhar para Angie repleto de segundas intenes, - Ele nunca passou aqui para ver o que eu estava fazendo, ou roubar alguma coisa. O que voc acha que isso significa?
  Angie no sabia. No queria saber. No queria nem mesmo pensar no assunto.
  Mas era impossvel.
  Talvez ele s estivesse querendo se assegurar de que ela estava cuidando direitinho do seu filho.
  Ou talvez...
  Oh, no! Ela no queria chegar nem perto daquele talvez.
  Aquilo seria o mesmo que abrir a porta para o desespero e a humilhao. Ele no podia estar se sentindo atrado por ela. Era impossvel que estivesse visitando a cozinha pelo simples prazer da sua companhia. Aquele beijo havia sido um engano. Ele mesmo o dissera. E ela concordara. Aquilo nunca mais se repetiria.
  No que saber disso a impedisse de sonhar com aquilo todas as noites.
  Ela arfou diante da estranha sensao. Estava to profundamente concentrada em seus pensamentos que o movimento mnimo a pegou desprevenida.
  - O que foi?  perguntou Rosa.  Voc est bem?
  Um sorriso brotou em seus lbios ao pousar a mo sobre a sua barriga.
  - Eu senti o nenm mexer. Ele ainda deve ser muito pequeninho, mas eu o senti.
  Rosa a abraou com fora.
  - Essa  uma sensao nica. Seu beb est brincando. Espere s at ele comear a chutar!
  - Eu nunca me dei conta...  sussurrou ela, ainda tocada pela ideia de ter um beb em plena atividade dentro dela.
  Ela nunca havia se dado conta da magnitude das emoes que sentiria ao se deparar como verdadeiro milagre que estava acontecendo dentro dela.
  Nunca se dera conta de que se sentiria to ligada a um beb que no era dela. 
  Aquilo a deixou aterrorizada.
  - Eu vou para Auckland amanh  anunciou ele, algumas noites depois, enquanto Rosa servia o jantar. As instrues eram ostensivamente para os planejamentos dela, mas Angie se manteve atenta a cada palavra.  Vou passar uma semana l.
  Tanto tempo...
  Seria tempo suficiente, porm, para terminar de arrumar o quarto. 
  Ela mal podia esperar para lhe mostrar o que havia feito.
  - Simone vai comigo dessa vez.
  Rosa lanou um olhar na direo de Angie, mas ela apenas sorriu, fazendo o melhor que pode para parecer indiferente, perguntando-se de onde havia surgido aquele sbito cime.
  Simone era a sua bela e elegante assistente pessoal, enquanto Angie no passava da barriga de aluguel do filho dele.	
  Ela no tinha nenhum direito sobre Dominic.
  Ia sentir a falta dele devido ao esforo que ele estava para	se conectar com o seu beb. Sentiria a falta dele porque o seu beb certamente o sentiria tambm.
  No que ela estivesse apaixonada por ele.
  Mentirosa, disse uma voz l no fundo de sua mente.	
  Ela no podia estar apaixonada por ele. 
  V se acostumando com a ideia, prosseguiu a mesma voz. Que outro motivo voc teria para estar com cimes?
  Ela odiou aquela voz e o que ela estava lhe dizendo.	.
  Droga! Ela no queria que Dominic se casasse com algum como Simone.
  Ele tinha um beb para cuidar, um pequeno beb que precisaria de uma me, e Simone havia lhe parecido to maternal quanto uma vbora.
  Ela o ouviu dizer o seu nome. Olhou ao redor e viu dois olhos escuros seguindo o movimento do seu garfo, girando em meio ao seu spaghetti.
   Voc no est comendo.
  Ela empurrou o prato.
  No franziu a testa. com muita fome.	
  Ele franziu a testa. 
   Est doente?	
  Doente de amor. Devastada. Roxa de cimes e chocada.	
   Eu estou bem.	
  Se ele no acreditou, pelo menos no o demonstrou.
  - Quando  a sua ultra? Eu no quero perd-la.
  Ela vasculhou em seus pensamentos conturbados, tentando compreender o que ele estava dizendo, at se lembrar, por fim, da consulta para a ultra da vigsima semana. Vinte semanas j haviam se passado, o que significava que havia ainda outras vinte at o nascimento. Vinte semanas at que chegasse a hora de ir embora. To rpido. Ela balanou a cabea.
  -  s depois do dia 21, mas eu no estava esperando que voc fosse comigo.
  O olhar que ele lhe lanou foi puramente possessivo. 
  - Eu estarei l.
  Auckland foi uma chateao. Ele costumava gostar de fechar seus negcios pessoalmente, mas l estava ele, aguentando reunies que no chegavam a lugar algum, passando horas trancado em escritrios e sofrendo com longos almoos e jantares em que Simone era a nica pessoa que o entendia. A estoica Simone que havia permanecido ao seu lado o tempo todo, dizendo-lhe as coisas certas, sorrindo para as pessoas certas e rindo de todas aquelas piadas sem graa.
  Felizmente, aquela era a ltima noite. Ele s teria que comparecer a uma ltima recepo formal e poderia escapar. Estava colocando as abotoaduras em sua camisa, perguntando-se realmente precisava estar l, tentando imaginar como estavam as coisas em casa.
  Perguntando-se se perceberia alguma diferena nas formas de Angelina quando voltasse.
  Aquele nome combinava to bem com ela. Seu nome lhe parecera equivocado quando ela ainda era meramente Angie para ele, mas agora no. Ela era a Angelina das longas pernas bem torneadas, do cabelo cortado em camadas que danava em torno do seu rosto, dos lbios fartos e exuberantes e dos olhos to azuis que faziam com que ele ficasse tentado a mergulhar em suas profundezas.
  Uma imagem piscou em sua mente. Angelina de p, ao lado da piscina, com as mos em seus cabelos, sua pele dourada sob o sol e seus seios como um convite. O desejo se apoderou dele novamente, como naquele dia.
  Droga. Ele pegou o seu palet e franziu a testa, perguntando-se quando havia comeado a olhar para ela como a algo mais que uma simples barriga de aluguel. Como uma mulher. E por que agora, quando tinha aquela noite maante pela frente?
  Talvez porque voc nunca tenha tido um bom motivo para querer voltar para casa, disse uma pequena voz em sua mente. Porque no tempo de Carla...
  Ele vestiu o palet e afastou aqueles pensamentos de sua mente. Carla havia partido e ele nunca mais cometeria o mesmo erro. Nunca mais se apaixonaria por uma mulher to superficial.
  Angelina no era superficial. E estava ao seu lado, agora. 
  Angelina e o seu filho.
  No foi muito difcil concluir que sua presena no era realmente necessria ali.
  O quarto estava quase perfeito, pensou Angie, ao notar a fila de ursinhos de pelcia no cho, em vez de no alto da prateleira que havia sido construda especialmente para esse propsito. Como ela havia se esquecido deles?
  Ela enfiou um bando de ursinhos debaixo de um brao e subiu em uma cadeira.
  Estava de p, sobre ela, esticando-se para colocar os ursinhos o lugar quando ouviu uma voz tonitruante dizer: 
  - O que voc acha que est fazendo?
  Ela se virou rpido demais, assustada - ele ainda no deveria estar em casa  e perdeu o equilbrio.
  Dominic a pegou, embora esbarrar em algum to firme quanto ele, pensou ela, sem flego, fosse praticamente to duro quanto cair no cho.
  - Que ideia estpida foi essa?
  Ela recuperou o equilbrio e acalmou o seu pulso e sua respirao, apesar de ele continuar mantendo-a em seus braos.
    O que deu em voc para gritar desse jeito?
  - Voc estava em cima de urna cadeira!
  - Eu sei. E estava muito bem at voc entrar no quarto travejando.
  - Voc est bem?  perguntou ele, segurado-a pelos ombros. - O beb est bem?
  - Est tudo bem com o beb.
  Era ela quem estava achando difcil respirar. As mos grandes dele estavam quentes sobre os seus ombros. Ser que ele estava percebendo que os seus polegares estavam acariciando a pele dela, dificultando a sua respirao e despertando os bicos dos seus seios?
  Mas corno era bom rev-lo. Ela o absorveu por inteiro. Seu cabelo escuro, despenteado, seus olhos negros como a noite e o maxilar como que esculpido sob medida. Ele deu fim  sua inspeo e olhou nos olhos dela e ela quase se derreteu. 
   Bem-vindo de volta.
  Aquela simples expresso foi um blsamo para a alma de Dominic. Suas mos se moveram, lenta, mas sutilmente, enquanto ele olhava para ela, em direo ao pescoo de Angie. Ele sentiu a respirao dela acelerar, viu o pulsar de uma veia em seu pescoo e suas pupilas se dilatarem.
  Os dedos dele se enterraram no cabelo dela ao pux-la mais para perto de si, colar os seus lbios aos dela e sorver a sua doce essncia ao beij-la longa e profundamente. Bem vindo de volta.
  Aquela era definitivamente uma saudao de boas-vindas. 
  O sabor dela era viciante, irresistvel. Mas no era o bastante.
  Ele a queria por inteiro.
  Suas mos a trouxeram para mais perto at os seios dela pressionarem o peito dele e a barriga de grvida de Angie encontrar a rigidez vida de seu membro. 
   Eu a quero. Sei que isso  provavelmente errado, imoral, ou antitico, ou tudo isso junto, mas eu a quero e sei que se eu beij-la novamente, no conseguirei mais parar antes de fazer amor com todo o seu corpo. Mesmo que eu no a beije novamente,  isso o que eu quero. 
  Angie soltou um pequeno gemido e ele temeu que ela fosse sair correndo, gritando que ele havia perdido o juzo, mas ela apenas o olhou com aqueles enormes olhos azuis. 
   Voc  linda - sussurrou ele ao puxar-lhe a testa para junto dos seus lbios.  Deixe que eu faa amor com voc.
  Ela se deteve por um momento. Nunca havia se sentido to intensa e agonizantemente linda. 
   Eu estou com medo  sussurrou ela, estremecendo nos braos dele.
  Dominic beijou as suas bochechas, seus olhos e nariz.
  Eu tambm, disse uma voz vinda dos escombros da pedra que era o seu corao. Eu tambm. 
  Mas ele no disse coisa alguma. Apenas a beijou e a tomou em seus braos. Desejo, disse ele a si mesmo, tentando conter a as ansiedade enquanto a carregava at o seu quarto, ao lado. Puro desejo animal.
  No havia nada a temer.
  Ele a pousou reverencialmente em sua grande cama. Aquele era o lugar em sua casa para o qual ele mais gostava de voltar depois de suas viagens. Ainda mais agora, com Angelina deitada, arfante, sobre as cobertas, com suas bochechas rosadas e seu cabelo espalhado como um halo dourado sobre o algodo escuro da colcha.
  Oh, meu Deus.
  Ele queria de ir devagar, mas no sabia se seria capaz. Ajoelhou-se perto dela e baixou a cabea, incapaz de resistir  atrao que aquela boca enorme, com seus lbios entreabertos exercia sobre ele, incapaz de conter a sua explorao do corpo dela com uma de suas mos. O declive da sua cintura, o alargamento de seus quadris, a rigidez da curva de sua barriga. Cada parte do corpo dela era uma alegria para os seus sentidos. Ao tomar um dos seios dela em sua mo e cariciar o seu bico intumescido com o polegar, Dominic a sentiu gemer de prazer junto  sua boca e se viu tomado de assalto por um orgulho masculino ancestral.
  Ele adorou que Angie estivesse usando um vestido, pois assim pode erguer o seu tecido e deslizar a sua mo livremente por toda a extenso do corpo de Angie, sem que nada o detivesse em seu caminho em direo ao paraso. Ela estremeceu de desejo sob as mos de Dominic, ainda com os seus colados aos dele e arqueou todo o seu corpo em busca do seu toque.
  Ir devagar? Ela estava acabando com ele! O sangue de Dominic retumbou em suas veias ao encontrar um zper, baix-lo e finalmente tirar o vestido de Angie, quase chegando ao clmax diante do que viu.
  Ela era linda. Tinha pernas longas, seios gloriosos que ele ficou louco para libertar daquele simples suti branco e trazia o seu filho na barriga.
  Dominic tirou a camisa enquanto ela acompanhava todos os seus movimentos, faminta, e ele teve certeza de que Angie estava to excitada quanto ele. Tirou, ento a cala e viu os olhos dela seguirem as suas mos e se arregalarem num sinal ancestral de aprovao feminina.
   Dominic -	 disse ela, arfante, quando ele tirou tambm a roupa de baixo e voltou para junto dela, na cama, com um beijo que a fez perder a cabea.
  Pele contra pele. Havia alguma sensao melhor?
  No, concluiu ele, ao baixar as alas do suti de Angie com os seus dentes e expor os seios dela ao seu olhar, suas mos, sua boca quente. Ela gritou quando Dominic tomou os seus bicos entre os lbios e se agarrou a ele, enlouquecida de paixo.
  No, concluiu ele, enquanto sua lingu deslizava mais para baixo, at encontrar o inchao de sua barriga. Ele se deteve para beijar o beb que crescia l dentro, beijando a mulher que lhe daria o seu filho.
  No, concluiu ele, ao descer pelo corpo majestoso dela, baixando gentilmente a sua lingerie e desnudando o seu lugar mais secreto e feminino, enquanto suas mos acariciavam-lhe as coxas. No havia sensao melhor.
  Angie gemeu baixinho, despertando a besta que o habitava. Dominic afastou gentilmente as pernas dela, baixou a cabea e a sorveu avidamente. Ela enterrou os dedos nos cabelos dele, arfando exasperada, enquanto a lngua dele acabava com qualquer defesa que ela ainda pudesse ter.
  E ento ela tensionou todo o seu corpo sob o dele por um doce segundo, tendo alcanado aquele ponto sem volta, antes de um ltimo golpe da lngua de Dominic catapult-la para o outro lado e ela se desfez junto  sua boca.  Dominic conseguiu sorrir, apesar de tomado de um intenso desejo.
  V-la gozar havia sido mais satisfatrio do que ele poderia ter imaginado. Seu prazer podia esperar.
  Angie mal conseguia respirar, ou pensar. Mas, oh, como podia sentir! Cada parte do seu corpo estava acesa e cantava de prazer. Dominic se juntou a ela, com um beijo profundo e inebriante, um beijo que trazia o sabor dele e o dela, pensamento que bastou para atear fogo novamente aos sentidos dela.
  - Eu tenho que possu-la  disse ele entredentes, pousando a mo sobre a barriga dela. - Prometo ser delicado.
  - O beb est bem  sussurrou ela.
  Sou eu quem vai se ferir. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde, a dor e o arrependimento chegariam, mais ainda haveria para aquilo. Toda uma vida. Naquele exato instante, porm, era hora de sentir.
   Corno voc  sexy - sussurrou ele, com seus lbios contra o seio de Angie, sua lngua provocando um bico.
  As palavras dele a excitaram, sua voz rouca e intensa roando a pele dela como um veludo. Ele era o magnfico ali com seu peito amplo e poderoso, todos msculos e fora, e estava dizendo que ela era sexy?
  Foi ento que ela o sentiu. L.
  Angie ficou momentaneamente temerosa com o tamanho dele e tensionou o seu corpo. J fazia muito tempo. Meses. E mesmo ento...
  Ele, porm a envolveu em mais um daqueles beijos com aquela lngua que parecia alcanar o seu interior de sua alma e ela se esqueceu de tudo, exceto de sentir.
  E como ele a fazia sentir.
  Dominic a penetrou com uma nica investida, fazendo-a arfar e jogar a cabea para trs, contra os travesseiros, arqueando as costas enquanto seu corpo se estendia para melhor acomod-lo.
  O tempo parou enquanto eles permaneceram deitados ali, juntos, fundidos.
  E ento ele gemeu sobre o corpo de Angie, por entredentes e se afastou lentamente usando todo o seu autocontrole, Angie se agarrou a ele, desesperada por mant-lo ali, contraindo os seus msculos para cont-lo. A deliciosa frico de suas peles era devastadora, transformando a expectativa pela volta dele nutria refinada tortura.
  Ela girou os quadris fazendo-o gemer novamente, dessa vez de um modo mais desesperado, seu desejo se combinando ao dela, antes de penetr-la outra vez, mais fundo e impossivelmente melhor.
  Angie arfava, louca de desejo, enquanto ele se movia dentro dela, acelerando o seu ritmo cada vez mais. Sua boca quente e faminta explorando-a por inteiro, suas mos grandes em seus seios, em seus quadris, deixando a pele dela arrepiada por onde quer que passassem.
  Escorregadio e duro ele a preencheu, estendeu, completou. 
  Uma exploso de fogos de artifcios eclodiu por trs dos olhos de Angie, ateando fogo aos seus sentidos.
  Ela no podia gozar novamente. No duas vezes numa mesma noite. Aquilo nunca havia acontecido antes. No podia acontecer agora. As cores, porm, continuavam espocando e as sensaes se avolumando, at que aquela negao foi lentamente se transformando numa sensao abrasadora de deslumbramento, uma mar crescente de tenso, um desejo que ia para alm da sua satisfao sexual, mas que exigia a dele tambm.
  Dominic seguiu investindo dentro dela, suas costas esculturais e musculosas suadas, deslizando sob as mos de Angie. Estava completamente concentrado nela, at aquela excitao se transformar num fogo abrasador que obliterou o prprio sol.
  Com um golpe final, ele se fundiu mais urna vez a Angie, alcanando o clmax ao mesmo tempo que ela. Angie ardeu no inferno que ele havia acionado dentro dela, perdendo-se em meio s chamas e se perguntou, vagamente, de muito, muito longe, se valia realmente a pena voltar a se encontrar.
  Bem mais tarde, ela tirou os braos dele de cima de si e se esgueirou para fora da cama, deixando-o ali, adormecido. J era fim de tarde. Rosa devia estar se perguntando por que ela no estava na cozinha e Angie no podia permitir que ela a encontrasse daquele jeito, caso fosse procur-la no quarto do beb.
  Pior; ela no suportaria ver o arrependimento nos olhos escuros de Dominic quando ele acordasse. No suportaria estar presente quando ele se desse conta do erro que havia cometido.
  Pois aquilo havia sido um erro. Desde o momento de sua concepo, toda a sua vida havia sido baseada em equvocos. 
  Uma gravidez no planejada, um casamento mal concebido, um embrio errado.
  Quando  que ela ia aprender?
  Ela enfiou o vestido amarrotado e olhou uma ltima vez para aquele homem deslumbrante. Aquele era um erro que a assombraria pelo resto de sua vida.
  Sua cama estava vazia quando ele acordou e procurou por ela, vido por possu-la outra vez. Seu cheiro ainda estava em seu travesseiro, fresco e feminino, atormentando-o com a sua ausncia.
  Aquilo no passava de desejo, disse ele a si mesmo jogando-se novamente contra os travesseiros.
  Era melhor assim. A atitude dela provavelmente havia poupado a ambos de momentos constrangedores. 
  Aquilo era apenas sexo.
  Ele rosnou e se levantou da cama, seguindo em direo ao banheiro.
  S sexo? Ela havia se desmanchado por inteiro em suo mos, no uma, mas duas vezes, e com que intensidade. Dominic sabia que ela no estava fingindo. Era bom demais no que fazia para no reconhecer uma coisa dessas.
  Talvez fosse melhor assim. Afinal, ela acabaria indo embora mesmo.
  Dominic abriu o chuveiro e entrou no box enquanto a gua ainda estava fria, grunhindo mais uma vez ao sentir o jato atingir o seu corpo.
  Ainda faltavam muitas semanas at ela partir, disse ele a si mesmo, e ele ainda no havia saciado todo o seu desejo.
  CAPTULO DEZ
  A CLNICA PARECIAM fria e acolhedora ao mesmo tempo, como s as Instituies de sade podiam ser. Angie nunca deixava de, se surpreender com o fato de um lugar que promovia a fertilidade poder manter uma atmosfera to estril.
  Dominic caminhou tensamente ao lado dela, com os olhos escondidos por trs de seus culos escuros. 
  Sua atitude era perfeitamente compreensvel, afinal, aqueles fora o lugar que propusera que Angie interrompesse a gestao do seu filho.
  Talvez fosse por isso que ele tivesse vindo acompanh-la. No confiava neles. Bem-vindo ao clube, pensou ela, com a bexiga prestes a estourar.
  Cerca de 10 minutos depois, ela j estava na mesa de exame, coma a barriga devidamente coberta de gel. O ar sombrio de Dominic havia desaparecido por completo e ele agora parecia ansioso,  espera de que a tela fosse virada na sua direo.
  Ele realmente se importa com essa criana, pensou Angie, ao ver o homem que ela havia comparado a uma montanha vulnervel daquele jeito e por um momento apenas, desejou que ele se importasse tanto com ela tambm, e no apenas com o filho que ela estava esperando.
  O cime tomou conta do seu corao. Era com o beb de Carla que ele estava preocupado, o filho de Carla que ele queria. O filho que a mulher que ele havia amado e perdido jamais pudera ter.
  O que estava acontecendo com ela? Estava sentindo cimes de uma mulher morta!
  Seus olhos se encheram de lgrimas num pedido silencioso de desculpas ao inocente beb dentro dela. Ao menos ela havia sido capaz de fazer aquilo por ele.
  Por ambos.
  - Est tudo bem?  perguntou Dominic, j impaciente. 
  O mdico sorriu.
   Tudo parece perfeito. Eu j vou mostr-lo a vocs. Querem saber o sexo?
  A pergunta pairou por um instante no ar.
  - O que voc acha?  perguntou Dominic.
  Aquilo foi to inesperado que a deixou momentaneamente sem fala. Ele estava pedindo a sua opinio?
   O beb  seu, Dominic. A escolha  sua.
  Ele a avaliou, questionador.
  - No  decidiu ele.  No nos diga.
  O mdico assentiu e virou a o tela para que eles pudessem ver o beb. Angie manteve o olhar fixo em seus ps. A ultra de seis semanas j havia sido uma experincia de enorme intensidade. L estava o seu beb, pensara ela, um pontinho minsculo com batimentos cardacos. Ela havia ficado fascinada por aquela vidinha minscula, e simultaneamente tomada de culpa por nunca ter realmente desejado um filho,  aterrorizada com a ideia de que no o amaria o bastante. Mas o beb nunca fora seu e ela sentira um estranho e doce alivio ao descobrir isso. A fascinao estava ali, a poucos centmetros de distncia. Angie no podia negar aquela parte dela que se pergunta como seria a aparncia daquela criaturinha que a chutava cada vez mais e  noite e dava cambalhotas que a pegavam desprevenida e lhe tiravam o flego. 
  Seu medo agora estava maior do que nunca, e dessa vez, no por temer no ser capaz de amar aquela criana, mas sim de efetivamente am-la.
  Ela no podia amar aquela criana. S conseguira decorar o seu quarto porque Dominic no permitira que ela arranjasse um emprego. Fizera tudo pensando naquele beb como algo abstrato, sem conect-lo  criana que crescia dentro dela.
  Ela no suportaria v-lo. 
  No daria conta de desej-lo.
  Aquilo era somente uma encomenda que ela deveria entregar a Dominic quando chegasse a hora. Um presente que ela jamais poderia manter consigo. 
  - Olhe, Angelina, voc consegue enxergar da?  A alegria na voz de Dominic penetrou os seus pensamentos. - O beb est chupando o dedo!
  Apesar do seu medo e de si mesma, Angie olhou, querendo participar daquela descoberta, invejando sua alegria. A imagem era indistinta, feita de sombras cinzas que apareciam e desapareciam, mas ela acabou conseguindo discernir uma forma mais definida em meio a elas.
  Angie descobriu algo mais ao olhar para aquele beb ainda no nascido, algo que a aterrorizou.
  Um profundo desejo de possuir algo que no podia ser seu. De repente, ela quis que os meses voassem para poder aninhar o pequeno beb em seus braos, beijar a sua bochecha macia e segur-lo junto ao seu seio.
  Ser a me dele.
  - Lindo  disse Dominic, com sua voz grave e densa e o olhar fixo na tela, completamente deslumbrado, fazendo Angie cair em si.
  Ela no passava de um meio para que ele pudesse atingir os seus fins, uma pessoa descartvel que no tinha direito algum sobre aquele beb.
  Com um suspiro, ela concluiu de que fizera bem em deixar a cama dele, enquanto ainda fora capaz disso. Fora melhor ter recuado e criado alguma distncia entre eles antes de ele fazer o mesmo com ela.
  Homens como Dominic no se apaixonavam por mulheres como ela. Alm do mais, ele no havia feito nenhuma tentativa de se reaproximar dela, desde aquela noite em que a havia procurado, o que era prova mais do que suficiente de que ele estava to arrependido de tudo aquilo quanto ela? 
  Se conseguisse se manter minimamente afastada dele, ela poderia manter ao menos o seu orgulho intacto.
  Angie permaneceu calada durante todo o caminho de volta, mal reagindo s tentativas de Dominic de iniciar uma conversa. Ele j tinha esperado mesmo que ela ficasse um pouco mais tmida ao seu lado, j que da ltima vez em que haviam se emaranhado com as palavras, ele acabaram se emaranhados dos em meio aos lenis, algo que ele estava tendo muita dificuldade em tirar de sua cabea, mas ele teve a impresso de que havia algo mais em jogo. 
  Ela estava fria, distante. Era evidente que no estava compartilhando da mesma excitao que ele com o que ambos haviam testemunhado.
  Dominic estava decepcionado. Sups que ela expressaria algum interesse pela criana que estava esperando. Havia tido at a impresso de ver alguma centelha de instinto maternal em sua expresso, quando ela levava a mo at a barriga e a acariciava gentilmente, sussurrando palavras suaves quando achava que ele no estava olhando. E quanto ao que ela havia feito no quarto do beb! Fora Rosa quem lhe revelara que Angelina havia feito tudo sozinha. Como uma mulher podia preparar o quarto de um beb e no se interessar em ver o seu rosto depois?
  Ser que ela realmente se opunha tanto assim  ideia de ter um filho?
  Talvez sim. Mas talvez ela precisasse agir assim para poder ir embora. Havia insistido desde o incio que no queria tomar parte naquilo, que partiria e nunca mais teria nada a ver com aquela criana. Tinha lhe dito, desde o incio, que no mudaria de ideia, e pelo visto, realmente no o faria.
  O que era uma pena.
  Ele pensara no que ela havia lhe dito quanto a Rosa cuidar da criana. Sabia que Rosa o faria de bom grado, mas era injusto esperar que ela o fizesse. Ele ainda no havia pensado o suficiente sobre aquele assunto. L na garagem, porm, na noite anterior, esculpindo a pea em que vinha trabalhando, pensando naquela mulher deitada em sua cama em completo abandono e no quanto ele ansiava por faz-la atingir novamente os pncaros do prazer, uma ideia foi tomando forma.
  Uma boa ideia, pensou ele. Uma soluo sensata. 
  Embora, aquilo jamais fosse funcionar quando ela descobrisse o que ele havia conseguido para ela.
  Era uma pena.
  O jantar teria transcorrido completamente em silncio se no fosse pelo som ocasional dos talheres contra a loua. Rosa retirou os pratos, ambos pela metade, sem dizer nada, embora seu olhar dissesse mais do que mil palavras. 
  Do outro lado da mesa, Dominic parecia um vulco, prestes a entrar em erupo.
  Angelina no ousou encar-lo. Abriu mo da sobremesa, apesar de mal ter tocado no jantar, e quando Dominic a chamou de volta, quando ela j estava a caminho do seu quarto, ela sups que ele quisesse critic-la por no ter comido. 
  - Eu tenho uma coisa para voc  disse ele.  Encontre-me no escritrio daqui a 10 minutos.
  Ela quase suspirou de alvio. O antigo Dominic estava de volta. O Dominic com quem ela podia lidar. 
  Ela chegou ao escritrio na hora marcada, esperando o pior.
  - Por que queria me ver? - perguntou ela, sem conseguir disfarar o pequeno tremor em sua voz. 
  Dominic parecia to tenso que ela teve a impresso de que ele poderia se se quebrar caso se movesse. 
  - Acho que isso lhe pertence  disse ele, estendendo-lhe alguns papis. Confusa, ela os pegou e tentou compreender de que se tratava. Viu, ento, o selo de hipoteca paga na segunda pgina e olhou para ele, ansiosa.
    o que eu estou pensando? 
  Essa  a escritura definitiva da sua casa na Spinifex Avenue. Ela  sua agora, de papel passado. 
  As palavras dele confirmaram o seu maior sonho.
   Minha! Mas e quanto a Shayne? Achei que ele estava reivindicando a parte que julgava lhe caber.
    Os advogados cuidaram disso  disse ele com desdm. - Como suspeitvamos, ele ficou mais do que feliz em fazer um acordo. 
   Mas quem pagou a ele? E a hipoteca?
   Esquea. Era o mnimo que eu podia fazer.
  O mnimo que ele podia fazer depois de tudo o que j havia feito?
  Angie mal podia acreditar. A casa era sua. Aquele era um sonho que se tornava realidade. 
  S que...
  Querer aquela casa pertencia a um outro sonho. A um sonho sonhado em outra poca, quando ela no via a hora de voltar para casa logo depois do parto, sozinha.
  Angie se obrigou a ser lgica. No importava o que ela pensava ou queria. Dominic s estava fazendo aquilo porque queria que ela fosse embora, coisa que ela havia concordado e se comprometido a fazer. O que havia de to surpreendente naquilo?
   Obrigada  disse ela, finalmente, segurando a escritura junto ao peito.
  A noite estava quente, os lenis emaranhados e o beb havia decidido jogar futebol. Angie desistiu de tentar dormir. Talvez fosse at melhor permanecer acordada, j que todos os seus sonhos ultimamente se referiam a Dominic.
  Ele havia sido muito bom para ela. Bom at demais, na verdade. Ela nunca mais conseguiria se interessar por homem algum depois de t-lo conhecido.
  Ela foi at a janela e olhou para o mar, na esperana de pegar uma brisa, mas a noite estava estranhamente silenciosa, e o mar calmo, sem que nem mesmo a folhagem se agitasse.
  Angie viu a lua refletida na superfcie da piscina e chegou  concluso de que um mergulho acalmaria o seu corpo aquecido e sua excitao, j que era impossvel viver sob o mesmo teto daquele homem e no arder de desejo por ele.
  J era tarde. Ningum a veria e aquilo certamente a ajudaria a relaxar.
  Ela colocou o biquni que havia comprado com Antonia, e percebeu que ele estava pequeno, j expondo bem mais de sua barriga e de seus seios, por isso achou melhor colocar uma de suas antigas camisetas por cima.
  Pegou, ento, uma toalha e seguiu, p ante p, pela casa adormecida, em direo  piscina.
  A gua fresca foi um verdadeiro blsamo sobre a sua pele aquecida.
  Ela nadou de peito silenciosamente pela piscina, deleitando com o suporte que ela lhe proporcionava e o deslizar da gua contra a sua pele. Seu corpo comeou a latejar de prazer, lembrando de outra noite igualmente sensual e das mos grandes de Dominic passeando pelo seu corpo.
  Possessivas. 
  Ousadas.
  Ela estava sentindo falta delas. 
  A camiseta molhada comeou a incomod-la. Como estava sozinha, Angie conclui que no precisava mant-la e a atirou longe, para retomar as suas braadas. O contato direto da gua contra os seus seios fez os bicos dela intumescerem, evocando ainda mais lembranas que ela no conseguia apagar de sua mente. 
  Ela se deteve ao chegar na ponta da piscina, apoiando os braos na borda e balanando as pernas dentro da gua. 
  Aquilo no estava funcionando.	
  Dominic ainda estava na garagem, perguntando-se por que, afinal, ainda sentia necessidade de continuar tralhando naquela pea. Mold-la e recri-la a partir da lembrana de suas formas havia se transformado numa verdadeira tortura. Toda vez que ele a tocava, toda vez que a virava a pea fazia com que ele pensasse em Angie.
  Sabia, porm, que teria que persistir naquele projeto. Ele olhou para o relgio e se contorceu ao se dar conta de que que teria que se levantar daqui a poucas horas, sendo que ainda da havia planejado checar o  mercado estrangeiro antes de se deitar.
  O que significava agora. Dominic deu uma ltima olhada em sua escultura, e apagou a luz.
  A noite estava quente e silenciosa quando ele saiu da garagem. Foi ento que ol ouviu um barulho de gua e um leve suspiro que o deixou duro feito pedra antes mesmo de se virar em direo  piscina.
  No podia ser.
  L estava Angie, deslocando-se na gua com seus braos desnudos e brilhantes sob a luz da lua. 
  No importava mais que ele tivesse decidido que seria melhor manter-se afastado dela. No importava mais saber que ela no queria o seu filho, pois ele no tinha a menor condio de dar as costas a ela, pensou Dominic, abrindo os botes de sua camisa.
  Ele a desejava e aquilo o estava matando.
  Angie ouviu os passos dele antes mesmo de ele dizer com sua voz grave e rouca:
  - Noite quente, no ? Importa-se se eu me juntar a voc?
  Ela engoliu em seco. Sua camisa j estava aberta, expondo o seu corpo do pescoo at a cintura, uma pele que seus dedos ansiavam por tocar.
  - A piscina  sua  disse ela.  Embora voc no esteja estilo adequadamente para um mergulho.
  - Isso  fcil de resolver  disse ele, levando as mos at o cinto enquanto tirava os sapatos. 
  Ela virou o rosto para no demonstrar medo, perguntando o que ele pretendia fazer. Talvez estivesse na hora de sair da gua. Ela o ouviu mergulhar e se voltou para v-lo nadando debaixo d'gua, com longas braadas at emergir novamente ao seu lado.
  Talvez ela devesse sair.
  Talvez...
  - No estava conseguindo dormir'? perguntou ele. 
  Ela balanou a cabea, no querendo revelar o que a havia  mantido acordada.
  Os olhos dele estavam atraindo toda a sua ateno, escuros como o prprio cu daquela noite, iluminados apenas pelo brilho da lua. Eles deveriam estar frios, pensou Angie, mas estavam carregados de calor e ela se perguntou, ousou at torcer que ele tambm estivesse travando a mesma batalha interna que ela.
  Dominic levou uma mo at o rosto de Angie, sem desviar os seus olhos escuros e intensos dos dela, tirando o seu flego ao afastar uma mecha de cabelo de seu rosto. O toque dele provocou centelhas sob a pele dela que percorreram todo o seu corpo at alcanar os bicos dos seus seios e provocar um doce latejar entre suas coxas.
   Eu queria lhe agradecer pelo que fez no quarto do beb. Rosa me disse que voc fez tudo sozinha.
  Ela lutou para encontrar as palavras certas.
 - Foi bom ter alguma coisa para fazer.
  Os olhos dele brilharam.
   Voc gosta de se manter ocupada. 
  - Gosto de ter alguma coisa para fazer.
   O que vai fazer, agora que terminou com o quarto? 
  - Ainda no pensei nisso.
   Eu tenho uma ideia  disse ele, passando a mo por trs do pescoo de Angie, puxando-a sutil, mas deliberadamente para mais perto de si  se voc estiver interessada.
   Do que se trata?
  - No  exatamente um trabalho  respondeu Dominic, com os lbios agonizantemente perto da boca de Angie.   mais um passatempo.
   E quais so as condies?
   Muito favorveis. Embora  acrescentou ele, com seus lbios roando-lhe o rosto, e os seus Clios e beijou a ponta de seu nariz ao pux-la para junto do seu corpo  eu tenha que adverti-la que isso envolver alguns turnos noturnos.
  O que ele estava lhe oferecendo? Que ela se tornasse sua amante?
  Que esquentasse a sua cama  noite e criasse o seu filho durante o dia? Ela, porm, no conseguia se ofender com aquilo, diante daquela investida lenta e sensual e das pernas dele enroscadas nas suas debaixo d'gua. No havia desejado secretamente que ele viesse atrs dela? No havia rezado para que aquela no tivesse sido urna aventura de uma noite apenas?
  Ele mordiscou o lbulo de uma das orelhas de Angie e ela arfou, sentindo a mo dele deixar o seu pescoo e seguir em direo ao seu seio para brincar com um bico rgido e escorregadio entre os seus dedos.
  Oh, meu Deus, como ela podia raciocinar daquele jeito?
  - Vou precisar de alguma referncia? - perguntou ela quando ele levou a boca at o seu pescoo, e pressionou o seu membro ereto contra sua barriga.
  - Isso no ser necessrio  arfou ele, coma boca em seu mamilo, passando a lngua sobre o pico intumescido, deixando-a louca de desejo.  Apenas uma entrevista. E com perguntas bem fceis.
  Ele fez uma daquelas perguntas naquela hora, puxando a parte de baixo do biquni dela e Angie respondeu, deixando que Dominic a puxasse ainda mais para junto de si, e enroscando as suas pernas em torno do seu corpo, abrindo-se toda para ele.
  A boca de Dominic encontrou finalmente a de Angie, alcanando novamente a sua alma num beijo que abalou as suas estruturas e que s teve fim quando ambos precisaram respirar. 
   Parece tentador  disse ela, arfante , mas como eu posso ter certeza de que sou a pessoa certa para o que voc est querendo?
  Ele a penetrou, num movimento rpido e firme, profundamente, obrigando-a a acomod-lo dentro de si. 
   Acredite-me  disse ele entredentes, ao se afastar lentamente. - Voc  perfeita.
  Angie foi tomada de assalto por repetidas ondas de prazer, seguidas da exploso de prazer de Dominic. Uma lgrima solitria escapou de seus olhos. 
  Voc  perfeita, dissera ele. Voc  perfeita. 
  Ningum jamais havia lhe dito algo assim antes, a no ser a sua me. Mas ele o dissera como se acreditasse no que estava dizendo e fizera com que ela tambm acreditasse. 
  Seu corao se encheu de esperana. Ele devia am-la, ao menos um pouco.
  Ele nunca lhe dissera explicitamente qual seria a sua nova funo na vida dele. No lhe pedira para levar as suas coisas para o quarto dele, mas ela passava muitas noites l, nos braos dele, quando ele no entrava, p ante p. no quarto dela, no meio da noite.
  Seu humor tambm havia mudado. Ele havia voltado a ser como antes.
  Visitava a cozinha, passando algum tempo l com ela e com a Rosa, experimentando pratos e roubando guloseimas e at mesmo beijos quando Rosa no estava olhando.
  Angie estava cada vez mais apaixonada, temendo o dia em que aquela criana nasceria. O calendrio na parede da cozinha parecia debochar dela, aproximando-se cada vez do dia de sua partida, at que s lhe restou mais um ms. 
  Dominic no dizia coisa alguma. Fazia amor com ela ternamente  noite e a levava para jantar fora nas noites de folga de Rosa e para caminhadas ao longo da costa, nos dias perfeitos de outono. Seu corao estava ficando cada vez mais pesado, como o beb que ela trazia dentro de si.
  Ela o amava como jamais havia amado homem algum antes e amava tambm aquela criana porque ela era parte dele. Ficaria com o corao partido por ter de deix-los. Mas no tinha escolha. No imploraria para ficar, ainda mais depois de tudo o que ele havia feito para lhe assegurar a posse da casa. Partiria de cabea erguida. No suportaria se ele a rejeitasse.
  Aquilo acabaria com ela.
  Estava terminado. Dominic ergueu a pea em suas mos, admirado com o poder das ferramentas de seu av e da beleza que elas haviam criado.
  Ele no sabia se Angie ia gostar ou mesmo querer aquilo, mas estava feito e ele o daria a ela como um presente, quando o beb nascesse. Dominic sentiu um aperto no peito e olhou para o relgio. Faltava to pouco...
  Ele no queria deixar que ela partisse. Queria rasgar o acordo que eles haviam feito e mant-la l. Ela pertencia aquele lugar, ainda que nunca tivesse desejado aquele beb. Uma pedido que ele havia querido lhe fazer, meses atrs, voltou  sua mente.
  Valia a pena tentar.
   Fique  disse ele, deitado junto a ela depois de uma terna noite de amor.  No v embora.
  O corao dela bateu com fora contra um peito que estava ficando mais tumultuado a cada dia, sentindo a esperana florecer, mas ainda excessivamente temerosa para sequer respirar.
   Do que voc est falando?
  Dominic se apoiou sobre um de seus cotovelos e olhou para ela.
   No h razo para voc ir embora.
  Mas que razo h para que eu fique?
  Ela passou a lngua sobre os lbios.
   Ns temos um acordo. Eu prometi que no mudaria de ideia. Que no lhe causaria nenhum problema depois do nascimento do beb.
   Voc no causaria problema algum! Seria timo. Rosa adoraria que voc ficasse.  E Dominic? O que Dominic adoraria? Quem ele adorava?  Eu sei que voc nunca quis esse beb, mas tenho certeza de que vai se dar bem com ele. Voc poderia ajudar Rosa. Seria perfeito.
  Perfeito.
   Voc quer que eu fique para ajudar a cuidar do beb depois que ele nascer.
  Ele acariciou-lhe o rosto com uma das mos e seu toque, agora familiar, fez com que ela piscasse os olhos nervosamente, ima mente, perdendo o flego.
   Eu sei o quanto voc estava esperando para se ver livre de toda essa situao, mas no seria de todo ruim, eu lhe asseguro  disse ele, cheio de malcia, enquanto sua mo acariciava-lhe o seio.
  Como ele estava enganado. Sua oferta era, na verdade, um milagre, uma oportunidade de tomar o seu peque no beb em seus braos, sentir sua respirao junto ao seu rosto. Dominic no tinha ideia do mundo que estava lhe propondo!
  Mas ele no estava lhe pedindo para ficar porque a amava. 
  Ela o teria na cama dele, mas no a ele. Mulheres como ela no podiam esperar ter homens como ele.
   Por quanto tempo?
  Antes de me mandar embora.
  A mo de Dominic se deteve imediatamente sobre a coxa de Angie.
   Acha; que isso vai ser um sacrifcio muito grande para voc? Ser que foi um erro lhe pedir uma coisa dessas? Voc prefere ir embora e voltar para a sua casa?
  Ela balanou a cabea, pois mesmo sem amor, e sem certeza alguma de quanto tempo permaneceria l, aquilo era mil vezes melhor do que voltar para a sua casa sozinha, sem nada alm dos seus pensamentos e um corao partido como companhia.
   Eu ficarei - disse ela suavemente.
  Angie estuava na cozinha preparando uma salada quando sentiu uma forte pontada que lhe tirou o flego e fez com que ela se dobrasse em dois.
  - O que foi?  gritou Rosa, correndo da outra ponta da cozinha.
   Eu no o sei  disse Angie, apavorada.  Ainda  muito cedo.
  Rosa pegou uma cadeira e a ajudou a se sentar.
   Espere aqui. Eu vou ligar para Dominic.
  Angie gritou, quando uma segunda pontada bem mais intensa a tomou de assalto e entrou em pnico ao ver o liquido vermelho escorrer pelas suas pernas e cair no cho. 
  Rosa empalideceu.
  No, pensou ela em seus ltimos segundos de conscincia antes de a dor fazer com que ela desmaiasse. Ela no podia perder aquele beb! Queria aquele beb. O seu beb.

  CAPTULO ONZE
  DOMINIC ANDOU de um lado para o outro, na sala de espera, suando frio,  espera de alguma notcia.
  A ligao de Rosa, em pnico, "Angelina... o beb", havia sido o bastante. Ele sara correndo do escritrio, sem saber o que estava acontecendo, tendo sido informado, no meio do caminho, que Angelina havia sido levada diretamente para a emergncia.
  Rosa lhe contara que Angie tinha cado na cozinha e que havia sangue. Uma hemorragia, supuseram os paramdicos. Aquilo no era nada bom.
  Ele se deteve ao ver. Rosa sentada, com os olhos fechados e os dedos entrelaados, movendo os lbios silenciosamente. 
  Rezando por Angelina. Pelo seu beb ainda no nascido. 
  Dominic foi tomado de um terror que jamais conhecera antes. Rosa havia visto o que acontecera. Havia visto o sangue.
  Ele no ia perd-los, ia? 
  No agora.
  Ele se sentou ao lado de Rosa e a puxou para junto de si. A velha senhora aceitou o gesto de bom grado, como se precisasse, realmente, de seu apoio.
  Uma mulher recm-sada da sala de cirurgia os abordou. 
  - Parabns, Sr. Pirelli. O senhor tem uma filha linda. Ela vai ficar bem. O senhor poder v-la daqui a pouco.
  Dominic fechou os olhos e encaminhou a sua prpria prece de agradecimento aos cus. Aquilo j era um grande alvio.
  Mas ainda no era o bastante.
  - E quanto a Angelina'?
  - Os cirurgies ainda esto cuidando dela. Ela passou momentos difceis  disse ela com um sorriso de desculpas. - Ns avisaremos assim que tivermos mais notcias. 
  Ele voltou a se sentar, seguido por Rosa, ainda de mos dadas a ele.
  Uma menina. Isso  maravilhoso  disse ela, com os olhos cheios d'gua, antes de as lgrimas se transformarem numa verdadeira torrente e Dominic pux-la novamente para junto de si.
   Angelina  uma guerreira. Ela  forte. Nada vai acontecer a ela - disse ele, tentando convencer a si mesmo e no pensar que poderia perder a mulher que ele amava. 
  Oh, meu Deus. Ela havia sido a sua luz ao final de um longo dia. Suprira todas as suas fantasias. Ela era a mulher que o havia trazido de volta  vida.
  A mulher que havia arriscado a sua prpria vida para gerar a sua filha. Por que fora preciso acontecer algo assim para que ele finalmente conseguisse enxergar?
   claro que ele a amava.
  E no podia perd-la agora.
  Ela ia voltar para casa, disse ele a si mesmo, e ele a amaria e tomaria conta dela, e talvez, um dia, ela pudesse vir a am-lo e ao beb tambm.
  Uma porta se abriu. A enfermeira reapareceu, dessa vez empurrando um carrinho de enfermaria.
   Aqui est o seu beb, sr. Pirelli, se quiser dizer ol e fazer as apresentaes.
  Dominic olhou para o bebezinho de rosto vermelho e cabelo preto que se contorcia e fazia beicinho como que testando o ar.
   Gostaria de pegar a sua filha no colo?
  Ele no sabia ao certo. Ela era to pequenininha, to frgil. E naquele exato instante, com todas aquelas emoes se agitando dentro dele, ele no sabia se queria faz-lo. Angelina ainda estava no centro cirrgico, lutando pela sua vida por causa daquela pessoinha.
  Antes, porm que ele pudesse colocar as suas grandes mos sob o seu pequenino corpo e traz-lo para junto do peito, um mdico chegou, com a testa ainda molhada de suor, a mscara puxada para baixo e um sorriso nos lbios.
  - A sra. Cameron vai ficar bem. Ela j foi para a recuperao.
  Dominic suspirou, profundamente aliviado, e o beb escolheu justamente aquela hora para abrir os olhos e olhar para ele, franzindo a testa, com seus olhos to escuros quanto os de seu pai.
  Minhas, pensou ele, cheio de orgulho. A beb e Angelina. Ambas minhas.
  Os mdicos s haviam permitido que ele a visse de longe, mas ele voltou logo cedo, no dia seguinte e a encontrou ligada a um nmero j bem menor de mquinas.
  Ele achou que ela estivesse dormindo, mas Angie abriu os olhos assim que ele se aproximou da cama.
   Dominic. - A voz dela estava rouca e fraca, mas o nome dele nos lbios dela j havia se transformado em seu som predileto.  Eu sinto muito.
   Pelo qu? -- perguntou ele, pressionando os seus lbios na testa de Angie, com medo de esbarrar em alguma coisa e lhe causar mais dor.
   Achei que ia perder o beb. Achei que ia perder...  Ela no terminou a frase, mas fechou os olhos com fora, soluando.
   Shh - disse ele, tomando a mo dela gentilmente na sua. - O beb est bem. Voc j a viu?
  Ela balanou a cabea contra o travesseiro.
   Ainda no.
  Dominic no sabia se aquilo se devia  sua falta de interesse ou ao fato de ela no poder dar conta daquilo naquele momento. Ele mesmo havia dito  equipe que ela no ia amamentar a criana. No queria submet-la a isso, j que ela nunca havia desejado aquele beb.
  - Sinto muito pelo que voc teve que passar para dar  luz. Se eu soubesse disso, jamais teria permitido que corresse esse risco.
  Ela deu de ombros.
  - Foi um acidente, de acordo com os mdicos. Uma chance em um milho. Quis o destino que acontecesse logo comigo. Voc j decidiu que nome vai dar a ela?
  - Sim, e Rosa concordou comigo. Acho que os filhos devem receber os nomes de suas mes.
  Angie assentiu. Havia vivido nos ltimos seis meses sob a sombra daquele nome, mas aquela era a coisa certa a fazer. 
    um belo nome.
   Tambm acho. E combina com ela. Angela Carla Pirelli. Ela olhou para ele, estupefata.
   Angela? Mas voc disse...
  Ele beijou a ponta dos dedos dela.
   Os nomes de suas mes, voc e Carla.
  Os olhos de Angie se encheram de lgrimas.
   Mas eu no tenho direito...
  Ele ento lhe lanou um sorriso que mexeu com as ltimas e frgeis fibras do corao de Angie que ainda haviam permanecido intactas.
   Voc tem mais direito a ela do que qualquer outra pessoa. O que o laboratrio criou com parte de Carla e de mim foi apenas uma possibilidade de vida. Foi voc quem transformou esse sonho em realidade, que transformou essa chance em uma pessoa de carne e osso, e que tornou a vida dessa criana possvel.
  - Mas....
   Voc no compreende? Ela . sua filha, Angelina, o seu beb. Voc  a me dela.
  Angie comprimiu os lbios, tentando conter as lgrimas, embora aquela fosse uma tarefa impossvel.
   Eu disse alguma coisa errada?
   No! Voc disse tudo certo.  Ela fungou.  Se  assim, acha que eu posso ver o meu beb?
  Dominic sorriu e apertou o boto para chamar a enfermeira.
   Eu gostaria muito disso.
  Pouco depois, ela chegou, envolta numa manta nova cor-de-rosa. De onde estava, Angie pode ver apenas o cabelo preto e a sua mo minscula.
  - Eu tambm trouxe uma mamadeira, sr. Pirelli  disse a enfermeira  caso o senhor queira aliment-la.
   Voc acha...?  perguntou Angelina.  H alguma chance de eu amament-la?
   Tem certeza? - perguntou ele.
   Est se sentido disposta?  perguntou a enfermeira. 
   Eu gostaria muito de tentar.
  A enfermeira preparou um travesseiro para apoiar o beb e fez a higienizao necessria no seio de Angie. Parecia um esforo hercleo para uma criaturinha to pequena, mas tudo valeu a pena quando ela olhou para a sua filha, aquele beb que ela havia gerado dentro do seu corpo por quase nove meses, aquele milagre, e se apaixonou instantnea e irrevogavelmente.
   Ol, Angela Carla Pirelli - disse ela, quando a pequena agarrou o seu dedo.  Voc  uma menina de muita sorte, pois tem duas mes: a que a fez to bonita e eu.
  A enfermeira secou as lgrimas, assumindo um tom prtico.
   Vamos organizar as coisas por aqui, ento.
  Ela mostrou a Angie como segurar o beb e lhe oferecer o seio. Angie aprendeu depressa, mas o beb foi ainda mais rpido do que ela e em pouco tempo estava mamando animadamente.
  Lindo, pensou Dominic ao olhar para me e filha juntas.
  Essa  a mesma mulher  sussurrou ele quando a enfermeira saiu do quarto e o beb adormeceu  que nunca quis um beb? O que aconteceu?
  Angie deu de ombros e sorriu para o beb em seus braos, inalando o seu cheirinho mgico.
   Eu no queria ter filhos. Pelo menos no com Shayne. Fiquei feliz quando soube que no estava esperando um filho dele. Depois temi me apegar a essa criaturinha, pois sabia que iria embora. Eu no suportaria am-la, mas no pude deixar de desenvolver uma conexo com ela enquanto ela crescia dentro de mim.  Ela suspirou, e um lento e amplo sorriso brotou em seus lbios.  Eu tentei lutar contra esse sentimento, tentei manter uma certa distncia porque sabia que ia acabar sofrendo, mas foi impossvel.
   Case-se comigo.
  Ela piscou e olhou para cima ao ouvir aquele pedido brusco.
   O que foi que voc disse?
   Case-se comigo, Angelina. Torne-se minha esposa. 
  Ela balanou a cabea. Devia estar sonhando, os analgsicos certamente haviam afetado o seu raciocnio.
   Voc no precisa me compensar pelo que aconteceu. Foi um acidente.
   Eu no quero me casar com voc por culpa.
  Um frisson percorreu-lhe a espinha.
   Mas voc no pode se casar comigo. Ns ternos origens muito diferentes. O que as pessoas vo pensar?
   Eu no me importo com o que as pessoas pensam. Voc sabe disso.
   Mas as pessoas vo falar mesmo assim.
  E vo descobrir que ns fomos criados a trs quarteires de distncia um do outro. Sim, Angelina  disse ele em resposta ao olhar de descrena dela.  Eu passei os primeiros 15 anos de minha vida num subrbio ao lado de onde voc morava. Eu vivia com a minha Nonna, meu Poppa, e minha me, at nenhum deles mais restar, e eu decidir ir em busca da casa junto ao mar com que eles tanto sonharam. A casa que eles nunca tiveram.  Ele sorriu.  De modo que no h razo para voc me rejeitar.
  - Mas eu ainda no compreendo por que voc quer se casar comigo.
  Ele tomou uma das mos de Angie na sua e lhe lanou um sorriso malicioso.
   Porque eu a amo. Fui estpido demais para admitir ou mesmo reconhecer esse sentimento antes, mas a perspectiva de perder voc fez com que eu me desse conta de que a amo.
  A esperana floriu no corao Angie.
  Aquela era urna emoo de verdade. L estava aquela expresso outra vez, uma expresso que parecia rondar aquele homem desde o momento em que ela o conhecera.
   Mas e quanto a Carla? Achei que voc ainda a amava, Essa  a filha dela. Pensei que era por isso que voc desejava tanto esse beb.
  Ele lhe lanou um sorriso triste, estendendo a mo para acariciar o cabelo de seu beb. 
   Cada sempre ter um lugar em meu corao. 
   Ela era to linda.
  Dominic assentiu.
    verdade, mas tambm era muito frgil.  Ele desviou os olhos de sua filha adormecida para a mulher que a mantinha em seus braos.  Ela no era forte como voc, Angelina. Carla sempre quis o que no podia ter, pensando que isso a faria feliz, mas nada nunca era o bastante para ela, nem o dinheiro, nem a casa... Ento ela decidiu que um beb a faria feliz, mas j estava perdendo peso na poca, matando-se aos poucos.   Ele suspirou.  Seu aspecto, quando eu a conheci, me fez lembrar dela. Eu no conseguia compreender como voc havia sido capaz de conceber o filho dela, quando ela no o fora. Eu no a conhecia. No confiei em voc. Estava zangado demais. Como eu estava enganado. Era como se eu tivesse construdo uma muralha de pedra em torno do meu corao. Eu no tinha sido capaz de salvar Carla, apesar de rodo o meu dinheiro. Bastou uma simples infeco. Qualquer outra pessoa teria foras para debel-la, mas ela no.
  Angie olhou para o beb em seus braos com o corao apertado.
  -  Eu no queria ter que salvar mais ningum - prosseguiu ele.  A sua, chegada com o meu filho em sua barriga comeou a abalar Dessa muralha. Eu lutei muito para que isso no acontecesse, mas voc a derrubou e me salvou. Voc me trouxe de volta  vida, assim como deu  luz a nossa filha. Portanto, pode acreditar em mim quando digo que quero ficar ao seu lado para sempre. Eu quero que voc seja a minha mulher.  Eu a amo, Angelina, e  espero que um dia voc possa me amar tambm, depois de tudo o que eu a fiz passar. 
  Ela olhou para ele, piscando por entre seus olhos nublados.
   Eu j o amo, Dominic. Foi muito difcil lutar contra esse sentimento durante todos esses meses. 
  E ento vieram as lgrimas, de alegria de alvio, de amor
  Ele se sentou na cama, ao lado dela e aninhou a cabea de Angie em seu brao, acariciando a cabea do beb com a outra mo.
   Quer dizer que voc aceita se casar comigo.
  Ela assentiu e chorou um pouco mais, no conseguindo se conter de tanta felicidade. Como se percebesse o seu medo, ele beijou os olhos dela, afastando as suas lgrimas. Depois tirou o beb adormecido dos braos de Angie e a colocou de volta no bero para lhe entregar o presente que havia trazido consigo.
   Eu no comprei uma aliana, mas gostaria de lhe dar isso  disse ele, estendendo o pacote envolto num simples papel dourado com uma fita vermelha.
  Ela olhou interrogativamente para o pacote e ento para ele.
   Abra - disse ele, subitamente nervoso.
  Ela desembrulhou o presente cuidadosamente e arfou erguendo ao ver do que se tratava. Uma escultura de uma mulher com uma perna dobrada e o rosto voltado para baixo, olhando para as suas mos que aninhavam a sua barriga de grvida. Uma mulher de pernas longas e delgadas e um cabelo em camadas que ia at os seus seios desnudos.
    lindo  disse ela, encantada com aquela obra de arte e ainda mais com o mistrio que a cercava.  Mas essa sou eu! Onde foi que voc encontrou isso?
   Lembra-se de quando voc me disse, h muito tempo, que eu no fazia efetivamente nada?
   No, Dominic!  exclamou ela, levando a mo at a boca de Dominic. - Eu estava errada. S estava procurando um motivo para no gostar de voc.
  Ele afastou uma das mos de Angie, balanando a cabea.
   Voc tinha razo. Eu estava to ocupado fazendo dinheiro que me esqueci de como efetivamente fazer coisas. Coisas de verdade. Meu Poppa me ensinou a talhar a madeira e voc me inspirou a pegar naquelas ferramentas outra vez. Foi mais difcil do que eu pensava. Nada dava certo. Mas uma noite eu a vi saindo da piscina, torcendo os cabelos, com a sua barriga despontando com o o meu filho e soube que teria que capturar aquela imagem. Voc me trouxe de volta para casa, Angelina. Voc fez com que eu voltasse a perceber o que  real.
    lindo, Dominic.
   Voc  que  linda, Angelina. E sempre o ser para mim. 
   Eu adorei o presente. Quase tanto quanto adoro voc. 
  Ele baixou a cabea para beij-la.
   Nunca se esquea disso.

  EPLOGO
  ANGELA CARLA Pirelli, ou AC-DC como ficou conhecida entre os ntimos, numa referncia, tanto s suas primeiras iniciais quanto ao seu alto nvel de energia, compareceu ao seu primeiro casamento com a idade de seis meses e meio
  De acordo com ela, aquela festa foi toda para ela, e a julgar por como ela passou de mo em mo entre os convidados, que a fizeram rir com interminveis cosquinhas e caretas engraadas, no era de admirar que ela tenha achado que era mesmo a estrela da noite.
  Dominic, porm, tinha outra opinio.
  Amava imensamente a sua filhinha, sendo capaz, inclusive de dar a vida por ela, mas aos seus olhos, s havia uma estrela naquele dia: Angelina. Ela parecia uma verdadeira deusa naquele vestido de noiva de inspirao grega, caindo em camadas em torno do seu corpo perfeito e o cabelo parcialmente preso, com alguns fios soltos emoldurando o seu rosto e pescoo.
  Dominic se deixou distrair por um momento, ao ouvir a risada de sua filha. Rosa estava com ela em seu colo, balanando- ao som da msica.
   Acho que a sua filha vai ser uma danarina daqui a alguns anos  disse Angie.
   Quer dizer que agora ela  a minha filha  disse ele, arqueando uma sobrancelha ao dar o brao  sua nova esposa.  Achei que tnhamos partes iguais nessa histria.
  - Na maior parte do tempo  disse ela, passando-lhe uma taa de champanhe.
  Angie apenas sorriu vendo Rosa passar a criana para o homem ao seu lado, que claramente no esperava por aquilo. Ele pareceu chocado por alguns segundos, como se no soubesse o que fazer com ela, mas foi s ela piscar para ele com os seus olhinhos escuros e lhe sorrir com seus dentinhos de beb para ele se afeioar por ela, comear a rir e embal-la, fazendo-a solar seus gritinhos.
  - A est  disse Angie. - Uma mulher inesperada encontra um homem nada receptivo, se apaixona por ele, e o conquista. Essa  definitivamente a minha filha.
  Dominic sorriu, puxando-a mais para perto de si.
   E como voc imagina que seria um filho nosso?
   Perigoso  disse ela, sem pensar. - Um arrebatador de coraes. Amante de carros e de mulheres brilhantes e que sabe usar bem a ambos.
   Ui!
  - No  to ruim quanto parece. Ele sabe agarrar uma oportunidade, esse nosso filho, e algum dia, uma moa de sorte ir agarr-lo para sempre.
  Ela a tomou em seus braos, mal esperando a hora que Angie abrisse o presente de casamento que ele havia deixado para ela debaixo do travesseiro: um avental de renda!
  - Voc vai ficar comigo para sempre, sra. Pirelli?
  Ela olhou naqueles olhos escuros como a noite.
  - S se no me deixarem ficar com voc mais que isso. Eu o amo, Dominic, para sempre.
  Ele beijou a sua esposa, me de sua filha, e soube que para sempre jamais seria o bastante.

  
  INTERIOR DO CORAO
  MELANIE MILBURNE
  Traduo
  Maria Vianna
  CAPTULO UM
   Tpico, PENSOU Alex, entrando no estacionamento da Clnica Mdica Kingfisher Crossing. Havia uma vaga "reservada para mdicos", mas j estava ocupada e presumiu que fosse por algum paciente que no soubesse que o novo mdico substituto chegaria. Parou  sombra de uma aroeira meio murcha, e o calor escaldante do solo atravessava a sola de suas sandlias enquanto caminhava at o prdio castigado pelo sol.  esquerda havia um chal meio afastado, Alex presumiu, pelos documentos que recebera, que seria a sua casa. Assim como acontecia com a clnica, as paredes descascavam e o jardim, se  que se podia chamar assim, precisava de uma boa chuva, como todo o resto do caminho rido que percorrera at ali. A viso no era certamente um carto de boas-vindas; at mesmo o piso da varanda que cercava a clnica protestou, quando a atravessou e abriu a porta da recepo. 
   Receio que, se veio procurar o dr. MacDonald, est dois dias adiantada  disse a mulher que passava dos 50 anos, por detrs do balco da recepo. - O dr. MacDonald no vai atender pacientes at segunda-feira de manh. 
   Eu sei  disse Alex com um sorriso.  Sou...
   A no ser que seja uma emergncia, claro  continuou a mulher, como se Alex nada tivesse dito. -  algo que no precisamos aqui... Outra emergncia. Depois do que aconteceu com o dr. Carter, estamos sem mdico h trs meses. No sei como a cidade sobreviveu.
   Como est o dr. Carter? Alei perguntou polidamente.  Soube que sofreu um terrvel acidente de carro na estrada que vai daqui para Marraburra.
   No voltar a Kingfisher Crossing ou, pelo menos, no vai mais trabalhar como clnico geral. Resolveu ficar com a famlia em Fremantle. Para ser sincera, no o culpo. Passou 10 anos aqui.  mais do que algumas pessoas pagam por ter feito um assalto  mo armada.
   S-sim...  disse Alex, constrangida.
  - Hoje em dia, ningum quer trabalhar no deserto  a recepcionista continuou.   quente demais, isolado demais.  tudo exagerado.
  - Sim  Alex concordou. - Sei que  difcil arranjar gente para trabalhar no deserto, mas pensei...
   O problema  que no consigo entender como algum com as qualificaes do dr. MacDonald possa querer vir para c  ela interrompeu Alex novamente.  Quer dizer, no da dinheiro, sabe?
   Ah, no, mas no foi por este motivo que...
   Claro que se voc quer fugir de algum, este  o lugar para se esconder  disse a mulher com uma risadinha. - Quer dizer, quem iria encontr-lo aqui?
   Suponho que tenha razo  Alex disse num tom um tanto desgostoso. O emprego temporrio era exatamente o que precisava. Vira a oportunidade como um perodo de reabilitao afastar-se depois de terminar um relacionamento. Segundo passo: afastar-se de Garry.
   Bem, suponho que queira marcar uma consulta com o dr. MacDonald, certo?  disse a recepcionista, pegando a agenda.
  No  disse Alex com um sorriso embaraado. - Sabe, sou eu a dra. Alex MacDonald.
  A recepcionista piscou, surpresa.
   Mas... Voc no pode ser o dr. MacDonald. 
  Alex franziu a testa. 
   Por que no?
   Porque o dr. MacDonald j est aqui  disse a mulher.
   Ele chegou h trs horas.
  CAPTULO DOIS
   ELE?  Alex exclamou surpresa.
  Sim  disse uma voz grave atrs dela.  Sou o dr. Alexander MacDonald. Como posso ajud-la?
  Alex se virou e viu um homem alto, de cabelos negros, trinta e poucos anos, olhos perspicazes num tom azul acinzentado.
  - Mas eu sou Alex MacDonald  ela falou espantada.  Fui designada para este posto por seis meses. Vim direto de Melbourne para chegar no prazo.
   Ento voc fez alguma confuso. Vai precisar dar meia-volta e ir para casa  ele disse secamente. Esta cidade s precisa de um mdico. E sou eu.
  Alex se empertigou toda e o encarou.
  - No vou embora. Fui designada para este posto... Tenho uma carta para confirmar. Foi voc quem se enganou, e  voc quem deve ir embora.
  Os olhos dele se tornaram duas pedras de gelo.
  - No tenho inteno de ir embora. Eu tenho uma carta de designao, e garanto que sou quem afirmo ser. E j me mudei para o chal do residente, a ao lado. No existe outro lugar para ficar na cidade, alm do parque para trailers. 
   R-r  pigarreou a recepcionista.  Algum pode me explicar o que est acontecendo?
  Mack olhou para Shirley Griffiths, sentada do outro lado da mesa.
   Shirley, s posso presumir que houve algum erro burocrtico  explicou. - Por algum tropeo do destino, parece que a dra. MacDonald e eu nos candidatamos e fomos indicados para o mesmo cargo.
    tpico...  Shirley falou, olhando para o teto.   Ficamos trs meses sem mdico, e agora temos dois.  Ela estalou os lbios e acrescentou.  Juro que aqui nunca chove, mas brota gua.
  Mack se voltou para a jovem loura de expresso desafiadora, que esperava de braos cruzados, de queixo erguido e de sobrancelhas levantadas.
  - Olhe  disse, passando a mo na cabea. - Voc no pode ficar. Estou falando srio. Esta cidade no  grande o suficiente para ns dois.
   Ento, ser um duelo ao amanhecer?  ela perguntou com insolncia.   incrivelmente tentador.
  Mack se sentiu atrado ao ver a atitude corajosa e o tom malicioso. A boca daquela mulher o atraa corno um m. O brilho nos lbios volumosos lhe fazia lembrar h quanto tempo no sentia a presso macia do beijo de uma mulher. Colocou as mos nos bolsos e fitou-a.
   Vou conversar com o administrador municipal na segunda-feira e pedir que reembolsem as despesas que voc teve com a viagem  ele disse.
  Alex levantou orgulhosamente o queixo e o encarou com os seus olhos cor de chocolate.
  Acho que no me ouviu, dr. MacDonald. No viajei de to longe para nada. Aluguei meu apartamento pelos prximos seis meses. Ainda que desse meia-volta e fosse para casa, no teria onde morar.
   Tenho uma ideia absolutamente brilhante  disse Shirley com os seus olhos de passarinho brilhando.  Sero apenas seis meses e estivemos sem mdico por muito tempo. Por que no ficam os dois?
  CAPTULO TRS
  - QUER, DIZER que dividiramos o trabalho?  Alex perguntou.
   Sim  Shirley respondeu.  A minha filha mora em Darwin e faz isso com uma amiga. As duas tm filhos e no querem trabalhar em tempo integral, ento, dividem o trabalho.
   Esta deciso no cabe a ns  disse Mack, cruzando os braos.  Precisamos submeter a proposta ao administrador municipal e ele s volta na segunda-feira. Alm disso, o chal mal d para uma pessoa, quanto mais para duas...
  - Tem dois quartos?	Alex perguntou.
   Tem, mas...
   Estou disposta a experimentar, se voc tambm estiver  ela declarou.  Como Shirley disse, sero apenas seis meses. Podemos trabalhar em turnos e, se houver algo srio, podemos ajudar um ao outro.
  Mack rangeu os dentes silenciosamente. A ltima coisa que queria era dividir a casa, principalmente com algum to atraente como Alexandra MacDonald. Morar com algum confundia os limites. Gostava de ter seu prprio espao, ainda mais agora. O inqurito sobre a morte de Isaac Freeman o atingira profundamente. Vir para Kingfisher Crossing fazia parte da sua recuperao. Achara que em um lugar remoto como aquele no haveria distraes e que poderia se concentrar em voltar aos trilhos. Dividir o cargo poderia ser uma maneira de ter mais tempo para ele mesmo. Poderia caminhar e relaxar, ao invs de pensar o tempo todo em trabalhar.
   Para mim parece um bom arranjo  disse Shirley.  Tem havido alguns roubos em clnicas, no trajeto daqui a Marraburra. At prenderem o culpado, ser mais seguro ter dois mdicos trabalhando. Vou informar o administrador municipal. Aposto que foi ele quem aprontou esta confuso. Est velho demais para o cargo, mas o que se pode fazer?
   No  Mack insistiu. - Eu mesmo falo com o sr. Hallum na segunda-feira. A dra. MacDonald pode ficar durante o fim de semana, at que se tome uma deciso oficial. 
  - S acho que poderia ser confuso para os pacientes - Alex disse.  Quer dizer, ns temos o mesmo nome.
   Eu no me chamo Alexandra  ele disse com ironia. 
   Nem eu - ela falou erguendo ainda mais o queixo. 
   Ento, como se chama?
   Alexandria  ela disse.  E todos me chamam de Alex. 
   Sou Alexander, mas todos me chamam de Mack  ele retrucou.
  Alex no pde se impedir de pensar que tinha mesmo cara de Mack. Era um apelido curto e forte, sem nenhuma sutileza. E suspeitava que nada havia de gentil em sua personalidade. At os seus traos eram cortantes, o queixo firme, bem feito e escanhoado tinha um trao inconfundvel de inflexibilidade. Evidentemente era um homem que fazia as coisas do seu jeito. Os olhos azul-acinzentados tinham um brilho de cinismo, e sua boca parecia achar que sorrir seria desnecessrio e cansativo.
   Ento...  ela disse, olhando para ele.  Quando ns comeamos?
  CAPTULO QUATRO
  A PORTA DA clnica rangeu, protestando ao ser aberta apressadamente.
  - O novo mdico j chegou, Shirl?  perguntou uma voz masculina.
  Alex se voltou e viu um homem de cerca de 40 anos, apertando o brao contra o corpo e com uma cara de dor.
   Sim  disse Mack adiantando-se.  Sou o dr. MacDonald.
   Eu tambm - disse Alex se aproximando. O homem a ignorou e se dirigiu a Mack.
   Quebrei o brao  ele disse. - Se puder consert-lo aqui, no preciso ir at Geraldton. No posso passar muito tempo longe da fazenda agora.
   Ser preciso fazer uma radiografia para ver o dano  Mack falou.  H um raio-X porttil no meu consultrio.
  - Voc dirigiu at aqui? - Alex perguntou, querendo se envolver.
  - Sim	disse o homem, franzindo a testa. - Por qu?
   Voc vai precisar ser sedado para que coloque o seu brao no lugar -	Mack explicou. - H algum que possa chamar para lev-lo de volta para casa?
  - Minha mulher est em casa com as crianas. O caula estava dormindo, mas logo deve acordar - ele disse.  E no preciso de anestesia, Doc. J passei por muito pior que isto, no , Shirl?
  Shirley levantou os olhos e o seu suspiro disse tudo. 
  - Mack, este  Dougal Mason. Juro por Deus que tem mais pontos que uma colcha de retalhos.
  Dougal riu.
  - Nada de sangue desta vez, Shirl, s uma fratura limpa. Uma tora rolou da picape e caiu sobre o meu brao.
   Vou telefonar para Ruby e pedir que venha busc-lo - Shirley disse, pegando o telefone. - Voc pode mandar buscar a sua picape amanh de manh.
   Venha por aqui, sr. Mason. A propsito, eu sou Mack. 
  Alex lhe lanou um olhar custico.
  - Com licena, mas no estamos supostamente dividindo este trabalho?
  Dougal ficou momentaneamente confuso.
   Voc tambm  mdica?	ele perguntou.
  Sou  disse Alex com um sorriso na direo de Mack. - Espero ficar aqui durante seis meses. O dr. MacDonald e eu estamos pensando em compartilhar o cargo.
  Dougal soltou um assobio.
  - Que tal esta, Shirl?  Ele disse, olhando para a recepcionista com um ar brincalho.  Est chovendo gatos e mdicos nesse fim de mundo.
  CAPTULO CINCO
  MACK AINDA sorria por causa do comentrio de Dougal, quando se voltou para Alex.
  - Gostaria de me ajudar?  ele perguntou.
  At aquele momento, Alex no percebera como um sorriso podia mudar o rosto de um homem. Sentiu o corao se contrair de surpresa e levou um ou dois segundos para encontrar a voz.
   Humm... Sim... Seria bom...  disse, seguindo-os at a sala de atendimento. Ficou de lado, enquanto Mack ajustava o aparelho de raio-X e colocava o brao de Dougal sobre a placa.
   Fique com o brao parado por um momento, enquanto tiro as chapas  disse Mack, juntando-se a Alex atrs da tela de proteo contra radiao. Poucos minutos depois, colocava uma radiografia no quadro iluminado.
   Ento, qual  seu diagnstico, dra. MacDonald?  ele perguntou.
  Alex olhou para a radiografia e tentou no notar o quanto o seu ombro estava perto do dele. Sentia a leve, mas inconfundvel, fragrncia da sua loo de barbear, que lembrava o cheiro de limo ao sol. Mack ainda segurava a radiografia contra o quadro. Enrolara os punhos da camisa, revelando braos firmes e fortes, a pele bronzeada levemente encoberta por pelos. Alex sentiu que algo se remexia dentro dela, numa reao bem feminina.
   Voc j viu um pulso quebrado antes, dra. MacDonald?'  ele perguntou, quebrando o silncio.
  Alex voltou-se para encarar o seu olhar de deboche.
  - Claro.  uma clssica fratura Colles, com cerca de 10 de ngulo frontal. - Ela percebeu que Mack fitava a sua boca e sentiu novamente algo se remexer dentro do seu corpo.
    Voc prefere reduzi-la ou aplicar a sedao?  ele perguntou, olhando os olhos de Alex. Alex umedeceu os lbios. 
   Vou aplicar a anestesia.
   Muito bem, Dougal  Mack disse, voltando-se para o paciente.  O que temos  uma fratura relativamente simples, e com 10mg de sedativo voc no sentir dor. A dra. MacDonald vai injetar a anestesia enquanto eu corrijo a fratura e engesso o seu brao. Isto o deixar sonolento por urna ou duas horas. Recomendo que voc no dirija, nem opere alguma mquina at amanh.
  Alex colocou o torniquete, encontrou uma veia adequada, inseriu a cnula e aplicou o anestsico. Em alguns segundos, Dougal relaxou o suficiente para Mack lhe puxar o brao e coloc-lo no lugar. A esposa de Dougal, Ruby, chegou quando Mack acabava de engess-lo e de colocar o seu brao em uma tipoia. Vinha acompanhada de trs crianas, uma delas no tinha mais que seis meses.
  Depois das apresentaes, Ruby disse:
   Estou muito feliz por termos uma mdica em Kingfisher Crossing. Sem ofensa, doutor, mas este lugar precisa de uma viso feminina.
  Ainda no foi decidido se a dra. MacDonald ficar alm do fim de semana  Mack disse, olhando para Alex com um olhar de desafio.
  Alex fez urna careta e ergueu o queixo.
   Vou ficar - ela disse, acrescentando silenciosamente: tente me impedir.
  CAPTULO SEIS
  - E AQUI  a cozinha  disse Mack uma hora depois, enquanto mostrava o pequeno chal do mdico residente, ao lado da clinica.   bem simples, como pode ver.
  Alex rezou para no estar deixando a sua decepo transparecer. No esperava muito em termos de utenslios modernos, mas cozinhar numa nica chapa aquecida e num forno do tamanho de uma torradeira seria abusar das suas habilidades. Nunca haviam ouvido falar em micro-ondas naquele lugar?
   Podemos dividir as tarefas at resolverem se voc vai ficar, ou no  ele disse.  Um dos moradores trouxe alguns mantimentos hoje cedo. Pelo menos no vamos morrer de fome durante o fim de semana.
   timo, mas acho que devo lhe avisar...
   A propsito: no h restaurantes sofisticados, delicatessens elegantes nem bares  ele disse, dirigindo-se ao banheiro.
  Alex, que vinha atrs dele, levantou as sobrancelhas. 
  No esperava que tivesse.
   timo - ele falou, abrindo a porta do banheiro. 
  - Alm disso, no estou aqui para cozinhar  ela disse, encarando-o.  Estou aqui para salvar vidas.
  Uma sombra passou pelos olhos dele, mas Mack se virou antes que pudesse entender.
   Existem vidas que no podem ser salvas, dra. MacDonald - ele disse.  Este no  um lugar onde se encontra um especialista a um quarteiro ou dois. Aqui a tirania da distncia sempre ser o maior desafio.
  - Eu sei, mas isto faz parte do motivo pelo qual estou aqui. Quero provar a mim mesma que posso trabalhar em qualquer condio. Quanto mais difcil, melhor.
   O que voc fez?  ele perguntou com um sorriso que parecia mais um deboche. -Jogou um dardo no mapa?
  Alex contraiu os lbios com desprezo.
   Na verdade, acontece que fiz faculdade de Medicina com uma mdica que est trabalhando em Marraburra. Ela estava alguns anos mais adiantada que eu, mas nos tornamos amigas depois de trabalharmos na mesma enfermaria. Ela adora aquele lugar e logo vai se casar com um policial local. No sabia o que fazer e resolvi que estava na hora de fazer alguma coisa pela regio rural.
  Passaram-se alguns segundos de silncio.
   E por que voc veio para c?  ela perguntou. 
  Pareceu ficar sombrio, enquanto abria a porta da sala.
   Estava querendo espao, e Kingfisher Crossing me pareceu ter bastante.
   Espao para qu?  ela perguntou, levantando a sobrancelha.
  CAPTULO SETE
  MACK PENSOU no que deveria responder. Alexandria era de Melbourne e poderia no ter ouvido falar sobre o inqurito em Brisbaine, mas sabia que a imprensa comentara o caso por alguns dias. Detestava o olhar que lhe davam, quando percebiam quem era. "Ah, aquele dr. MacDonald", costumavam dizer. No sabia se era visto com pena ou com desconfiana, e no costumava esperar algum tempo para tentar descobrir. A invaso na sua vida fora insuportvel. A imprensa o havia cercado dia e noite, durante o perodo de audincias. A sua privacidade fora invadida de tal maneira, que soube que levaria meses ou anos para voltar a confiar em algum. 
   Mack?  ela insistiu.
  Olhou-a, observou a pele sedosa como uma ptala, a no ser por algumas sardas sobre o nariz.
   Me sentia aprisionado na cidade  ele resmungou. Voc sabe: s trabalho, sem diverso.
  Ele a viu torcer os lbios num suspiro.
   Sim, sei. Odeio ser eu a lhe dizer isto, mas aqui vai ser bem pior.
   No ser mais do que um mdico qualificado pode suportar.
  Ela mordeu os lbios.
   Acho que quando se trata desse assunto, provavelmente no sou to experiente como voc. Me formei h alguns meses... 
  Ele juntou as sobrancelhas.
  - Voc tem treinamento em servios mdicos de emergncia, no tem?
   Tenho...  Ela lhe deu um sorriso.  Essa confuso  meio estranha, no acha? Quer dizer, quantos dr. MacDonald existem no mundo?
  Mack ficou tenso.
  - No tenho ideia. Agora deixe que lhe mostre o resto da casa.
  Alex ficou com o quarto que ficava ao lado do de Mack. Tentou ignorar o formigamento que sentiu no ventre ao pensar que estaria dormindo to perto, mas sentiu que ficava corada.
   Se voc preferir o quarto de casal enquanto estiver aqui, posso ficar com este  ele ofereceu, num gesto que ela percebeu ser urna tentativa relutante de ser gentil.
  No, tudo bem. Estou acostumada a dormir numa cama de solteiro  ela disse, ficando ainda mais corada quando Mack levantou levemente as sobrancelhas.
   Ento, est resolvido. Vou deix-la desfazer as malas. 
   Mack?  Ele esperou at que ele a encarasse.  Voc no me disse de onde .

  CAPTULO OITO
  - QUEENSLAND.
  - Que parte de Queensland?
  Mack respirou mais rpido.
  - Brisbaine. Riverside. - Ele esperou que a ficha casse, mas ela sorriu levemente e mudou o peso de um p para outro,
  - Acho que deveria tomar um banho antes do jantar  ela disse. - 	Humm... Onde encontro uma toalha?
  Mack passou por ela, abriu um armrio, pegou uma toalha bege e a entregou. Seus dedos se tocaram brevemente. Recuou como se ele a tivesse queimado.
  - Obrigada...
  Os dedos de Mack ainda vibravam quando ouviu o clique da chave que trancava a porta do banheiro, poucos segundos depois...
  ALEX FEZ uma careta ao se olhar no espelho manchado, por cima da pia verde que deveria ser dos anos 30. Seus cabelos estavam suados e escorridos, e o seu rosto parecia repuxado e cansado, depois de passar horas na estrada. Tirou as roupas empoeiradas e ficou sob o chuveiro, tentando no pensar no corpo firme de Mack, que deveria ter estado no mesmo lugar h apenas algumas horas. Nu... Tentou afastar os pensamentos, assustando-se com a prpria ousadia. E quando comeou a espalhar a espuma cremosa do sabonete sobre o corpo, sua pele comeou a se arrepiar, como se os longos dedos que acidentalmente haviam tocado os seus h poucos minutos a estivessem explorando intimamente... Ouviu uma batida na porta.
  - Alexandria?
  Ela deixou o sabonete cair.
  - S-sim?  A voz, ainda que abafada pela porta, fez com que todos os seus cabelos se arrepiassem.
   H uma seca l fora, sabia? V devagar com a gua. 
  - Ah... Tudo bem  ela disse, sentindo-se tola ao fechar a torneira e pegar a toalha. - J estou saindo.
  MACK SENTIU as narinas se contrarem, assim que Alex entrou na cozinha, onde ele preparava uma salada. Um leve sopro de glicnias  ou seria madressilva?  brincava com o seu olfato. E a silhueta envolta num curto vestido de vero com alas o fininhas sobre os ombros levemente bronzeados atraia o seu olhar. Os seus seios pequenos, mas perfeitos, estavam soltos. Ele os via se movimentar sob o leve tecido, enquanto ela puxava um banco para se sentar perto de onde estava trabalhando. Perto demais.
  CAPTULO NOVE
  - O QUE POSSO fazer para ajudar? - ela perguntou.
  Mack no tirou os olhos da cebola que descascava, mas tudo que conseguia pensar era em lhe tirar as roupas, camada a camada. No que estivesse usando muitas. Provavelmente usava apenas uma calcinha de renda sob aquele vestido... Ele se repreendeu mentalmente. Calma. Ela no  o seu tipo.
  - Voc gosta de bife?  ele perguntou, olhando para ela. 
  Alex pareceu desanimada e mordeu os lbios.
  - Bife?
  Mack soltou a faca ao lado da cebola e a encarou. 
   Sim, voc sabe. Carne vermelha.
  Apertou os lbios e o olhou com humildade.
   No como carne vermelha. Na verdade, no como carne. Sou vegetariana.
  E a, o que eu lhe disse? Ela no  o seu tipo, Mack pensou resignado, colocando os bifes que um dos fazendeiros trouxera mais cedo, de volta na geladeira. 
  - E quando a peixe?  ele perguntou, voltando at o balco da cozinha.  Tenho algumas latas de atum, em algum lugar. Voc come? Alguns vegetarianos comem, outros no. 
  Ela sorriu como se ele fosse gostar da resposta.
   Bem, ento, isto limita as coisas - ele falou, passando a mo na cabea.
  Ela o viu lavar as mos, antes de voltar  salada.
   Voc tem alguma coisa contra os vegetarianos?  ela perguntou. Ele olhou para ela.
   No, mas voc percebe que este  um pas dedicado  criao de gado, no ?  Ele viu um brilho de incerteza passar pelos olhos dela.
   Humm...
  A no ser pela minerao em Meekatharra, este distrito  basicamente pastoril  ele continuou.  Voc vai passar maus momentos nos churrascos, aparecendo com o seu tofu.
  Alex roubou uma rodela de pepino da tigela e mordeu-a.
   Voc acha que vou encontrar tofu para comprar aqui? Eu s vi uma loja no caminho. No parecia ser amiga de tofu.
  No . Vende o bsico. Frutas e verduras chegam duas vezes por semana. Qualquer coisa de diferente precisa ser encomendada especialmente, e voc ter sorte se chegar dentro de uma ou duas semanas.
   Vou dar um jeito - ela disse com um sorriso de otimismo.  Ser apenas por seis meses, certo? Tenho certeza de que no vou morrer de fome.
  Mack precisou arrancar os olhos da tentao do seu decote. Seus msculos abdominais se contraram quando pensou nos mamilos sob o vestido de algodo. Ela se inclinara levemente, estava to prxima que ele poderia esticar a mo e toc-la...
  CAPTULO DEZ
  O SOM DO celular de Mack interrompeu o silncio.
   Doutor MacDonald?  disse uma voz jovem e masculina. - Temos uma emergncia. Sei que o senhor ainda no est atendendo oficialmente at segunda-feira, mas meu irmo caiu da moto. Meu pai e minha me esto com ele. No nos arriscamos a mov-lo, no caso de...
  Sentada ali perto, Alex podia ouvir o tom de pnico na voz do rapaz, e rapidamente pegou uma caneta e um pedao de papel e empurrou-os na direo de Mack. Olhou-a agradecido e comeou a anotar os detalhes sobre onde o paciente estava e as feridas mais evidentes que sofrera.
   Fique calmo. Vamos chegar o mais rpido possvel  ele disse, desligando.
   Voc acha que  grave?  Alex perguntou, enquanto corriam para a caminhonete de Mack, carregando as respectivas maletas.
   No tenho certeza  respondeu, colocando o cinto de segurana.  Espero que seja apenas urna concusso. No h sangramento externo, mas isto no significa que no haja hemorragia interna.
  Alex tentou ficar calma e controlada, enquanto relembrava os procedimentos de primeiros socorros que aprendera no curso de Atendimento de Emergncia a Traumas  Graves. As quedas de motocicleta eram conhecidas pelo impacto, e naquele fim de mundo, onde o uso de capacete no era exigido, sempre havia possibilidade de haver um severo dano na cabea. Mack lhe jogou um mapa no colo.
  - Encontre a Wattle Flat Road - ele disse.  Acho que  perto da sada para o Kingfisher Creek.
  Alex examinou o mapa e ficou tonta ao tentar ler enquanto o carro sacudia violentamente sobre as pedras da estrada. Sentiu urna onda de nusea e tentou control-la.
  - J encontrou? - ele pressionou.
  Estou procurando  ela disse, tentando evitar o pnico. E se no conseguisse achar? E se, por causa da sua tentativa ridcula de servir de navegador, o rapaz morresse? Provavelmente estaria com uma hemorragia no bao e sua presso estaria despencando, enquanto ela tentava identificar uma das poucas ruas que existiam na cidade. E se...
   Vamos, Alexandria - Mack falou com impacincia.  Uma criana de 10 anos iria se localizar nesse mapa. Existem poucas ruas por aqui.
  Alex sentiu suas penas se eriarem.
  - Se voc parasse de sacudir o carro nesta estrada, talvez conseguisse encontr-la  ela retrucou.  De qualquer jeito, e se eu no estivesse aqui? Voc teria de encontrar sozinho.
  Arrancou o mapa das mos dela e abriu-o sobre o volante. Com um olho na estrada e outro no papel, conseguiu localizar a sada e a estrada que procurava, assinalando-as com o polegar e o indicador.
  - Aqui est  ele disse, entregando-lhe o mapa. Mantenha-me na direo. Precisamos fazer urna curva  esquerda, numa fazenda chamada Karoo. Procure-a. H um sinal sobre a entrada, foi o que disse Nick Ellis.
  Alex olhou para o mapa, e levantou os olhos exatamente a tempo de ver a placa de Karoo passando  sua esquerda. 
    ali!
  CAPTULO ONZE
  MACK PISOU no freio.
   Aonde?
  Ela apontou para trs e sorriu.
   Ali atrs. Eu s a vi quando j era tarde.
  Murmurou uma praga e deu marcha a r, esticando o brao por cima do banco de Alex, por detrs do seu pescoo.
   Algum j lhe disse que voc  totalmente incapaz corno navegadora?  ele perguntou.
  Alex ficou ofendida.
    Algum j lhe disse que voc  um completo imbecil por criticar limitaes evidentes?
  De repente, ele sorriu, como se a resposta rpida o tivesse desarmado.
  - No  um bom mapa  ele admitiu. - E a placa est enferrujada.
  Alex sacudiu os ombros e alisou as penas.
   Tudo bem  ela balbuciou.  No consigo ler dentro de um carro em movimento sem ficar enjoada. Voc tem sorte por eu no ter despejado o meu almoo no seu colo.  
  Ele estremeceu e engatou a marcha.
  Voc deveria ter me dito.
  Alex se encolheu quando o sol a atingiu em cheio.
  - Acho que estou vendo algo  ela disse, apontando para a esquerda.  So eles, ali?
  - Parece que sim  disse Mack, virando o carro na direo do grupo de pessoas a distncia. Havia um trator e duas motocicletas, e uma delas estava cada ao lado de um eucalipto estropiado.
   Deveramos ter chamado uma ambulncia?  ela perguntou. Ele olhou para ela com ironia. 
   No estamos na cidade, Alexandria. Se este sujeito estiver seriamente ferido, teremos que remov-lo por ar. O servio mais prximo de resgate areo fica em Meekatharra. Quando voc foi pegar a maleta, liguei e pedi que ficassem em alerta. Se o caso ficar srio, estaro aqui dentro de uma hora. No adianta cham-los, a no ser que seja necessrio. 
  Alex parecia sentir que havia falhado em algum tipo de teste.
   Espero que no esteja morto - ela disse.  Nunca me perdoaria...
  O estmago de Mack se contraiu.
   Com certeza no foi to grave  tentou acalm-la, e tambm a si mesmo.  Provavelmente j voltou a si e esto se perguntando por que tanta confuso. 
  Em parte, Mack tinha razo, Alex concluiu pouco depois. Brad Ellis estava consciente, mas estava hiperventilando e se queixando de uma forte dor no quadrante superior do abdome. Seus pais e seu irmo mais novo se debruavam sobre ele, extremamente preocupados. 
  - Vou fazer a avaliao, Alex  Mack falou, colocando as luvas e assumindo o controle, enquanto examinava o paciente.  Vias areas: tudo bem. Ele est falando, mas tem dificuldade para respirar. Imobilize o pescoo enquanto eu pego o equipamento.
  Alex notou que Mack tinha uma maleta completa de paramdico, contendo equipamentos classificados por cores, de acordo com cada passo do atendimento de emergncia. Fizera o dever de casa, e ela se sentiu despreparada para a sua estada no deserto, j que a sua maleta era apenas o modelo padro. Mack pegou o estetoscpio e auscultou o peito de Brad.
   Acesso reduzido de ar  esquerda  ele disse. 	 Este lado est hiper-ressonante  percusso.
   Pneumotrax  Alex disse, examinando a traqueia de Brad, enquanto imobilizava o seu pescoo.  A traqueia sofreu um desvio para a direita.  um pneumotrax de tenso.
  Mack procurou na parte azul da maleta e pegou uma cnula 14-IV.
   Brad, provavelmente voc quebrou uma costela e perfurou um pulmo. Vou enfiar uma agulha no seu peito para ajud-lo a respirar, tudo bem?
  Brad conseguiu soltar algumas lufadas de ar, concordando, e contraiu o rosto de dor quando Mack comeou a cortar a sua camiseta.
  Alex sentia o desespero da famlia do rapaz. O ar quente e poeirento parecia estar cheio de angstia. At as copas das rvores, que h alguns segundos sussurravam, haviam feito silncio: suas folhas negras brilhantes faziam com que lembrasse das sombrias roupas pretas dos agentes funerrios...
  CAPTULO DOZE
  ALEX OLHOU para Mack, que desinfetava o peito de Brad com lcool, antes de inserir a agulha no segundo espao intercostal, na linha mdia clavicular. Quando a agulha perfurou a pleura, ouviu-se um assobio de ar, e logo o rapaz respirava profundamente, acabando com sua sufocante agonia.
  - Alex, coloque o colar cervical - Mack pediu, entregando-lhe um colar ajustvel que tirara da seo vermelha da maleta.  Preciso introduzir o tubo peitoral. Pode medir o seu pulso e a sua presso, e providenciar um acesso IV?
   Claro  Alex disse, olhando para o pai de Brad que perguntara se podia ajudar a segurar a cabea do filho, enquanto fazia o que Mack lhe pedira. Pelo menos lhe dera algo para fazer, pensou, tentando esquecer o ressentimento em nome da segurana do paciente.
  Joe Ellis ajoelhou na poeira. O rosto castigado pelas intempries estava apavorado, e engolia em seco, como se tentasse deglutir uma pedra.
   Meu filho vai ficar bem, Doc?  perguntou a Mack, ignorando Alex totalmente.
  - Precisamos lev-lo para o hospital  Mack disse.  Assim que drenar o seu pulmo, vou entrar em contato com o resgate areo. H algum lugar na fazenda onde eles possam aterrissar?
   H uma clareira perto da casa  Joe informou.  Ns s a usamos uma vez, h quase 10 anos, quando um dos nossos ajudantes caiu do cavalo e quebrou a coluna. Foi por isso que resolvemos usar motocicletas, que pareciam ser menos perigosas. Pelo menos foi o que pensamos...
   Tudo  perigoso - disse Mack para consol-lo, voltando-se para Alex.  Vou pedir ajuda. Faa o acesso e deixe correr um litro de soro.
  Quando voltou Alex informou que Brad estava com taquicardia e hipotenso e que respondia bem ao soro, mas os sintomas indicavam uma hemorragia intra-abdominal.    
  - Provavelmente no bao  ela disse. 
  - Precisamos remov-lo deste calor  disse Mack, olhando em volta,  procura de algo que servisse de maca para imobilizar o paciente e poder transport-lo. Viu um pedao de telha de zinco a alguns metros de um bebedouro de gado.
  Alex seguiu o seu olhar e, ansiosa por mostrar o quanto podia ser criativa, levantou.
  - Voc o monitora, enquanto pego o pedao de lata.
  A telha estava parcialmente coberta por galhos de eucalipto e pela terra avermelhada. Quando Alex a virou, deu um salto, apavorada, e soltou um grito que ecoou no ar causticante dos pastos.
  - Cobra!
  CAPTULO TREZE
  A COBRA TINHA um metro e meio e no ficou muito feliz ao ser perturbada. Levantou a cabea e agitou a lngua algumas vezes, antes de se desenrolar e sumir no mato.
  Voc est bem?  Mack perguntou, correndo at Alex.  Ela a mordeu?
  Alex sacudiu a cabea e estremeceu.
   No, mas poderia ter mordido facilmente. No sabia que ela estava ali.
   Deveria t-la avisado  ele disse aborrecido.  As cobras so atradas pela gua. Provavelmente estava procurando ratos debaixo da telha.
   Ratos? - Alex estremeceu novamente.  Eca. Odeio ratos, mais do que cobras.
  Mack deu um sorriso sarcstico e chutou a telha, antes de apanh-la.
   Voc est no campo, dra. MacDonald	ele assinalou, voltando para perto do paciente.   melhor se acostumar com os animais, grandes ou pequenos, ou voltar para casa, enquanto ainda tem chance.
  Alex franziu a testa.
  - No vou para casa  ela disse, mas, poucos minutos depois, quando o avio de resgate mdico aterrissou, esteve seriamente tentada a subir a bordo, sem olhar para trs nem uma vez.
  O chal estava escuro quando voltaram, mas o calor do dia ficara preso no seu interior e, quando Mack abriu a porta, saiu em ondas quentes e envolveu Alex como se fosse um cobertor. Ela se abanou e olhou para Mack, desanimada.
  - Como  que os habitantes daqui sobrevivem a este clima?  positivamente sufocante.
   Deve estar mais fresco na varanda de trs - ele sugeriu.  O sol bateu neste lado da casa a tarde inteira. Saia e sente-se um pouco. Vou trazer algo para beber. O que voc quer? Vinho branco, cerveja, ou algo mais leve?
   Um copo de vinho branco seria maravilhoso.
  Foi mais que maravilhoso, pensou Alex pouco depois, saboreando o aroma sutil de groselha e de maracuj do Sauvignon, enquanto ouvia o canto noturno dos grilos e dos sapos. No lembrava a ltima vez que nada ouvira alm dos sons da natureza, nem conseguia recordar da ltima vez que vira tantas estrelas brilhando no cu. A grade da varanda rangeu quando Mack parou ao seu lado e apoiou os braos no parapeito, e os cubos de gelo tilintaram dentro do seu copo.
   Voc fez um bom trabalho na fazenda dos Ellis  ele disse, olhando para ela.  Quando voc disse que era recm-formada, tive dvidas a respeito de como iria se sair, mas voc se saiu muito bem.
   Ento voc no acha que devo fazer as malas e voltar direto para a cidade? -	ela perguntou.
  Os olhares se encontraram na semiobscuridade, e os dois se fitaram por segundos interminveis, enquanto o silncio pulsava com a sensualidade que os envolvera...
  Mack sabia que deveria se afastar da tentadora boca de Alex, mas o impulso de sentir o toque macio dos seus lbios era demasiado forte. Aproximou-se lentamente e lhe beijou os lbios numa carcia suave que deveria ter sido suficiente mas que no foi. Levantou a cabea e viu o brilho de atrao nos olhos cor de chocolate. Voltou a beij-la, desta vez com mais ardor, abrindo-lhe os lbios com a lngua. Alex sentiu o corpo reagir imediatamente, enquanto intensificava o beijo. Sua pele se arrepiou quando ele levantou a mo e segurou-a pela nuca. Percebeu que seus cabelos se eriavam sob a palma da mo de Mack, e que suas costas amoleciam, enquanto se derretia dentro dos seus braos. Foi um beijo diferente de todos que recebera: vibrante, apaixonado, firme e doce, exaltado e terno, e totalmente cativante. Depois de algum tempo, Mack se afastou, olhando-a com um olhar cheio de desejo.
   No sei por que fiz isto  ele disse, contorcendo o rosto com pesar,
  - No sabe?  ela perguntou, levantando as sobrancelhas.
  - Bem, sei, mas isto no significa que vai acontecer de novo  ele disse, fitando-lhe os lbios.
  - Voc tem algum  sua espera em Brisbaine?  Alex perguntou. O som do coaxar dos sapos pareceu tornar o silncio mais intenso.
  Mack desviou os olhos.
  A minha noiva rompeu comigo seis semanas antes do nosso casamento.
   Mack... Sinto muito  ela falou gentilmente, tocando-lhe o brao.
  Olhou para os dedos dela, cujo tom fazia contraste com a sua pele bronzeada.
   Deveria ter percebido o que estava para acontecer - ele disse, passando distraidamente o dedo nas costas da mo de Alex.  O processo se estendeu, e ela se cansou de fingir que concordava com os meus advogados de defesa.
   Processo? Alex se espantou.  De que o acusaram? 
  Mack se voltou para encar-la. As sombras da noite faziam com que seus olhos azuis-acinzentados parecessem sombrios e misteriosos.
   Fui acusado de ser responsvel pela morte de uma criana.
  CAPTULO QUINZE
    - Mas voc foi inocentado?  Alex perguntou, contendo a respirao.
    Ele deu um sorriso retorcido e sem humor.
    - Fui, mas no antes que o meu nome e a minha reputao tivessem sido destrudos pela imprensa.
     O que aconteceu?
    Ele soltou um suspiro.
     Um menino de trs anos me foi trazido com vmitos e hematria. Encontrei uma massa abdominal e suspeitei de nefroblastoma. Encaminhei-o a um oncologista peditrico. Insisti com os pais que o caso era urgente, e pareceram entender. Depois de ter feito de tudo para que fossem atendidos o mais rapidamente possvel, marquei a consulta com o oncologista. Aparentemente, ao invs de procur-lo, os pais resolveram que seria melhor tratar o filho com terapias alternativas. No recebi nenhum retorno do especialista	 e depois de duas semanas tentei telefonar para os pais, mas tinham se mudado e no haviam informado o novo endereo para ningum. Liguei para o oncologista e soube que no haviam aparecido para a consulta. Seis meses mais tarde, depois de tentarem uma srie de tratamentos pseudocientficos, o menino morreu. Os avs paternos resolveram me processar por no ter garantido que a criana fosse devidamente cuidada e tratada. Achavam que eu deveria ter me empenhado mais para que os pais seguissem as minhas recomendaes.
   Voc no teve culpa! Alex insistiu. -- Voc seguiu o procedimento normal. Os mdicos no podem procurar cada paciente que atendem. Do contrrio, jamais conseguiriam fazer seu trabalho. Alm disso, voc se empenhou em apressar a consulta com um especialista.
   Sim, e foi isso que fez com que o juiz se decidisse, mas voc sabe o que a imprensa pode fazer com esse tipo de caso, e quando a lama comea a se espalhar, ela gruda em voc.  um clima de julgamento, Alex. Algumas pessoas veem a chance de fazer uma pequena fortuna, aproveitando-se de um resultado adverso, e no se importam com a extenso com que isso afeta os profissionais envolvidos, ou suas famlias.
  Alex mordiscou os lbios.
   Realmente existem casos onde houve incompetncia - ela falou, lembrando-se de um caso recente na cidade de Mack, envolvendo um mdico cujas qualificaes como cirurgio no tinham sido devidamente confirmadas. Isto resultara na morte de vrios pacientes, aps cirurgias malfeitas, antes que uma enfermeira corajosa passasse por cima da hierarquia do hospital e procurasse as autoridades para desmascar-lo.
  - A lama fica grudada, mesmo depois de ser completamente inocentado da acusao de negligncia, um tero dos pacientes sumiu do consultrio. Cheguei a receber e-mails ameaadores. Muitas pessoas no estavam interessadas nos fatos: souberam que eu estava envolvido num caso que envolvia a morte de uma criana e concluram que isto era um indcio de que eu deveria ser evitado.
   Ento, sua noiva rompeu o noivado por causa disso?  ela perguntou admirada.
  Mack percebeu que ainda segurava a mo dela e a soltou rapidamente.
   Sim. Trabalhava na mesma clnica, mas, para ser sincero, acho que no foi apenas por causa disso.
   O que quer dizer?
  Ele suspirou e a encarou. A expresso suave de sua boca e a bondade que via nos seus olhos rompiam as barreiras que construra em torno do corao.
   Ns fomos levados a um relacionamento. No me lembro de t-la pedido oficialmente em casamento. Foi algo que presumimos que iria acontecer, mas agora eu sei que faltava algo.
   O que faltava?  Alex perguntou. O seu hlito era uma carcia que brincava nos lbios de Mack.
   Acho que era isto que faltava  Mack disse com a voz rouca, inclinando-se para beij-la.
  CAPTULO DEZESSEIS
  ALEX SUSPIROU de satisfao quando Mack se apropriou de sua boca, dando-lhe um beijo que a deixou toda trmula. Sentiu um arrepio quando ele ultrapassou a barreira macia dos seus lbios e lhe tocou a lngua, numa provocao to ertica que o desejo se espalhou pelo seu corpo. Seus seios ansiavam por ser tocados, seus mamilos despontavam sob o vestido, suas pernas ficavam bambas. Aconchegou-se a ele, querendo que a tocasse, sentindo algo que no sabia explicar. Alex no era do tipo de ter aventuras casuais. O seu relacionamento com Garry Harrison fora relativamente longo, at que percebera que no o amava o suficiente para ir em frente, e levara um bom tempo para convenc-lo de que estava tudo acabado. Algo em Mack fazia com que sentisse coisas que nunca sentira antes: a chama instantnea do desejo, que sentia por dentro e por fora, uma necessidade que pulsava ritmicamente, e que s ele provocava. Mack deixou sua boca para lhe beijar o pescoo, acariciando a sua garganta com a lngua e descendo at seu decote. E afastou as alas de seu vestido e beijou a curva do seio que desnudara, envolvendo-o com a mo, acariciando-lhe o mamilo. Era to macia e tentadora, e o seu corpo parecia adquirir vida quando a tocava e a beijava. Queria explor-lo minuciosamente, saborear o seu gosto, senti-la estremecer em seus braos, enquanto a preenchia com a sua energia vital.
  Alex conteve o flego quando sentiu a boca de Mack sobre o seio, sugando-a e lhe dando tanto prazer, que sentiu as pernas enfraquecerem sob o peso do desejo. Fechou os olhos e suspirou quando ele lhe desnudou o outro seio, e quase se incendiou ao sentir o toque de sua lngua, da presso suave de seus dentes. Alex comeou a estremecer convulsivamente, enquanto via a cabea de Mack pressionada contra o seu seio. Suas pernas vacilaram ao pensar que ele poderia descer mais um pouco e chegar ao ponto onde o seu corpo pulsava, ansiando para ser preenchido. E ele voltou a lhe beijar os lbios, deixando-a completamente sem flego. Tremia em seus braos, e a aspereza de sua barba contra o rosto fazia com que se lembrasse da diferena que existia entre os dois. Eram um homem e uma mulher. Estavam extremamente atrados um pelo outro e estavam completamente sozinhos...
  CAPTULO DEZESSETE
  ALEX SE afastou de Mack com dificuldade, com a respirao ofegante, e puxou as alas do vestido, colocando-as no lugar. Seus olhos mal conseguiam encarar o brilho dos olhos dele.
   Desculpe  ela balbuciou embaraada.  No sei o que me deu. No queria lhe dar uma impresso errada. No sou do tipo que se entrega a qualquer um. Nem costumo beijar no primeiro encontro...
  Ele passou a mo nos cabelos.
   Ningum se machucou  ele disse, tentando dar um sorriso. - Quer dizer, se voc no estiver envolvida com algum na sua cidade. Odiaria invadir o terreno dos outros.
  Alex pressionou os lbios, mas ainda sentia o gosto dele.
   No estou envolvida com ningum. Pode parecer ridculo, mas o meu ltimo encontro oficial j faz quase um ano.
   No me parece nem um pouco ridculo  ele disse gentilmente.  Foi um rompimento desagradvel?
   No, nem um pouco  ela disse.  Embora tenha levado algum tempo para convenc-lo de que estava falando srio a respeito de estar tudo acabado. Foi por isso que vim para c. No o amava, muito pelo contrrio. No incio, saamos algumas vezes, mais por convenincia. Quando nos	tornamos mais ntimos, percebi que estava me iludindo a respeito da nossa compatibilidade.
   Ento, no havia chama?
  - Sequer uma fagulha  disse Alex, corando.
  Mack se virou e olhou a lua que surgia no horizonte.
   No quero lhe dar falsas esperanas  ele disse. Esse beijo...  hesitou, pensativo. - Foi algo que no deveria ter acontecido, e no teria, em qualquer outro dia.
    provvel...
  Ele se voltou para ela.
   Voc no pode ficar aqui, Alex, e com certeza j percebeu.
  - No vejo por que no  ela argumentou.  Voc mesmo disse que me sa bem na fazenda dos Ellis. No vejo por que no podemos dividir o trabalho por seis meses.
  Mack podia pensar em boas razes pelas quais no deveriam dividir nada, muito menos uma casa e um trabalho.
   Voc pode no estar aqui depois do fim de semana  ele advertiu.  Tony Hallum pode no querer lhe pagar.
  Alex se debruou no parapeito da varanda e o seu brao roou o dele. Mack se arrepiou, sentindo o perfume que o fazia pensar em noites cheias de paixo, nos seus corpos enroscados.
   Voc realmente acha que se ns dois ficarmos aqui seria um problema?  ela perguntou.  Estando to isolados, seria mais seguro, como disse Shirley, e ns trabalhamos bem, juntos. Voc poderia me ajudar a adquirir mais confiana  ela sorriu e acrescentou. - E voc poderia me ensinar a consultar mapas.
   No sei -	ele disse, encarando-a.  O que voc acha?
  CAPTULO DEZOITO
  O PROBLEMA  que Alex no conseguia pensar quando Mack a olhava daquele jeito. Aqueles lindos olhos acinzentados lhe provocavam sensaes, toda vez que a fitavam.
   Se voc concordar, por mim, tudo bem  ela disse. 
  Olhou-a por algum tempo.
   No est preocupada com a queda do salrio? 
  Abanou a cabea e sorriu com ironia.
   No vim aqui pelo dinheiro, e, em todo caso, aqui praticamente no h onde gastar. Alm disso, dividindo a casa no estaramos economizando uns trocados?
  Mack olhou novamente para a lua, franzindo a testa.
   Voc j morou com algum homem?  ele perguntou. 
   Voc est se referindo a um relacionamento romntico?
  - Estou.  Ele voltou a olhar para ela. Alex corou intensamente.
   No. Esse foi um dos problemas com o meu "ex". Estava disposto a morar no meu apartamento, mas j me via presa em algum subrbio, antes de estar preparada.  Ela soltou um suspiro.  A vida  muito dura nesta rea remota. No acho que seria muito pedir aos mdicos recm-formados que viessem para c por alguns meses, ou at por alguns anos, no acha?
  Mack se sentiu afundar nos enormes olhos castanhos de Alex. O que possua, que o fazia reagir daquele jeito? No lembrava de ter sentido tamanha atrao durante o tempo em que estivera envolvido com Deborah. De repente, deu-se conta de que Alexandria MacDonald era tudo que Deborah Philips no era. Alex no tivera um ataque diante da confuso que haviam feito a respeito da contratao dos dois. Pelo contrrio, empenhara-se corajosamente, em circunstncias estressantes. Era flexvel e corajosa, qualidades muito importantes para um mdico rural. E era extremamente bonita. Os seus cabelos louros e os seus olhos castanhos formavam uma combinao de tirar o flego, sem mencionar o seu corpo esguio e bem torneado. Ainda sentia nas mos a sensao que seus mamilos haviam lhe provocado. Seus dedos ansiavam por percorrer as curvas macias e saborear a sua delicadeza novamente. De repente, Alex endureceu o corpo, ao lado dele.
   Mack?  ela sussurrou com os olhos arregalados de medo.  Voc ouviu um barulho?
   Que barulho? - ele perguntou, franzindo a testa.
  Ela colocou o dedo sobre os lbios, pedindo que ele se calasse.
   Oua.
  Mack prestou ateno, e ento ouviu. O rangido inconfundvel do piso de madeira, sob o peso de algum que se movimentava furtivamente dentro de casa...
  CAPTULO DEZENOVE
  - FIQUE AQUI, enquanto vou dar uma olhada  Mack falou baixinho.
   Por que no chama a polcia? - Alex sussurrou, pegando-o pelo brao.
   Ningum lhe disse que no existe delegacia em Kingfisher Crossing? O distrito de polcia mais prximo fica em Marraburra.
  Ela arregalou os olhos e apertou o brao de Mack.
   No h polcia?  ela engoliu em seco.  E se quem estiver l dentro for um assassino, ou algo assim?
  Mack levantou os olhos para o cu e a levou calmamente at o abrigo do poo, ao lado da casa.
   Fique escondida aqui. Provavelmente  um gamb procurando comida. Voc deixou a janela do seu quarto aberta?
   Humm... Talvez.  Ela mordeu os lbios. Ele lhe pegou a mo e tentou tranquiliz-la.
   No demoro  ele disse, desaparecendo no escuro.
  Alex se apoiou na parede do poo e tentou acalmar as batidas do corao. Os rudos da noite, que tanto a haviam agradado, agora faziam com que se sentisse terrivelmente isolada. Alm da clinica, ali ao lado, s havia outra construo a distncia de um quarteiro. Quando Mack lhe mostrara a casa antes de serem chamados at a fazenda dos Ellis, comentara que alguns vizinhos haviam se mudado para o litoral, fugindo do calor e da seca. O pequeno armazm e o posto de gasolina ficavam na rua de trs, mas sabia que nenhum dos dois estaria aberto quela hora da noite. Alex olhou para alm do poo, tentando enxergar algum sinal de vida, mas a nica casa que viu estava deserta e suas janelas pareciam olhos escuros espiando a noite. Urna coruja piou no galho de uma das rvores mais prximas, e ela sentiu o corao lhe subir  boca. Encolheu-se contra o poo, com a respirao descompassada, e sentiu que suas pernas pareciam feitas de algodo, no de msculos e ossos. Conteve a respirao ao ouvir barulho na casa. Estava to alerta que sentia a adrenalina se espalhando pelo seu corpo. O suspense a matava. Se fora apenas um gamb, por que Mack no voltara? E por que diabos no acendera as luzes?
  Com as costas pressionadas sobre a parede fresca, Alex se arrastou e deu a volta no poo. E deu de cara com um homem que lhe apontava uma arma.
  CAPTULO VINTE
  ALEX J assistira centenas de filmes onde vira a mesma cena, mas nunca percebera que os atores transmitiam exatamente o pavor que sentia naquele momento. Seu corpo congelara, como se fosse feito de cimento instantaneamente endurecido. No conseguia movimentar a garganta o suficiente para gritar. Seu corao parecia querer saltar do peito, antes que a silhueta obscura pudesse atingi-lo com uma bala.
   Onde esto as drogas?  O homem perguntou.
  Alex viu o brilho do revlver e engoliu o medo que lhe paralisara a garganta.
   D-drogas?
   Esta  a casa do doutor, no ?  o homem perguntou.  Soube que Doc MacDonald chegava hoje. Voc deve ter narcticos na maleta. Onde esto?
   Minha maleta est...  Onde est a minha maleta? Sentiu o pnico aumentar. Tirara a maleta do carro de Mack, ou...  O homem lhe cutucou o estmago com a arma, e os olhos dele brilharam ameaadoramente.
   Entregue a maleta. Agora.
  M-mas eu no sou o dr. Alexander MacDonald  Alex disse, torcendo para enrol-lo at que Mack viesse socorr-la.
   Alexander MacDonald?  o homem repetiu.
   Sim  ela respondeu com a voz trmula.  Doc MacDonald  um homem, no uma mulher.
   Ento, quem diabos  voc?  o homem perguntou, abaixando a arma, distrado.
   Eu... h...  Alex subitamente viu Mack se aproximar por detrs do homem, movendo-se com tal agilidade que s levou um segundo para imobiliz-lo e lhe tirar a arma. 
  Mack arrastou o homem para a casa, segurando-o pela camisa, de tal maneira que mal conseguia por os ps no cho, e informou-o que a polcia estava a caminho. 
  Aparentemente as autoridades do oeste australiano estavam  sua procura h alguns dias, seguindo o rastro de uma srie de assaltos em clnicas que ficavam ao longo do litoral e do deserto. Em menos de uma hora, os dois policiais de Marraburra haviam chegado, enfiado o criminoso no banco traseiro do carro e colhido o depoimento de Alex e de Mack. Era a primeira vez que Alex encontrava o belo sargento por quem sua amiga Amy Tanner se apaixonara, e pensou que o amor podia surgir nos lugares mais remotos. Quando a polcia foi embora, Mack pegou as mos trmulas de Alex.
  - Voc est bem, querida?  ele perguntou com ar preocupado.
   Ei!  ela exclamou com um sorriso admirado. Voc acabou de me chamar de querida.
  Ele deu um sorriso torto e acariciou suas mos. 
   , chamei, no foi?
   Voc tem algum motivo particular para me chamar assim?  perguntou com um brilho de esperana nos olhos.
   Na verdade, tenho  ele disse.  Mas voc vai ter que esperar at que os seis meses acabem, para que lhe diga. Os olhos dela se iluminaram.
   Quer dizer que voc quer que eu fique?
  Ele lhe beijou a ponta do nariz arrebitado e sorriu. 
  O que voc acha, dra. Alex MacDonald?
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